No momento em que nos despedimos do Papa Francisco, é apropriado recordar e realçar o que de mais positivo houve no seu pontificado. Na minha modesta perspectiva creio serem de realçar três pontos principais: a compaixão e valorização da vida humana, a evangelização e a promoção da paz.

Relativamente à compaixão e valorização da vida humana vale a pena recordar a última mensagem do Papa Francisco, escrita para a Benção Urbi et Orbi e lida no Domingo de Páscoa, na Praça de São Pedro:

“Cristo ressuscitou! Neste anúncio encerra-se todo o sentido da nossa existência, que não foi feita para a morte, mas para a vida. A Páscoa é a festa da vida! Deus criou-nos para a vida e quer que a humanidade ressurja! Aos seus olhos, todas as vidas são preciosas! Tanto a da criança no ventre da mãe, como a do idoso ou a do doente, considerados como pessoas a descartar num número cada vez maior de países.”

É também à luz do seu compromisso com uma genuína compaixão e com o valor intrínseco de cada pessoa que deve ser entendido o apelo a uma Igreja sem portas e aberta a “todos, todos, todos”. Assim como aquela que foi uma das frases mais marcantes que proferiu, neste caso na vigília junto ao Tejo por ocasião da Jornada Mundial da Juventude de 2023: “O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se.”

No que diz respeito à evangelização, o Papa Francisco deixa uma marca de abertura ao mundo. Seja pela diversificação geográfica e cultural do Colégio dos Cardeais seja pelo seu foco nas periferias, o primeiro Papa da América do Sul (que foi também – importa não esquecer – o primeiro Papa jesuíta, com tudo que isso implica) deixa como legado uma Igreja de alcance ainda mais global. De tal forma que no âmbito dessa evangelização de alcance global não surpreenderia pelas condições entretanto criadas que o próximo Papa fosse oriundo da Ásia ou de África.

E por último, ainda que certamente não menos importante, a promoção da paz. Foi esse aliás o foco principal da última mensagem do Papa Francisco, que importa novamente recordar:

“Não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros. Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A necessidade que cada povo sente de garantir a sua própria defesa não pode transformar-se numa corrida generalizada ao armamento. A luz da Páscoa incita-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e que acarretam consequências políticas e económicas. Incita-nos a cuidar uns dos outros, a aumentar a solidariedade mútua, a trabalhar em prol do desenvolvimento integral de cada pessoa humana. (…) Apelo a todos os que, no mundo, têm responsabilidades políticas para que não cedam à lógica do medo que fecha, mas usem os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, combater a fome e promover iniciativas que favoreçam o desenvolvimento. Estas são as “armas” da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte! Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser o eixo do nosso agir quotidiano. Perante a crueldade dos conflitos que atingem civis indefesos, atacam escolas e hospitais e agentes humanitários, não podemos esquecer que não são atingidos alvos, mas pessoas com alma e dignidade. E, neste ano jubilar, que a Páscoa seja também uma ocasião propícia para libertar os prisioneiros de guerra e os presos políticos!”

A promoção permanente e intransigente da paz por parte do Papa Francisco levou a que a sua acção fosse em alguns momento mal compreendida mas a verdade é que neste importante domínio esteve em plena linha de continuidade com os seus antecessores São João Paulo II e Papa Bento XVI. Uma linha que privilegiou sempre as tentativas de propiciar resoluções diplomáticas para os conflitos militares e a crítica a todos quantos justificam e perspectivam a guerra como uma ferramenta para fazer avançar os seus interesses, independentemente de o belicismo ter origem em regimes autocráticos ou de ser resultado da agenda neoconservadora que tragicamente dominou a política externa ocidental no passado recente.

Uma última nota, com maior proximidade pessoal, para recordar a visita do Papa Francisco à Universidade Católica Portuguesa, em 2023. Como é realçado na nota da UCP sobre o falecimento de Sua Santidade, o Papa Francisco:

“Recordamos com particular emoção a visita de Sua Santidade à nossa Universidade, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, em agosto de 2023. Foi um momento inesquecível e profundamente marcante para toda a comunidade académica. Nesse encontro, o Papa Francisco apelou à coragem do pensamento livre e ao compromisso com uma ecologia integral, desafiando os jovens a lutar contra a complacência e o medo “…tende a coragem de substituir os medos pelos sonhos: não sejais administradores de medos, mas empreendedores de sonhos!” Nesta ocasião, em que todos fomos peregrinos, a Universidade Católica foi interpelada a contribuir para um mundo mais justo, mais humano, mais solidário. O Papa Francisco encorajou-nos a sermos “poetas sociais”, capazes de imaginar e construir, com liberdade e criatividade, alternativas que transformem a realidade e exortou-nos a conjugar a excelência académica com o compromisso ético e social.”

Que saibamos ter o discernimento necessário para conseguir aprender com o testemunho do Papa Francisco e que possa agora descansar em paz.