Há quem ensine pelo que diz e há quem ensine, muito mais eficazmente, pelo que faz — ou, neste caso, pelo que continua a fazer. No dia seguinte. À mesma hora. Como se nada fosse. É isso que, sem nunca o ter pretendido, me ensinou Joana Marques, num tempo em que quase tudo parece girar em torno da reação, do eco, da resposta imediata, do barulho que se faz depois das palavras serem ditas.

Vivemos numa época curiosa: já não interessa tanto o que se diz, mas o que os outros fazem com aquilo que ouvem. Uma frase é rapidamente arrancada do contexto, passada pelo filtro da sensibilidade pessoal e devolvida ao mundo como ataque, julgamento moral ou violência simbólica. A partir daí, instala-se o ritual habitual: indignação em cadeia, pedidos públicos de desculpa, exigências de retratação, tribunais improvisados nas redes sociais. O que começou pequeno acaba invariavelmente grande, pesado, dramático — como se a vida dependesse daquela polémica.

É neste cenário que Joana Marques se torna interessante. Não porque diga coisas explosivas — raramente o faz — mas pela desproporção evidente entre a banalidade do humor e a intensidade das reações que provoca. Observa, comenta, ironiza. Às vezes acerta, outras falha. Como qualquer pessoa. A diferença está no depois. No dia seguinte, lá está outra vez. Não entra em modo penitencial, não transforma a polémica numa identidade, não passa dias a explicar-se. Continua. E isso, hoje, é tudo menos trivial.

Durante muito tempo, confesso, vivi demasiado atento ao olhar dos outros. Como padre, isso é quase inevitável. Há uma exposição pública regular, uma palavra dita todas as semanas, um conjunto de expectativas que nos são colocadas em cima como se fossem parte do cargo. Somos observados, avaliados, comentados. Há quem escute com benevolência, há quem discorde, há quem projete em nós frustrações próprias. A tentação é clara: começar a condicionar a palavra ao receptor. Pensar antes de falar não por prudência, mas por medo. Não dizer o que se pensa, mas apenas o que parece seguro, inofensivo, indolor.

O problema é que isso não funciona. Nunca funcionou. Porque haverá sempre alguém que não gosta, alguém que se sente atingido, alguém que lê intenções onde elas não existem. A vida não é um espaço esterilizado e a palavra, quando é verdadeira, raramente passa incólume.

A Joana Marques parece ter percebido isso cedo. Já explicou que o que faz não é um ataque pessoal nem um juízo moral: é um olhar. O olhar dela. Humorístico, irónico, muitas vezes absurdo. Quem quiser rir, ri; quem não quiser, muda de estação. O problema começa quando se exige que o outro deixe de ser quem é para não nos incomodar, como se a tranquilidade pessoal fosse um direito absoluto garantido por terceiros.

Aqui tocamos numa das fragilidades mais evidentes do nosso tempo: a incapacidade de lidar com o desconforto. Tudo é vivido como ataque, tudo é sentido como violência, tudo exige resposta imediata. O resultado é previsível: tensão constante, rigidez, uma sucessão de indignações que deixam pouco espaço para a ironia, o humor ou a simples diferença. Queremos um mundo acolhedor, mas reagimos mal a tudo o que nos tira do centro.

O paradoxo é evidente. Proclamamo-nos livres, plurais e abertos, mas reagimos mal à crítica leve, ao humor, à ironia. Defendemos a liberdade de expressão em abstracto, mas praticamos uma vigilância permanente sobre aquilo que não gostamos de ouvir. A liberdade é bonita — desde que não nos toque.

Ora, se a minha liberdade depende da reação do outro, então não há liberdade nenhuma. Há apenas negociação permanente com o medo. Medo de desagradar, medo de ser mal-interpretado, medo de perder aprovação.

Foi aqui que a atitude da Joana Marques me ajudou a recentrar. Não porque tudo o que ela faz seja irrepreensível — não é esse o ponto — mas porque demonstra algo essencial: não personalizar tudo, não transformar cada crítica numa ferida, não fazer da reação alheia um espelho da própria identidade. Continuar, simplesmente continuar, sem dramatizar.

Lembrei-me, a propósito, de uma atitude atribuída a Paulo VI. Em contextos difíceis, sob pressões internas e externas, a resposta era quase desarmante: acordar e celebrar a Missa à mesma hora de sempre. Não por alienação, mas por lucidez. Porque há coisas que não podem ficar reféns do ruído. Porque a vida continua e o essencial não muda com a polémica do dia anterior.

É isso que vejo também aqui. Continuar não é desprezar o outro. É recusar viver em modo reativo. É não deixar que cada reação determine o rumo do dia seguinte.

Vivemos demasiado dependentes da validação externa. Quando a identidade passa a depender do aplauso ou da indignação, perde-se autonomia. Vive-se em função do espelho. E basta que o espelho diga algo diferente para o caos começar. A história da Branca de Neve, aliás, nunca foi sobre a Branca de Neve. Foi sempre sobre a Rainha. Sobre alguém que só sabe quem é enquanto o espelho confirma a imagem que deseja ouvir. Enquanto o espelho responde “és a mais bela”, há paz. No momento em que a resposta muda, não se questiona o espelho, nem se aceita a realidade: ataca-se a verdade, persegue-se quem a encarna, perde-se a medida e a humanidade. A moral é simples e desconfortável: quando não sabemos lidar com aquilo que não gostamos de ouvir, transformamo-nos facilmente naquilo que dizemos combater — mais duros, mais agressivos, mais injustos e, no fim, mais prisioneiros de nós próprios.

O Evangelho, curiosamente, nunca foi uma escola de suscetibilidades. Jesus não viveu refém da aprovação, não moldou a verdade ao aplauso, não dramatizou cada crítica. Disse o que tinha de dizer e seguiu caminho. Livre.

E é aqui que chego ao ponto decisivo. Ser assim — viver com esta distância, este humor, esta capacidade de continuar — já não é apenas um acto de liberdade. No mundo em que vivemos, é um acto de resistência. Resistência à cultura da ofensa permanente, à ditadura da reação imediata, à ideia de que tudo é um ataque e toda a palavra um juízo moral.

Continuar no dia seguinte como se nada fosse, sem cinismo, sem agressividade, sem desprezo, é hoje um gesto profundamente contra-cultural. É uma forma silenciosa de dizer: não vou deixar que cada opinião me roube a liberdade interior.

Por isso, sim, obrigado, Joana Marques: não pelo que dizes em concreto, mas pelo que mostras — que continuar, simplesmente continuar, é hoje um acto de resistência, como o foi para Paulo VI quando, em meio ao ruído e à pressão, se levantava e celebrava a Missa à mesma hora de sempre; num tempo frágil e reativo, essa fidelidade tranquila ao essencial é uma das últimas formas reais de liberdade.