O algoritmo treinado por mim só me mostra o que quero ver. Sempre que diverge ou se engana, dou-lhe indicação de que falhou, para que corrija o lapso depressa. Só vejo o que me apaixona e me inspira. O que é mau fica longe da vista.
No algoritmo como na vida. Os maus ao longe, perto só quero quem vem por bem.
Então, penso, se rodearmo-nos apenas da beleza nos aliena, converso com um amigo sobre os riscos da auto-alienação: divorciarmo-nos a tal ponto daquilo que nos é divergente, que pairamos num mundo paralelo e sem par na vida comum.
Respondo que é perigoso, mas que já não aguento na vida gente má, racistas encapotados e a céu aberto, maliciosos disfarçados de próximos, amigos da onça.
Prefiro pensar que se tiver sido em nome da beleza, valeu tudo a pena, sem perder sequer dois minutos, como perderia se fosse há vinte anos, a pensar que primeiro é preciso definir o conceito de beleza.
(Tanto tempo perdi na mania estúpida de precisar de definir primeiro as coisas importantes da vida, quando, na prática, sabia muito bem o que significavam para mim.)
Não é preciso. Sei bem o que quero dizer. O mundo está povoado de maldade a um ponto que quase só resta fugir, bloquear, ocultar. Petisco jornais e fico indisposta, pico debates e aflijo-me. Falo com os meus amigos: multiplicam-se os planos de fuga, imaginamos o que seria se vivêssemos de novo em ditadura, é um desalento fundo que o Outono piora.
Quando era mais nova, e já tinha as inclinações que tenho, pensava que a bondade era mais preciosa, especial, interessante do que o mal. O mal é arguto, infatigável, mas desinteressante. Que o difícil é entender por que razão os bons persistem e perseveram na preguiça da bondade.
É um exercício para os nossos dias. Achar os bons e tentar entendê-los. São criaturas fascinantes e raríssimas as pessoas que fazem o bem e que querem o bem dos outros sem esperar nada.
O bem e a beleza. Pouco importa os anos que se podiam gastar a entender completamente o que são. Importa que os reconheço nos outros e nas coisas que fazem. É arte que gostaria de saber dominar, a de chamar a mim apenas os bons, que viessem comigo, meus amigos, como as crianças iam atrás do flautista de Hamelin, conto que termina mal.
E, logo, o choque com a vida: também desconfio das associações de benfeitores, das proclamadas boas pessoas, das comunidades de qualidades excepcionais. Que género de inferno é um mundo só habitado por boas pessoas? Um mundo onde ficaria sem emprego, por não ter nada que dizer, e onde a vida seria um tédio insuperável.
No Natal, a cada mesa, partilhando os mesmos pratos, os bons e os maus que nos couberam. Quero que passe depressa, prefiro a ideia à vida. Para depois entender que também eu não sou boa, que os outros à mesa são a minha gente, que para muitos serei uma péssima pessoa. Dou-me por feliz por haver quem me compreenda. E desejo que o Inverno seja breve.