Como para o BE não existe qualquer outro fundamento que não o ideológico, os bloquistas até podem pensar que os vírus têm opções ideológicas e que só o SNS irá curar os infectados. Por questões de interesse partidário, nos últimos anos, o PS andou a reboque desta crença, mas o governo dum país não pode jogar com a vida dos seus cidadãos.

No mundo real é uma loucura pensar que apenas o SNS será capaz de fazer frente aos efeitos e consequências do coronavírus. Para responder a esta epidemia, vai ser necessário um esforço e uma actuação conjunta que envolva os sectores público e privado e todos os cidadãos portugueses. E tendo em conta o que se sabe sobre o COVID-19 – que há um período de incubação, que há faixas etárias mais susceptíveis à mortalidade e que é possível conter ou atenuar a sua transmissão – é que a gestão do governo português é incompreensível.

Sabíamos do potencial de alastramento deste vírus há mais de 6 semanas. É inteligível que só tenha sido iniciada a elaboração de planos de contingência para a generalidade das entidades públicas na semana em que são confirmados os primeiros casos? Os planos de contingência deveriam ter sido elaborados durante o mês de Fevereiro.

Também sabíamos que o período de incubação dura entre 5 e 7 dias. Daqui deveríamos ter extraído duas conclusões: primeiro, que os casos registados diariamente aconteceram há uma semana atrás; e, segundo, que os casos diários são apenas a ponta do icebergue. A irracionalidade da gestão do Governo relativamente ao coronavírus é indesmentível e pode ser exemplificada neste ponto: sabendo-se que há uma relação entre o número de casos novos e um período temporal para os mesmos, em vez de se precaverem para o que vai acontecer, tomam providencias para o que acontece.

As medidas de contenção não podem continuar a ser tomadas com base nos casos que acontecem diariamente. Essas medidas devem considerar a evolução que estimamos possa acontecer nos 5 a 10 dias seguintes. Caso contrário, estamos sempre a correr atrás de situações consumadas – em vez de efetivamente as prevenir. É cada vez mais evidente que o governo socialista está a gerir o coronavírus como geriu os incêndios fatídicos de 2017: aposta no combate em detrimento da prevenção.

Não deixa de ser curioso que as entidades não-governamentais e privadas adoptem procedimentos mais cautelosos e conservadores do que o governo, ou que a sociedade civil recomende medidas ao governo que, alegando serem alarmistas, imediatamente as rejeita para depois as adoptar por ter sido ultrapassado pelos acontecimentos. Sabendo-se que a taxa de mortalidade é maior a partir dos 70 anos de idade, faz algum sentido, num país com a população envelhecida, que as visitas aos lares de idosos não tenham sido restringidas? Faz algum sentido encerrar apenas um edifício num campus universitário? (entretanto, o Reitor da Universidade do Minho ordenou o encerramento da totalidade do Campus de Gualtar e das residências universitárias).

Segundo os especialistas da Organização Mundial de Saúde, o caso chinês demonstra que a transmissão do vírus pode ser contida. Após as medidas impostas pelas autoridades chinesas verificou-se que, num espaço de 30 dias, o registo de novos casos passou de 3887 (4 de fevereiro) para 139 (4 de março). Não é possível dissociar deste resultado a aposta numa política de prevenção.

Uma simulação – considerando evoluções similares às da China (após medidas de contenção), bem como Alemanha, Espanha, Noruega – sugere que poderemos chegar aos 500 casos em menos de 2 semanas e 1000 casos até ao final do mês. Note-se que os cenários verificados em Itália ou Coreia do Sul não estão a ser aqui considerados.

Desde que António Costa é primeiro-ministro, a retórica oficial é a de que acabou a austeridade. Já a prática orçamental é baseada em cativações e cortes, cortes esses que afectaram significativamente a saúde. Só nos últimos dois anos, a linha da frente da saúde (SNS24) perdeu 14 milhões de euros do seu orçamento. Em menos de uma semana, a capacidade de “camas” para pessoas infectadas com o Coronavírus foi atingida e nos hospitais de “prevenção” há relatos de que as camas indicadas não estão disponíveis e que não há condições materiais adequadas para lidar com este surto. Não estamos a falar apenas de camas, mas também e principalmente de sistemas mecânicos de apoio à respiração assistida.

Se se vier a verificar a simulação acima, rapidamente iremos necessitar de capacidade adicional e, uma vez que ainda estamos na fase inicial desta epidemia, os relatos de esgotamento de capacidade são preocupantes. É necessário assegurar a coordenação com o sector social e privado.

Nem os hospitais operam no vácuo, nem há capacidade excedentária prontamente disponível. Em Portugal, os hospitais não se constroem em 10 dias nem estão vazios à espera dos contaminados com o COVID-19. Daí que seja necessário activar as instalações hospitalares com mais antecedência por forma a permitir uma preparação atempada – até para realocarem pacientes com doenças infectocontagiosas ou que requeiram cuidados especiais.

O sector privado tem de começar a ser considerado, ou mesmo activado, como meio suplementar para limitar os constrangimentos que inevitavelmente ocorrerão nos hospitais públicos. Os restantes pacientes continuarão a necessitar de cuidados e não poderão ser descurados. E os portugueses não irão compreender que havendo capacidade adicional no sector social e privado esta não seja aproveitada num período de manifesta urgência. Cuidar e proteger a vida das pessoas requer soluções pragmáticas e não ideológicas.

O Estado de Emergência serve para quê?