As presidenciais de 2026 são o maior palco mediático antes das legislativas. É tentador escolher o rosto mais conhecido. Mas o conforto tem um custo.
João Cotrim de Figueiredo é uma figura respeitada e reconhecida. Mas é também a encarnação de um ciclo político que já fechou — mesmo que ainda brilhe em comparação com o presente.
A sondagem CESOP à boca das urnas mostra que só 49% dos eleitores da IL nas eleições de 2024 repetiram o voto nas legislativas de 2025.
Ou seja: metade do eleitorado mais recente já fugiu. O voto urbano, liberal e jovem está a dispersar-se. Voltar ao passado não resolve a crise de presente.
Cotrim liderou o melhor resultado da IL até hoje (9,08% em 2024) e ajudou a fixar o partido no mapa político. Mas a dinâmica mudou. E Cotrim está associado a um tempo em que a IL crescia. Agora está parada.
O problema não é Cotrim. É o que ele simboliza.
Num momento de estagnação, uma candidatura presidencial devia projetar futuro, não revisitar glórias passadas. A IL precisa de surpreender, não de reconfortar.
Ao contrário do que se pensa, as presidenciais não servem apenas para “marcar posição”. São uma oportunidade estratégica para testar quadros, expandir base eleitoral e posicionar novas vozes.
Se a IL apresentar o mesmo rosto de sempre, transmite estagnação. Se arriscar num perfil novo — com carisma, urbanidade e visão liberal clara — pode recomeçar a construir influência de baixo para cima.
Cotrim ainda é o rosto mais conhecido. Mas isso pode ser precisamente o problema.
O país já o viu, ouviu e votou. Tudo o que ele disser agora, por mais lúcido que seja, será lido como epílogo. Não como princípio.
Mesmo internamente, há hesitação. Em declarações recentes, Cotrim deixou em aberto a candidatura — mas sem entusiasmo. Disse que se for “para a frente” será para “serviço à causa liberal”. É nobre, mas soa a cansaço.
Presidenciais não servem só para aparecer. Servem para testar quem aguenta.
A IL tem bons ativos emergentes. Angélique Da Teresa traz urbanidade e foco em temas sociais. Rodrigo Saraiva, embora mais discreto, representa a geração liberal com trabalho de bastidores.
Entre arriscar num novo rosto ou repetir Cotrim, o risco está, curiosamente, na repetição.
Cotrim é seguro. Mas não muda nada.
E num ciclo em que os liberais precisam de mudar quase tudo, o seguro é um luxo caro.