Eu não podia não escrever sobre Mário Soares. Não sou socialista, nem amigo de Mário Soares, tive com ele relações esporádicas e ocasionais, algumas conversas quase sempre profissionais. Tendo a discordar das opiniões públicas que profere na proporção inversa da distância a que o faz.

Mas não posso não escrever sobre ele, é mais forte do que eu.

Há dois tipos de pessoas na vida de cada um de nós: os que nos marcam e os que nos são indiferentes. A maior parte dos que nos marcam são próximos de nós, família chegada, amigos íntimos, professores, chefes ou colegas presentes nas nossas vidas, influentes, referências. Alguns, não muitos, vivem na esfera pública, por vezes nem os conhecemos. Marcam-nos. Para o bem ou para o mal.

Portugal não é um alforje de figuras marcantes. Mas há algumas. Século a século, uma dúzia de criaturas emergem do plasma comum e sobressaem ficando a marcar os tempos, são reconhecidas e perpetuadas como ícones do seu tempo: grandes políticos, reis ou militares, escritores e artistas, cientistas, fadistas ou futebolistas. Portugal no século XX: Amália, Salazar, Afonso Costa, Sidónio, Eusébio, Pessoa, Saramago, Paula Rego, Lobo Antunes. Cada português fará a sua lista. Soares, quase inevitavelmente, integrará a maior parte delas.

Conheço bem os boatos sobre ele, as suspeitas disto e daquilo, relativos à vida pessoal, o desgosto pelos dossiês, os ataques de raiva e mau-feitio, a soberba disfarçada de bonomia. Sei tudo isso e não me interessa nada. Traça apenas os traços de um ser que é humano, com defeitos e virtudes e até prova em contrário isento de culpas de outra natureza.

A grandeza humana tem em geral um elevado custo a pagar à inveja alheia.

Este homem faz parte da lista das pessoas que nos marcaram no século XX. Rei de Portugal lhe chamou Fernando Cardoso, coerente prático, como o definiu Rui Ramos neste jornal, salvador da pátria que foi, na ditadura ou contra o comunismo, bandido, gritam muitos, a Soares valem muitos epítetos e definições. Mas reveladoras são as pequenas histórias, e se cada um dos seus amigos as lembrar, a somar às que ele próprio tem vindo a contar, produzir-se-á um dos mais saborosos livros sobre a história recente do nosso país. Dou agora a minha colaboração, com as escusas devidas de quem o faz sem consentimento prévio do visado. Mas são histórias, ou estórias, que valem só pelo simbolismo que encerram.

Conheci-o por volta de 1984, era ele primeiro-ministro de Portugal. Organizara a Câmara de Comércio Portugal-Moçambique, recém-criada, um almoço, sendo que ele era o convidado de honra. Sentado com o Embaixador de Moçambique de um lado e comigo do outro, abriu logo as hostilidades: “E os senhores vendem o quê?”. Mal começara a explicar-lhe o papel de uma Câmara de Comércio quando abriu um sorriso e se virou para o Embaixador e começou a explicar-lhe o papel da Câmara de Comércio.

Reencontrei-o poucos meses depois justamente em Moçambique, na Feira Internacional, FACIM. Dirigia eu o pavilhão da empresa para que trabalhava, quando recebi a sua visita, acompanhado da mulher. O 1º ministro de Portugal entrou naquele espaço cheio de bugigangas – embalagens de plástico, tapetes, amostras de metais (incluindo uma barra de ouro), fotografias de fábricas, outros produtos – e já vinha inquieto. Aqui não era a praia dele. Relanceou o espaço e quis logo saber onde era a saída. Tentei interessá-lo, explicar-lhe o papel da empresa no país, ouviu, anuiu e perguntou: “É por aqui?”. Em desespero falei-lhe dos visitantes, de perspectivas para o futuro, quando a guerra acabasse, disse-lhe que o Presidente Machel passara na véspera e ali estivera uma hora. Estacou. “Ele esteve cá?”. Confirmei; abriu-se-lhe o sorriso. “E o que disse?”. Expliquei-lhe. Pegou-me no braço, peripatizamos longamente pela exposição. Sempre a conversar, sobre Machel, sobre “esta malta”. Passámos à frente de saída algumas vezes. Quando nos despedimos, ia feliz. Fora-se-lhe a inquietação.

Já Presidente da República (aliás, ainda PR) revi-o em 1994. Lançava o meu primeiro livro no espaço do Padrão dos Descobrimentos e Soares teve a gentileza de comparecer. Sentindo-me honrado, recebi-o no sopé do monumento acompanhado de Ernâni Lopes, meu prefaciador, e dos editores. Cumprimentou-nos com simpatia e um sorriso, fez um discurso breve mas agradável, falou a todos os presentes como se conhecesse cada um pessoalmente. Quando se foi percebi perfeitamente que continuava a não fazer ideia nenhuma de quem eu era.

Em 1999, Soares ambicionou ser Presidente do Parlamento Europeu. As circunstâncias não lhe eram favoráveis, pois pela tradição da instituição aquele mandato destinava-se a um deputado da direita – do PPE – e não dos socialistas. Mas ele tinha de si próprio uma perspectiva diferente: sozinho, iria demover os eurodeputados, convencê-los de que tê-lo como Presidente seria uma mais-valia para o Parlamento. Falei com ele na ocasião, acompanhado de um colega. Tentámos fazer-lhe ver que bastava esperar dois anos e meio e o lugar seria seu. Olhou-nos com bonomia: “Mas os senhores estão-me a ver a fazer política daqui a esse tempo todo, já tenho 75 anos!”. No fim virou-se para mim e perguntou: “E o senhor, quem é?”. Resolvi então matar o borrego de uma vez por todas e lembrei-o das vezes em que nos tínhamos visto, de como tinha tido a simpatia de estar no lançamento do meu primeiro livro, etc. Agarrou-me o braço, olhou-me nos olhos e exclamou: “Nunca mais me esqueço de si”.

Revi-o inúmeras vezes depois disso, quase sempre na sua Fundação, onde orientei cursos sobre cidadania e identidade. Vinha ocasionalmente à sua abertura ou conclusão, cumprimentava-me efusivamente, cumprindo a promessa. Encontrei-o em ocasiões públicas, na Universidade, em colóquios, e senti sempre a sua simpatia e reconhecimento. Já quase no final da colaboração com a Fundação, no seminário de encerramento, sentou-se a meu lado, fez o seu discurso e despediu-se com um aperto de mão. Quando eu estava a sair do edifício, a coordenadora do curso interpelou-me: “Sabe o que o Dr. Soares me perguntou?”; como eu naturalmente não soubesse, esclareceu “perguntou-me quem é este rapaz”. Este rapaz?, espantei-me, referia-se a mim? “Disse-lhe que era o Dr. Paulo Sande”. Ainda mais espantado não precisei de perguntar nada porque ela acrescentou: “E ele respondeu-me logo, não, não é nada o Dr. Paulo Sande, que esse conheço eu muito bem”.

Só estive sozinho com Soares mais uma vez, há 4 ou 5 anos, de novo na Fundação, no seu gabinete. Convidei-o para um evento que estava a organizar, a conversa foi agradável, mas deixou bem claro não ter qualquer interesse. A velhice, disse, é o tempo em que podemos fazer o que bem nos apetece e eu (ele) ainda tenho muita coisa a fazer. E enumerou com vagar: ler, escrever, reflectir sobre o país, intervir sempre que necessário. Quando se despediu de mim desejou-me boa sorte e disse-me adeus. Julgo que me reconheceu.

Mário Soares é um homem de convicções. Uma referência da democracia. Um animal político. Uma daquelas pessoas que marcam a nossa vida colectiva. Figurará nas listas de portugueses notáveis deste tempo. Gostemos ou não dele. Quando se despedir desta vida, o que pode ainda demorar uns anos dada a sua notável resistência mas que acontecerá inexoravelmente pela lei dos anos e dos humanos, loas se lhe tecerão, algumas dos que em vida o criticam amargamente.

Não interessa. Para mim o que mais conta são as estórias. Recordarei sempre as suas palavras no nosso último encontro: “Dei tudo à vida e a vida deu-me tudo, agora quero fazer o que mais gosto”. Política?

Professor da Universidade Católica Portuguesa – Instituto de Estudos Políticos