André Ventura está a dominar a campanha das eleições presidenciais. Os seus debates, até agora, são os mais vistos (os únicos que ultrapassaram o milhão de espectadores). As suas participações são as que mais excitam os comentadores, especialmente aqueles que fazem competição para ver quem lhe atribui as “derrotas” mais pesadas. Até nos debates em que Ventura não participa, os outros candidatos fazem-lhe críticas, obviamente sem o nomear. Mas há um ponto onde o candidato do Chega domina claramente: todos os candidatos querem mostrar que não debatem como Ventura.

São todos muito cordiais uns com os uns outros, têm imenso respeito político uns pelos outros, querem todos mostrar que são pessoas de diálogo e de fazer pontes. “Cumprimentam-se” mais do que debatem. Enfim, os seus debates são uma chatice. Nem eles ouvem os seus oponentes com muito interesse. Caramba, entre a agressividade excessiva de Ventura e o chá da cinco de quase todos os outros debates, há outras maneiras de debater.

Eu gostava muito de ver debates com confronto (sem gritos), com convicções fortes, com escolhas claras, com coragem, apontando rupturas. O “debate” entre Marques Mendes e Jorge Pinto é um exemplo destas maçadas que passam por “debates.” Um candidato de um partido de centro-direita, o PSD, e um candidato de um partido da esquerda radical, Livre, deveriam discordar em quase tudo. Ora, Marques Mendes e Jorge Pinto concordaram muito mais do que discordaram. Marques Mendes disse várias vezes, “tenho a certeza que Jorge Pinto aqui concorda comigo.” Por que carga de água Marques Mendes quer que o candidato do Livre concorde com ele? Se está muitas vezes de acordo com o Livre, então muitos eleitores de direita começam a duvidar do voto em Marques Mendes. Depois, Marques Mendes passou o debate a dizer banalidades. Quer um país “com ambição”. Quem não quer? Quer um país com “crescimento económico”, com “mais riqueza”? Toda a gente quer. Mas Marques Mendes nunca fala sobre o que é necessário fazer para criar riqueza e mais crescimento económico. De duas uma, não faz porque não sabe o que dizer, ou porque sabe que se disser começa a provocar divisões. Tem medo de divisões? Eu gostaria muito de ter ouvido Marques Mendes e Jorge Pinto discutirem como se cria riqueza. Para ver se há ou não diferenças entres os dois. Quais são as políticas laborais certas para aumentar produtividade? Quais são as políticas fiscais para cria riqueza? Quais são as reformas do Estado necessárias para aumentar o crescimento económico? Não há reformas imparciais. Todas exigem escolhas, muitas delas difíceis, e quase todas beneficiam mais uns do que outros. Mas a ausência de reformas também prejudica uns mais do que outros.

Marques Mendes ainda consegue fazer afirmações ofensivas para o eleitorado de direita e até para o seu partido. Deu a presidência de Jorge Sampaio como um exemplo da imparcialidade política. Marques Mendes deve estar a brincar e a gozar com o seu partido. Sampaio foi o Presidente que provocou um golpe contra uma maioria parlamentar estável entre o PSD e o CDS. Mais, Marques Mendes também elogiou as presidências de Mário Soares como exemplos de imparcialidade política. No segundo mandato como Presidente, Soares fez campanha activa contra o governo de Cavaco Silva, de que Marques Mendes fazia parte. Caramba, onde está a dignidade de Marques Mendes?

Eu não quero, nem peço a Marques Mendes que ajuste contas com os presidentes socialistas do passado, mas gostava que fosse verdadeiro, que não nos quisesse enganar e que mostrasse o mínimo de respeito pela história do seu próprio partido. E o entrevistador não lhe fez qualquer pergunta sobre Soares ou Sampaio. Foi Marques Mendes que os recuperou como exemplos, por livre vontade.

Com estes elogios, Marques Mendes mostrou que tipo de candidato é na realidade. É um candidato do status quo, que não quer ofender ninguém do “establishment”, e que guarda todos os seus ataques para os “outsiders.” Com ele não haverá apoio a reformas nem a rupturas. Marques Mendes não quer mudanças, pretende no fundo manter tudo como está. Mas há um ponto que Marques Mendes não entendeu. A maioria dos portugueses quer posições claras, quer confrontos e debates. Mesmo aqueles que se fartam das gritarias e dos exageros de André Ventura, estão cansados de falsos consensos que apenar servem para manter o que está errado. Portugal precisa de líderes que tenham as convicções e a coragem para fazer rupturas.