Uma miúda adolescente encontrou a força e os meios para mobilizar milhões de jovens para uma causa nobre (as alterações climáticas) e pressionar o poder político a agir. Se a história acabasse aqui, seria já extraordinária. Mas a história continuou. Fruto do mediatismo repentino, Greta Thunberg tem tido muitos microfones para difundir a sua visão. Que visão é essa? O seu discurso nas Nações Unidas, esta semana, foi esclarecedor. Numa intervenção plena de desprezo pelo sistema político, a jovem activista identificou o início de uma extinção em massa, apresentou uma perspectiva radical de rejeição do modelo económico/ capitalista das sociedades livres e rompeu com as soluções actualmente em implementação. Mais: Greta acusou de traição o poder político internacional, avisou que um “nós” (leia-se, as gerações que Greta diz representar) estava a vigiar os decisores políticos e ameaçou-os: a mudança iria acontecer, com eles ou contra eles.

Uma intervenção deste tipo traz vários ecos de movimentos extremistas do século XX e obriga ao reconhecimento de que a forma discursiva de Greta Thunberg é inequivocamente populista – o maniqueísmo moral, o discurso emocional, a divisão entre o “nós” e o “eles”, a rejeição do sistema político e do status quo, a defesa de rupturas sociais, a ameaça de levantamentos populares contra a corrupção “dos de cima”. Os ingredientes estão lá todos. Por exemplo, sem ter de ilustrar com manifestos antidemocráticos, basta constatar que a sua intervenção é uma cópia a papel químico das linhas argumentativas que trouxeram a vitória do Brexit, no Reino Unido. Ora, como os britânicos têm constatado, a fractura social e a defesa de rupturas radicais não constituem parte da solução para os desafios sociais, mas sim combustível para incendiar tensões políticas.

Isto impõe duas perguntas. A primeira é esta: deve-se consentir o populismo de Greta na medida em que, na raiz, a sua causa é justa? Creio que não. Tal como a tirania permanece um sistema político não-apreciável quando o tirano se revela “bom”, igualmente deve o populismo ser rejeitado mesmo quando a causa que o justifica é “boa”. Neste caso em particular, isso deveria ser evidente: reconhecer o mérito de Greta na mobilização social e aceitar a nobreza da causa que a move não corresponde a ter de aceitar a violência do seu discurso, que deve ser criticado. Sobretudo porque, em nome de uma noção de “bem”, a activista sueca aponta um caminho revolucionário, cuja implementação é irrealista ou, tornando-se real, abalaria os nossos sistemas políticos e destruiria o tecido económico das nossas sociedades – elevando índices de pobreza e multiplicando desigualdades sociais. Dir-me-ão que há, por aí, corações que batem por essa matriz revolucionária – sim, pois há. Mas não nos confundamos: a rejeição dos pilares económicos das sociedades livres está nas margens dos sistemas políticos e não tem adesão eleitoral significativa.

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