A greve geral de hoje não resulta de um bloqueio negocial, de uma queda nos rendimentos ou de um retrocesso de direitos. Resulta de uma escolha política. É a tentativa de transformar a rua numa segunda volta de uma disputa que a esquerda perdeu copiosamente nas urnas há uns meses. E é precisamente por isso que merece ser lida com rigor: não como expressão de um país em rutura ou convulsão, mas como expressão de forças que recusam aceitar que o país está finalmente a mudar. Uma greve política decidida pelas forças do imobilismo.
Portugal vive um ciclo que contraria a narrativa que sustenta esta paralisação. Em 2024, o país registou o maior aumento real dos rendimentos em toda a OCDE, 6.7%. Até ao terceiro trimestre deste ano, o aumento transversal do rendimento dos trabalhadores andou na casa dos 9%. O salário mínimo progride de forma sustentada. A economia regista um crescimento bem acima da média europeia, a que se soma a recente distinção pela The Economist, como a melhor economia do ano. O emprego em máximos, o desemprego em mínimos históricos. E desde abril de 2024, 21 carreiras da Administração Pública foram valorizadas, num exercício de negociação que prova que o diálogo social funciona quando existe vontade de construir.
Nada disto tem correspondência com o cenário típico que conduz a uma greve geral. Em vez de urgência social, há instrumentalização política. Em vez de impasse, há mesas de negociação em curso. Em vez de retrocesso, há reformas estruturais a ser discutidas num país que sabe que não pode continuar a viver com os mesmos bloqueios de sempre.
Portugal tem um problema sério: demasiados trabalhadores passam por uma vida inteira de salários baixos e progressão limitada. Não por falta de talento, mas porque a economia continua marcada por baixos níveis de produtividade, rigidez laboral e um enquadramento institucional que penaliza o mérito, a flexibilidade e a adaptação. A OCDE coloca-nos entre os países com maior rigidez do mercado de trabalho. O desemprego jovem está muito acima da média nacional. E os serviços essenciais permanecem vulneráveis a greves sem serviços mínimos, que atingem sobretudo quem menos pode proteger-se, as pessoas mais pobres da nossa sociedade.
É este ciclo que tem de ser superado. A reforma laboral não nasce de um capricho ideológico: nasce da consciência de que o mundo do trabalho se transformou de forma profunda. A digitalização, o trabalho híbrido e agora a Inteligência Artificial estão a reconfigurar a forma como se produz valor, se organiza talento e se concilia vida profissional com vida pessoal. Permanecer com regras concebidas para a economia de há vinte ou trinta anos é condenar o país a perder competitividade e a ver mais jovens procurar lá fora aquilo que deviam encontrar aqui: mercados dinâmicos, oportunidades reais e progressão baseada no mérito.
Por isso, a modernização do Código do Trabalho é inevitável. Visa dar previsibilidade a quem trabalha, confiança a quem emprega e condições para que empresas e trabalhadores possam competir num mercado que não espera por ninguém. Visa aproximar Portugal dos países europeus que conciliam flexibilidade responsável com proteção efetiva. Visa preparar o futuro, não regressar ao passado.
A greve de hoje falha precisamente aqui: não protege os trabalhadores, porque os trabalhadores já estão a ser valorizados; não defende direitos, porque os direitos estão a ser reforçados pelo diálogo; não representa o país, porque o país quer estabilidade, oportunidades e reformas que criem futuro. É uma greve política, travestida de protesto social.
Portugal merece mais do que interrupções ditadas por agendas políticas em desespero eleitoral. Merece reformas que abram caminhos e não greves que levantem muros. Merece uma economia capaz de crescer, um mercado laboral capaz de evoluir e uma negociação social capaz de unir.
O país está a trabalhar. Deixem-no trabalhar.