A Conferência de Segurança de Munique tem sido, ao longo das últimas décadas, o palco onde o Ocidente reafirma a sua coesão estratégica. Este ano e no anterior, foi outra coisa: um espelho.

Primeiro, J.D. Vance. Depois, Marco Rubio. Quem leu o primeiro como uma rutura e o segundo como um regresso ao normal enganou-se nos dois casos.

O discurso de Vance foi interpretado na Europa como uma afronta. Ao afirmar que a maior ameaça à Europa vinha “de dentro” (erosão de normas democráticas, restrições ao debate, desconfiança popular), deslocou o foco da segurança externa para a coesão interna. Para muitos, foi um insulto. Para outros, um aviso.

Mas, numa leitura de realismo político, Vance não estava a fazer pedagogia europeia. Estava a redefinir prioridades americanas na relação com a Europa. A mensagem implícita é simples: a aliança já não é automática, é condicional. A solidariedade estratégica passou a depender de convergência política e de capacidade própria.

Rubio, um ano depois, adotou um tom mais conciliatório. Falou de história partilhada, de civilização ocidental, de pertença comum entre europeus e americanos. “We belong together.” Foi ovacionado. Mas a substância permaneceu: exigência de maior esforço europeu em defesa, crítica às fragilidades estruturais da ONU, reindustrialização, incentivo à recuperação ocidental das cadeias de valor críticas, regulação da imigração, defesa acérrima dos valores ocidentais e do modo de vida ocidental. Menos confrontação, a mesma hierarquia.

A diferença entre ambos não é ideológica ou de fundo. É tática. Vance expôs a fratura, Rubio tentou geri-la. A Europa tem dificuldade em lidar com esta mudança porque durante décadas se habituou a uma equação confortável: liderança americana, segurança garantida, divergências absorvidas pela retórica da unidade. Esse ciclo terminou.

Mesmo que a administração em Washington mude, nada será como dantes: três tendências são hoje estruturais (e, porventura, cada vez mais vocais): primeiro, a prioridade estratégica dos Estados Unidos no Indo-Pacífico, Ártico e América-Latina; segundo, a tolerância para dependências europeias diminuiu; terceiro, a política externa americana tornou-se mais transacional, menos normativa, mais estratégica.

Isto não é um juízo ético. É um facto geopolítico.

A história oferece um paralelo útil. Depois da crise de Suez, em 1956, a Europa percebeu que o centro de decisão estratégica já não estava em Londres ou Paris. A ilusão imperial terminou ali. Hoje, não enfrentamos uma humilhação comparável, mas enfrentamos uma mudança semelhante de paradigma: a relação transatlântica entrou na idade adulta.

Para Portugal, a questão é particularmente sensível. Somos um país atlantista por geografia e por história. A nossa segurança depende da NATO e da ligação aos Estados Unidos da América. Mas atlantismo não é passividade nem nostalgia. É responsabilidade, é iniciativa.

O erro europeu seria responder ao que ouvimos em Munique dos aliados americanos com indignação ou negação. O caminho adulto a percorrer é outro: ter orgulho em ser europeu e no contributo que demos ao Mundo durante séculos, defender os nossos valores, reforçar capacidades próprias, investir seriamente em defesa e consolidar a autonomia estratégica da Europa.

Na reação imediata aos discursos, ouvimos que Vance foi rude, enquanto Rubio foi diplomático. Ambos disseram, no essencial, que a Europa precisa de crescer estrategicamente. Não porque Washington a queira enfraquecer, mas porque o mundo se tornou demasiado duro para dependências confortáveis.

A pergunta que Munique nos deixa não é se gostámos do tom. É se estamos preparados para viver sem garantias automáticas. A política internacional raramente recompensa suscetibilidades. Recompensa lucidez. E a lucidez, por vezes, começa por ouvir aquilo que preferíamos não escutar.