Fui ensinada a não pedir muitos conselhos aos meus pais e a ter ganas de chegar depressa à idade em que seria eu a dar-lhes conselhos. Ouço hoje, contudo, a música que a minha mãe ouvia quando era nova. Já terminou o meu ano Regina Belle, estou agora no semestre Anita Baker, depois de seis meses a ouvir Patti LaBelle e um ano obcecada com Chaka Khan. Tentei Gladys Knight, mas não me toca. Aretha é outra coisa.
Quase todas as minhas divas nasceram na década de cinquenta. Soam às mulheres maduras que talvez fossem em meados de 80. Os trinta anos de então são os actuais quarenta e muitos, cinquenta e poucos. De olhos fechados, tinham todas cinquenta anos quando gravaram os êxitos da sua juventude. Alguns discos têm quarenta anos, outros mais. Todas cantam o azar ao amor, com letras de gosto duvidoso. Traduzo algumas linhas e dá-me vontade de rir: “Sonhos são sonhos, alguns sonhos tornam-se realidade. Encontrei um sonho real, querido, quando te encontrei.” Os poemas são péssimos, mas lançam-me a um tempo e a uma ideia de mulher, que evoca a mulher que gostava de ser.
Ouço-as e penso que ninguém pode nada contra uma mulher assim. Cantam um ideal guerreiro de quem sofreu o desamor. Foram enganadas e criaram filhos sozinhas, trabalharam para os alimentar, cantam a partir do sacrifício de dar a vida aos outros, ainda que continuem a acreditar na felicidade. Fazem-me pensar nessa figura da invencibilidade, tão longe dos meus dias e dos meus dedos, estas senhoras negras de mise impecável e gargantilha, que surgem nas capas dos discos de casaco vison e camisolas de caxemira, num tempo em que as mulheres negras desfrisavam o cabelo e em que a vulnerabilidade não era prática.
Os discos acompanham as suas biografias amorosas. Melancólicas nos divórcios, esperançadas quando reencontram o amor. Toca-me especialmente Patti LaBelle em “I’m in love again”, gritando que está feliz de novo, em contraponto a Marvin Gaye nos seus discos de vingança passional.
Sentava-me a ver a minha mãe cantar enquanto os discos tocavam, tinha dez anos, achava que a minha mãe, que tinha trinta, era uma senhora muito crescida. Ela cantarolava, sorria entre lágrimas.
Agora, voltar a escutar os mesmos discos, conduz-me a dois passados. O passado dos amores sem telemóvel que elas cantam e o meu passado de menina que queria ser como elas. Não sou. E por isso ainda sou um pouco essa menina, ouço-as a partir do mesmo ponto de vista do desejo.
Ainda hoje conheço pouca gente que ouça estes discos. Cresci rodeada de amigos que ouviam outras coisas e a experiência de gostar de música que ninguém ouvia nem se comprava com facilidade formou-me.
Pesquiso os seus nomes para ver como estão agora. São quase todas ainda vivas e bonitas, gravaram discos de Natal, compilações de êxitos, casaram quatro ou cinco vezes. Tenho mais sorte do que muitas tiveram. Revivo os seus discos acompanhada de um par de dança para toda a vida. E é então que me parece que talvez eu conheça profundamente as canções das minhas divas, a sua versão do amor para toda a vida é a que me calhou.
Dou comigo a aconselhar a minha mãe sexagenária a ouvi-las. E vejo-me neste recorte ingrato do tempo, em que tenho de recordar a minha mãe da mulher que ela me ensinou a querer ser, tenho de a recordar de quem ela sempre foi. Com surpresa, lembra-se das canções e alegra-se, melancólica, porque entretanto é outra pessoa. E sou eu quem a ensino o que ela um dia me ensinou e se esqueceu. Sou eu quem conduzo a minha mãe na sua coda.