1 Quando Raymond Aron publicou O Ópio dos Intelectuais em 1955, o alvo não era apenas o marxismo enquanto doutrina. O que Aron expôs foi um mecanismo psicológico mais profundo: a tendência dos intelectuais para suspender o espírito crítico sempre que uma causa, um líder ou uma narrativa coincide emocionalmente com a sua identidade moral. O “ópio” não era a ideologia em si, mas a necessidade humana de pertença, incluindo moral – a tentação de trocar lucidez por conforto tribal.

Aron observou como muitos intelectuais franceses aplicavam ao Ocidente liberal um escrutínio feroz, enquanto relativizavam ou silenciavam as violências, mentiras e contradições do mundo soviético. Crimes intoleráveis nas democracias eram reinterpretados como “inevitáveis” quando cometidos em nome da revolução. O problema não era apenas político: era moral. A verdade deixava de ser um princípio universal para se tornar arma de combate ideológico.

2 O mundo mudou. O muro ruiu. A Guerra Fria acabou. Todavia, decorridos setenta anos, o mecanismo psicológico permanece notavelmente intacto. O fenómeno identificado por Aron em parte da esquerda intelectual do pós-guerra reaparece hoje em sectores significativos da direita contemporânea. Não, obviamente, sob a forma de fidelidade ao marxismo ou à revolução proletária, mas através de uma lealdade tribal que frequentemente substitui o pensamento crítico pela defesa automática dos “nossos”.

Durante décadas, a direita construiu a sua identidade recente denunciando – com razão – o dogmatismo progressista caracterizado pelo sectarismo ideológico, a intolerância perante dissidentes, a politização das instituições, a manipulação mediática, a censura cultural, o desprezo pelas classes populares e a indulgência perante excessos cometidos em nome das causas “certas”. Apresentou-se como guardiã da liberdade de expressão, do pluralismo, da racionalidade e da coerência moral contra o dogmatismo moralmente seletivo

3 É aqui que a ironia do nosso tempo se torna evidente. Muitos sectores da direita reproduzem hoje os vícios que antes denunciavam:

A crítica à censura transforma-se em defesa da censura quando os alvos são adversários;

A condenação da desinformação evapora-se quando a falsidade favorece a própria tribo;

O discurso sobre mérito dissolve-se no culto da personalidade de líderes populistas;

A defesa da lei e das instituições torna-se opcional quando estas travam os interesses do próprio campo;

A crítica ao fanatismo converte-se ela própria numa nova forma de fanatismo.

Porém, mais revelador ainda é a incoerência ter deixado de causar embaraço. Tornou-se aceitável, até desejável, desde que sirva a vitória da tribo:

Quem denunciava o intervencionismo estatal defende agora protecionismo agressivo;

Quem condenava o culto da personalidade exige fidelidade absoluta ao líder;

Quem criticava a “política da identidade” mobiliza identitarismos nacionais, religiosos ou civilizacionais;

Quem defendia liberdade de expressão apoia sanções culturais contra adversários.

Como tal, o problema deixou de ser o comportamento. Passou a ser apenas quem o pratica. Tal como os intelectuais analisados por Aron, muitos pensadores de direita parecem incapazes de aplicar aos seus aliados os critérios que usam contra os adversários. A exigência de coerência moral tornou-se unilateral.

4 É neste ambiente que surge aquilo a que tenho classificado como “democracia das claques”.

Numa democracia saudável, os cidadãos avaliam líderes e decisões segundo critérios relativamente estáveis e coerentes. Mesmo quando isso implica reconhecer erros no próprio campo. Na democracia das claques, a política deixa de ser um exercício de julgamento racional e transforma-se numa lógica de adepto desportivo. O importante já não é a verdade; é a equipa. E a claque já não requer coerência ao seu líder. Exige apenas vitória:

Avalia comportamentos segundo pertenças;

A mesma atitude é escandalosa ou admirável consoante quem a pratica;

O que ontem era autoritarismo é hoje “coragem política”;

O que antes era manipulação é agora “estratégia eficaz”.

A indignação moral passa a ferramenta de mobilização deixando de ser expressão de princípios.

Este fenómeno não se explica apenas por oportunismo. Há aqui uma mutação mais profunda: a substituição da política como debate racional pela política como identidade emocional. Quando a pertença tribal se torna o valor supremo, a coerência deixa de importar. O intelectual deixa de procurar a verdade e passa a proteger a moral do grupo.

Nesse contexto, a crítica interna torna-se quase impossível. Qualquer nuance é suspeita. Qualquer dúvida é traição. O resultado é um ambiente intelectual empobrecido, onde:

A verdade é irrelevante.

A complexidade desaparece.

As contradições são ignoradas.

Os factos são secundários face à mobilização emocional.

A análise cede lugar à performance tribal.

E as redes sociais amplificam tudo isto. O algoritmo recompensa lealdade, simplificação e agressividade; penaliza nuance, dúvida e ambivalência. Intelectuais e comentadores tornam-se representantes emocionais do seu público, não observadores críticos da realidade.

5 Mas convém não cair na tentação de absolver a esquerda. Aron lembraria que esta deriva é transversal: todas as famílias ideológicas conhecem dogmas, silêncios cúmplices e ilusões. A esquerda teve os seus. A direita está a construir os seus. O mecanismo repete-se porque responde a necessidades humanas permanentes: pertença, segurança moral, identidade, simplificação.

Ainda assim, porque a direita construiu parte da sua legitimidade recente na denúncia da hipocrisia progressista, a sua incapacidade atual de reconhecer incoerências internas é particularmente reveladora. O problema não é mudar de posição – ideias, circunstâncias e sociedades evoluem e mudam. O problema é fingir que nada mudou e exigir coerência aos adversários enquanto se concede imunidade moral aos aliados.

A lição de Aron permanece atual porque não dizia respeito ao marxismo, mas à fragilidade do espírito crítico perante a sedução da fé política. O verdadeiro teste da honestidade intelectual não é criticar adversários. Isso é fácil. O teste reside na capacidade de aplicar os mesmos critérios aos aliados, mesmo quando isso implica desconforto ou perda de pertença.

Quando um movimento perde essa capacidade, deixa de ser corrente ideológica e transforma-se em comunidade de crença. E quando a lealdade vale mais do que a verdade, o pensamento crítico dá lugar à apologética.

Foi isso que Aron viu nos intelectuais fascinados pelo comunismo. É isto que eu hoje vejo reaparecer, sob novas formas, em setores da direita contemporânea. Não uma mera divergência política, mas a tentação intemporal de trocar lucidez por pertença.

Ao tornar-se igual ao marxismo que tanto criticou, a direita permite que Marx sorria. E esse sorriso, confesso, incomoda-me profundamente.

Post-Scriptum:
Este texto é parte de um livro que brevemente estará à venda.