Não resta mais margem a dúvidas: a iniciativa norte-americana de levar ajuda humanitária até aos venezuelanos redundou em um retumbante fracasso. Mas, se entendida como um teste à disposição de Maduro em manter de pé a autocracia chavista, ela ao menos serviu para desvelar o real jogo de forças subjacente à toda a espuma.

A agonia de Maduro, um tiranete grotesco, não teria maior relevância se as potências mundiais não tivessem em vista o futuro da ordem internacional liberal. As preocupações de Estados Unidos, China, Rússia, além de outras potências médias, não se esgotam nas habituais justificativas de violações aos direitos humanos e cooperação para a paz. E é certo que o interesse econômico motivado pela maior reserva confirmada de petróleo do mundo também serve de força mobilizadora. Todavia, o principal motor da ação dos grandes players no sistema internacional é a geopolítica do poder. Na iminência de produzir um Estado falido, a crise da Venezuela joga a favor dos interesses daqueles que atuam para debilitar a ordem liberal internacional.

Arquitetada e patrocinada principalmente pelos EUA no pós-guerra, a presente ordem não conseguiu sobrepor-se plenamente modelo de Estado vestefaliano, baseado na soberania inviolável e na não-intervenção. Contudo, as instituições de governança econômica global serviram para favorecer o desenvolvimento material, inclusive de países que não participaram da criação da atual ordem ou compartilham da ideologia de seus Estados fundadores. A título de exemplo, destaca-se a adesão tardia de China (2001) e Rússia (2012) à Organização Mundial do Comércio (OMC) ter-lhes facultado amplo acesso aos mercados globais.

Não obstante, no âmbito político, o institucionalismo liberal não conseguiu saciar o apetite de poder de alguns países. Na falta de uma governança mundial mais estruturada, a anarquia do sistema de Estados tolera o ativismo exacerbado daqueles países que se julgam irreparavelmente soberanos. Assim, decisões proferidas por organizações multilaterais criadas para facilitar o encaminhamento de soluções para controvérsias entre Estados são rotineiramente desrespeitadas por membros recalcitrantes, a começar pelos EUA que, na condição de país historicamente hegemônico, deveria dar o exemplo.

Nas duas últimas décadas, a preferência por soluções unilaterais tem marcado a atuação internacional das grandes potências, em que cada uma busca viabilizar seus interesses no exterior no limite de suas capacidades individuais.

Num sentido amplo, que alcança os conceitos de soft, hard, smart e sharp power o poder inconteste já não é mais exclusividade dos EUA e seus aliados. Desde a queda do Muro de Berlim (1989), e após um interregno de supremacia unipolar dos Estados Unidos, o mundo adentrou um período de fragmentação das forças estabilizadoras do sistema internacional.

É precisamente neste momento de redistribuição do poder mundial – do Ocidente para o Oriente –, que as contradições da ordem liberal se mostram mais evidentes. A crise da Venezuela é emblemática ao expor as fissuras de um ordenamento que é, de um lado, incapaz de absorver as potências emergentes e, de outro, de livrar-se das garras de potências declinantes.

Quando assumiu o governo dos Estados Unidos, em 2017, Donald Trump prometeu tratar a ditadura venezuelana com o rigor que os governos dos E.U.A habitualmente reservaram àqueles que se atreveram a ameaçar seus interesses no continente americano. Para Trump, a mudança de regime seria a única forma de pôr termo às perturbações provocadas pelo regime venezuelano na América Latina.

Sob o slogan America First, Trump parecia indicar ao mundo que seu país abdicaria do papel de provedor de bens públicos globais, nomeadamente nas áreas de livre comércio e segurança. Os Estados Unidos estariam dispostos a promover um recuo para fora do centro da arena internacional, algo semelhante ao assistido em 1919, quando deixou de integrar a Liga das Nações. No entanto, em que pese eventuais períodos de maior isolamento, os americanos nunca deixaram de ser assertivos na preservação de sua esfera de influência.

A escassa disposição para arcar com o ônus de capitanearem sozinhos a ordem mundial não impede os Estados Unidos de continuarem ávidos por colher frutos de sua ainda inconteste posição de primeira potência. As sanções diplomáticas e económicas contra o regime de Maduro visam a garantir aos EUA os mesmos frutos que vêm colhendo ao longo das sete décadas de ordem liberal internacional: enriquecimento, segurança e prestígio externo, em diferentes níveis.

O ditador venezuelano e seus parceiros internacionais percebem perfeitamente as ambições americanas. A presença de Rússia e China no tabuleiro caribenho endurece o jogo para os Estados Unidos e seus aliados, Brasil inclusive, que passaram a tratar a questão com maior cautela. A possibilidade de recrudescimento de uma crise que pode tragar grande parte do subcontinente, via Amazônia, ficou clara no último domingo. Num discurso de mais de uma hora para uma multidão de seguidores fanáticos, Maduro desafiou Trump, cortou relações diplomáticas com a Colômbia e ainda dançou salsa na “cara” da opinião pública internacional.

Confrontar os Estados Unidos em sua área de influência é especialmente relevante para Rússia e China, ambas recentemente alvos de sanções americanas em suas crescentes pretensões geopolíticas. Em busca da gradeza perdida com a queda do Império Soviético, a Rússia avança sobre seu Estrangeiro Próximo. A anexação da Crimeia, em 2014, e os constantes ataques à soberania da Ucrânia compõem parte da estratégia do Kremlin para fazer da Rússia um polo de poder decisivo às grandes questões globais.

Na condição de país que mais se beneficiou do livre comércio e da globalização promovida pelos americanos, a China tem no controle sobre o Mar do Sul da China interesses (económico, militar e ambiental) vitais para as suas ambições regionais e internacionais. Além dela, a disputas por aquelas águas envolvem Brunei, Indonésia, Malásia, Taiwan, Vietnam e, sensivelmente, também as Filipinas, histórico aliado dos Estados Unidos.

Sob o argumento de incompatibilidade com o livre comércio e soberania, Washington acusa Beijing de violar as regras  da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, apesar de pendente de ratificação pelo  Congresso americano. O duplo critério da  política externa dos Estados Unidos, que convenientemente se vale do multilateralismo em favor das suas pretensões individuais, abre precedentes perigosos para Estados iliberais contestarem a legitimidade dos EUA para conduzirem as tentativas de solução à crise venezuelana.

Rússia, China e potências médias como Irã, Turquia e Coreia do Norte, que buscam alcançar hegemonia em suas correspondentes áreas de influência, esforçam-se para obstaculizar as ações norte-americanas. Não por acaso, esses países são os principais garantes do regime venezuelano. É graças ao seu fornecimento de armas e capital que Maduro logra permanecer aferrado ao poder. Do mesmo modo, as suas diplomacias atuam para aliviar as sanções impostas pelos Estados Unidos.

O congelamento do Conselho de Segurança da ONU pelo veto da Rússia, apoiada pela China, impede o debate sobre a redemocratização da Venezuela no âmbito da mais importante instituição da ordem liberal internacional. A preocupação de russos e chineses com os milhões de dólares da dívida externa venezuelana é apenas secundária face à oportunidade de constranger os americanos em seu próprio quintal geopolítico.

Para desgosto dos Estados Unidos e seus aliados, uma solução rápida da crise passa, inexoravelmente, pela inclusão de Rússia e China nas negociações. Desejosos por deitar raízes cada vez mais profundas na América Latina, tanto o regime russo quanto o chinês operam para acelerar o declínio da influência global estadunidense. Os russos, de forma aguda e assertiva, desde logo colocam suas maiores cartas sobre a mesa – não disfarçam sua genética realista. Já os chineses, com a sua proverbial paciência oriental, evitam o embate frontal, mas sem abrir mãos de seus interesses, metodicamente estruturados em planos de longo prazo – na prática, são mais institucionalistas do que gostariam de ser.

É preciso de ter em conta que a troca de regime, por si só, não garante a redemocratização da Venezuela. Da mesma forma, não é certo que a queda de Maduro, quando e se acontecer, será pacífica. Como filial ideológica do regime cubano e contando com o apoio no terreno de milhares de agentes da ilha prisão, Maduro venderá caro a sua eventual queda. É bom lembrar:  um bolchevique não cai sem antes disparar o tiro derradeiro.

Se o tabuleiro mundial de poder deverá conter num futuro próximo um jogo cada vez mais multipolar, também é provável que Rússia e China não pretendam realmente subverter a ordem internacional existente. Falta à Rússia capacidade económica para promover maiores reviravoltas. E, como destaca Joseph S. Nye Jr., a “China não tem tentado derrubar a ordem atual, mas sim aumentar sua influência dentro dela”.

A crise da Venezuela tem, até o momento, revelado-se ineficaz para ensinar aos Estados Unidos aquele que, conforme muitos analistas, seria o seu novo papel internacional: compartilhar as responsabilidades na promoção da estabilidade do mundo. Segundo Nye Jr., “os americanos e outros podem não notar a segurança e a prosperidade que a ordem liberal fornece até o dia que elas se perderem – mas até lá, pode ser tarde demais”.

Ao Brasil, que nos últimos anos renunciou ao papel de liderança regional quando aceitou o ridículo de ser patrocinador e fiador do delírio bolivariano na Venezuela, vale o ditado popular: “em briga de cachorro grande, quem mete a mão acaba mordido”.

Jornalista e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Pesquisa os desafios do multilateralismo liberal no presente contexto de transformação da ordem mundial.