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Inteligência Artificial

É a inteligência artificial, estúpido!!

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A nossa vantagem em relação às máquinas continua a ser essa interação de sentimento e de razão que levou os seres humanos a criar a cultura, arte, sistemas morais, justiça, ciência e governação.

Um dos aspetos mais relevantes no grande universo da transformação digital diz respeito à inteligência artificial (IA), mais propriamente ao desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e sua conexão com a inteligência humana (IH). Nesta matéria a literatura já consagrou a distinção entre uma “inteligência artificial fraca”, traduzida numa simples ligação mecânica à inteligência humana, e uma “inteligência artificial forte”, traduzida numa verdadeira hibridação com a inteligência humana e a caminho de uma outra filosofia da humanidade.

Em França, o debate sobre a revolução transumanista (Luc Ferry, 2016), o mito da singularidade (Ganascia, 2017) ou a guerra das inteligências (Alexandre, 2017), para citar apenas alguns autores mais conhecidos, está, agora, plenamente e intensamente no espaço público. Mas, também, o relatório do deputado Cedric Villani sobre Inteligência Artificial, realizado a pedido do governo francês e apresentado ao público em março de 2018, assim como, no final de março, a apresentação pelo Presidente Macron, no College de France, da estratégia nacional da inteligência artificial para o quinquénio 2022. Vejamos alguns aspetos mais relevantes desta agenda da inteligência artificial.

A inteligência artificial, a singularidade e o transumanismo

Vivemos o tempo das tecno-profecias, sendo os dirigentes das grandes plataformas digitais os profetas pregadores do nosso tempo. De resto, a cadeia de valor das grandes plataformas é cada vez mais clara: os profetas apregoam as grandes promessas tecnológicas, o mercado das promessas converte-se em necessidade e transforma-se em mercado das inovações, o futuro do futuro mitifica-se em singularidade e, logo de seguida, somos capturados pelo determinismo apoteótico das grandes plataformas, onde já reina a religião da eternidade. E até já temos uma data quase mítica (2045), denominada “o ponto de singularidade”, para podermos afirmar no espaço mediático essa verdadeira apoteose que é a “passagem para a outra margem”, isto é, a transição do humanismo para o transumanismo e o pós-humanismo.

E porquê um futuro tecnológico tão promissor acompanhado de um bilhete de passagem para a eternidade? Por que é absolutamente necessário continuar a alimentar a bolha das grandes capitalizações bolsistas em ordem a recuperar investimentos extraordinariamente volumosos e a convencer as sociedades de capital de risco de que é fundamental renovar os financiamentos e continuar a apostar no grande mercado tecnológico da inteligência artificial.

Nesta longa seta do tempo, a aceleração tecnológica exponencial diz-nos que somos seres em transição. Na linguagem do transumanismo somos pura transição. Eis a sequência da seta do tempo: do homem da “evolução natural” ao homem aumentado, do homem aumentado ao transumanismo (a inteligência artificial fraca), do transumanismo ao ponto de singularidade (a passagem para a inteligência artificial forte), do transumanismo ao pós-humanismo (uma nova espécie humana, um produto híbrido da biotecnologia). É como se a vida fosse uma categoria líquida onde o processo se sobrepõe à forma e à substância.

Nas palavras do bioprogressista Laurent Alexandre estamos numa espécie de competição ou guerra das inteligências. Nesta corrida do produtivismo biotecnológico os humanos ficariam irremediavelmente para trás e a capacidade exponencial das máquinas não teria comparação com as limitações dos pobres seres biológicos que nós somos. Nesta medida, e de acordo com o neuro-cientismo, o ser humano seria uma espécie de máquina com distintos componentes e estruturas, um todo complexo que não é capaz de verdadeira liberdade, ou seja, um pré-determinismo observável nos seus sistemas neuronais.

Digamos que com este futuro tão promissor e performativo nada poderá impedir que tomemos o caminho de Deus em busca da eternidade.

O relatório Villani sobre inteligência artificial (AI)

Em França, o governo francês pediu ao cientista matemático e deputado Crédric Villani do Movimento em Marcha a elaboração de um relatório sobre a inteligência artificial. Esse relatório foi apresentado em março de 2018. Devido à relevância e oportunidade deste relatório, apresentamos aqui as suas principais conclusões.

  1. Uma nova política económica, articulada e conduzida ao nível europeu, em redor da gestão de “dados abertos” no quadro de plataformas comuns de mutualização e portabilidade de dados,
  2. Uma investigação mais ágil e distribuída em redor de uma rede de institutos interdisciplinares de inteligência artificial, tornando as carreiras mais atrativas e mais intensas as relações entre a universidade e a indústria,
  3. Antecipar e controlar os impactos da IA sobre o trabalho e o emprego, promovendo a experimentação social e a inovação, a formação contínua e melhorando a formação profissional,
  4. A IA ao serviço de uma economia mais ecológica, favorecendo a convergência entre a transição ecológica e o desenvolvimento da IA e criando uma plataforma para medir os impactos ecológicos da IA,
  5. A ética da IA, abrir a caixa negra da inteligência artificial, realizando auditorias sobre os direitos coletivos e a privacidade pessoal e criando, para o efeito, uma comissão de ética da IA,
  6. Uma IA mais inclusiva e diversa, triplicando o número de estudantes nas fileiras digitais, desenvolvendo a mediação e a arbitragem digitais, abrindo os bancos de dados em igualdade de género e incentivando a inovação social no acesso ao trabalho e ao emprego,
  7. A criação de um supercomputador concebido especialmente para apoiar as plataformas e as aplicações de IA em cinco áreas prioritárias: a nova política educativa, a saúde e a medicina, os transportes e a mobilidade, a agricultura de precisão, a defesa e segurança.

O Presidente francês na sua alocução de 29 de março ao College de France resumiu assim os aspetos essenciais da estratégia nacional de inteligência artificial. Em primeiro lugar, quatro eixos estratégicos principais:

  • Reforçar em França e na União Europeia o ecossistema da IA,
  • Promover uma política de abertura de dados, públicos e privados, em França e na União,
  • Adaptar o quadro regulamentar e financeiro, nacional e europeu,
  • Definir os desafios e os limites éticos e políticos da IA.

Para dar concretização a estes eixos estratégicos, e na linha do que é proposto no relatório Villani, o Presidente aponta um programa com cinco pontos essenciais:

  • Uma rede de 4 a 5 institutos interdisciplinares de investigação em IA,
  • Um programa de cooperação universidade-indústria para a criação de start up denominadas deep technology,
  • Uma política voluntarista de abertura de dados e de apoio a plataformas setoriais para a partilha de dados públicos e privados,
  • Um programa de apoio a uma estratégia experimental para o veículo autónomo,
  • Um programa de crédito público no valor de 1,5 mil milhões de euros para o quinquénio que termina em 2022.

Notas finais

Chegados aqui, e depois desta incursão vertiginosa pela inteligência artificial, é preciso regressar ao princípio da “justa medida” e tentar colocar as perguntas certas na relação entre inteligência humana e inteligência artificial que é, afinal, o cerne da questão.

A inteligência, tal como a entendemos, é, essencialmente, o fruto do cruzamento de uma base biológica com um complexo simbólico e cultural impossível de ser reproduzido artificialmente. O mito da inteligência das máquinas é, apenas, a sua capacidade para simular a inteligência humana, pois a autonomia técnica e lógica não se confunde com a inteligência racional e emocional dos humanos. Somos nós que inventamos o código e é dentro de um determinado código de linguagem que as máquinas e a inteligência artificial trabalham. Podem aperfeiçoar mecanismos de aprendizagem e categorizar a informação, mas não alteram o código com que trabalham.

O mesmo se diga em relação ao Big Data. É certo, faz-se antecipação com base numa correlação que assenta sobre um axioma de regularidade, mas o futuro muito raramente respeita as previsões e o progresso é frequentemente convulsivo, pouco atreito a determinismos, sobretudo se pensarmos na desmesura da imaginação e do determinismo tecnológico em redor da singularidade transumanista.

Não obstante, o futuro não pode ser confiscado pela promessa tecnológica e a política não pode ficar acantonada por este determinismo sociotécnico. Uma vez que há muitas outras promessas no horizonte, façamos, então, as perguntas que se impõem (a nós) nas relações entre inteligência humana e inteligência artificial:

  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, quais são as complementaridades e os limites que se impõem entre uma IH consciente e uma IA logicamente subordinada?
  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, como repartir, com justiça e equidade, o valor criado pela IA em termos de riqueza e emprego?
  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, como impedir que os “erros e a estupidez artificiais” originem acontecimentos fortuitos e danos colaterais graves?
  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, como impedir que algumas formas de IA se convertam em cúmplices do cibercrime e da insegurança de indivíduos, povos e nações?
  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, como evitar que o espaço público seja tomado pelo medo e a desesperança quanto ao seu próprio futuro e a partir do momento em que todos somos ou acreditamos ser imortais?
  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, como impedir que a governação algorítmica e a administração do Big Data provoquem mais discriminação, enviesamento e exclusão sociais, uma verdadeira guerra civil das inteligências?
  • Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, a coabitação entre várias formas de IA precisa de um enquadramento institucional apropriado, donde a necessidade de um forte contencioso de responsabilidade perante órgãos arbitrais, instâncias regulatórias e judiciais.

Numa sociedade humana eticamente responsável e politicamente avisada, os melhores princípios ainda são a prudência e a moderação perante um futuro cada vez mais performativo no que diz respeito à tecnologia. Somos seres conscientes dotados de intenção, intuição, reflexão e sentimentos e, no plano ético, os limites da consciência e a consciência dos limites é a nossa norma-padrão e, também, a regra base para lidar com as relações entre IH e IA. No limite, a inteligência artificial até pode simular algumas destes atributos, mas a possibilidade de cair no ridículo é ainda mais iminente. O mesmo se diga em relação à auto-regulação de sistemas automáticos ou mesmo autónomos.

E se nesta sociedade humana ser eticamente responsável e politicamente avisado for, mesmo, o caminho mais difícil? Como podemos nós enfatizar as virtudes da prudência e da moderação quando nos propõem, em contraponto, a esperança da eternidade e da imortalidade? E se a base democrática das instituições em que assentam aquelas virtudes estiver perigosamente ameaçada por movimentos populistas e democracias duras e iliberais?

E se, neste contexto, a sociedade humana optar por escolher o caminho mais curto, aquele que nos levará até à “cidade dos anjos” pela passagem do transumanismo e da pós-humanidade, então teremos de perguntar qual é a máquina inteligente que mais nos convém, aquela que nos tornará feliz e nos acompanhará para a vida inteira!!

Convenhamos que a inteligência humana parte em desvantagem nesta longa maratona das inteligências. Seja com for, se quisermos uma regulação ética e uma ética da regulação, não nos podemos deixar abater pela guerra das inteligências, pela morte da morte, pela edição genómica da humanidade ou pelos implantes nos interfaces cerebrais e computacionais. Não temos alternativa. Teremos de ir para o campo de batalha e recriar a teoria do agir comunicacional no espaço público em nome da “estranha ordem das coisas” (Damásio, 2017), pois a nossa vantagem continua a ser essa interação favorável e desfavorável de sentimento e de razão que levou os seres humanos a criar a cultura, arte, sistemas morais, justiça, ciência, economia política e governação.

E depois de todas estas perguntas e dúvidas, só nos restará recomeçar tudo de novo.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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