Muita gente anda nervosa com o Chega e com o André Ventura. Durante o último mês, li muitos artigos e ouvi muitas declarações sobre o assunto e há dois pontos que me deixam perplexo. Um deles é a competição entre comentadores e políticos para ver quem trata mais vezes Ventura como “fascista”, “racista” ou de “extrema direita”. Ninguém vai além disso, como se os termos “fascista” e “racista” fossem suficientes e não fosse necessário explicar e justificar por que razão Ventura seria fascista e uma ameaça à democracia. Por exemplo, é fácil explicar por que razão o Partido Comunista constitui uma ameaça à democracia pluralista. O PCP apoia regimes onde existia, e existe, uma ditadura dos partidos comunistas. Nunca ouvi um dirigente do PCP criticar os regimes comunistas por não permitirem a existência de outros partidos. Em Portugal, o PCP é um partido livre. Na Coreia do Norte, na China ou na antiga União Soviética, os equivalentes aos partidos portugueses, do PS e do Bloco ao PSD e ao CDS, não existem ou não existiram.

Bem sei que no PS ninguém leva a sério a ideologia comunista, mas tendo em conta que um partido anti-democrático apoia há cinco anos um governo do PS, é absolutamente ridículo considerar que o Chega ameaça a democracia portuguesa. Aliás, a incapacidade de ir além dos lugares comuns “fascista”, ou “extrema-direita”, mostra a pobreza das críticas ao Chega. As esquerdas já trataram a maioria dos líderes das direitas portuguesas como “fascistas”. Vulgarizaram de tal modo o termo que já ninguém leva isso a sério, suponho que nem muitos no PS levam (com a excepção de Ferro Rodrigues, claro). Tratar Ventura como “fascista” ou de “extrema-direita” não lhe tira um voto, apenas mostra a preguiça mental e a hipocrisia de quem usa esses termos.

O segundo ponto é que todos falam do André Ventura e ninguém discute os seus eleitores. Por que razão dezenas de milhares de portugueses, os quais poderão ser em breve centenas de milhares, votaram em André Ventura? Esta é a questão central. Os votos desses portugueses não valem menos do que os votos dos eleitores dos outros partidos. E Ventura só preocupa porque, aparentemente, há um número considerável de portugueses disposto a votar nele. Se nas eleições presidenciais, Ventura tiver 1% dos votos, deixa de ser uma preocupação e desaparece.

Mas se tiver 10%, porque será? Parece-me evidente que a maioria desses eleitores vota no Chega e em Ventura porque não está satisfeita com os outros partidos nem com o Presidente da República. Se o eleitorado de direita estivesse agradado com Marcelo Rebelo de Sousa e com Rui Rio, o Chega não existiria. Quem são os culpados, o Presidente e o líder do PSD, ou os eleitores? Por vezes, sou acusado de dar muita importância ao PCP e ao Bloco. Dou, porque há muitos portugueses a votarem nesses partidos. Levo todos os eleitores a sério. É a lei da democracia.

Há muita insatisfação em Portugal, como se vê com as taxas de abstenção. Não foi o Chega que levou o país à falência e obrigou a uma ajuda externa e a uma receita de austeridade. Não é o Chega que está associado a casos de corrupção. Não é o Chega que quer alterar os costumes e os hábitos sociais dos portugueses de um modo radical e revolucionário. Não foi o Chega que esteve no poder quando toda a Europa crescia e a economia nacional continuava estagnada. Não é o Chega que aumenta os impostos, ataca o sector privado e todas as actividades empresariais que começam a dar lucro.

O Chega pode não ser a resposta certa, mas há problemas muito graves em Portugal, as pessoas estão desanimadas e mesmo zangadas, e metade do eleitorado deixou de votar. É com isso que nos devemos preocupar. Há muitos portugueses que se sentem traídos pela classe política. Quem manda em Portugal, tem estado no poder há décadas. Desde 1995, em 25 anos, o PS esteve no governo 19 anos. O André Ventura é que é o culpado do estado em que está o nosso país? Está na altura dos responsáveis políticos enfrentarem a realidade, assumirem as suas responsabilidades e serem verdadeiros com os portugueses. Ou julgam que os problemas se resolvem chamando fascista ao Ventura?

Eu não acho que o Ventura seja “fascista”, nem uma ameaça à democracia, mas gostaria de deixar aqui algumas questões ao seu líder. Apesar de tudo, o Chega já existe há mais de um ano, está no Parlamento e Ventura é candidato a Belém, por isso deve ser escrutinado. Ventura é habitualmente muito rápido a criticar o Governo e a corrupção, mas ainda nada disse sobre a participação do PM na comissão de honra da candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica. Neste caso, não o incomoda que o PM esteja associado a uma pessoa acusada por corrupção?

Mas há outras questões mais importantes e sérias para Ventura responder. O seu partido integra a família política da Frente Nacional e Ventura e Marine Le Pen andaram na semana passada a trocar juras de amor entre os dois. Convém assim perguntar, o Chega defende que Portugal abandone a União Europeia ou o Euro? Defende a realização de um referendo sobre a integração europeia?

Tendo em conta as posições quase socialistas e protecionistas de Le Pen para a economia francesa, está o Chega disposto a lutar pelos interesses do sector privado, dos pequenos e médios empresários e comerciantes que não querem viver à sombra do Estado e que estão neste momento abandonados por todos os outros partidos? Defende uma Europa mais protecionista, ou quer ajudar as empresas portuguesas exportadoras? Estas questões são essenciais, sobretudo para um partido que se diz de direita. Em Portugal, a direita tem sido solidamente pró-europeia e a favor de uma economia assente na iniciativa privada e na internacionalização das empresas. Entendo perfeitamente a revolta de muitos eleitores de direita. Mas a insatisfação com Marcelo e com Rio não justifica que se passe um cheque em branco a Ventura, e que se abandone a melhor parte da herança da direita portuguesa. O eleitorado de direita deve ser exigente com Ventura e, recordar, que há um candidato da Iniciativa Liberal.