A Conferência de Lugano teve como finalidade lançar as bases de uma espécie de novo “Plano Marshall”. Sendo útil, pois entre não ter plano nenhum e ter um plano (mesmo que baseado em múltiplas hipóteses, semelhantes a verdadeiros exercícios de adivinhação), será sempre melhor tê-lo, ainda que mais tarde tenha de ser refeito.

Discute-se a ajuda internacional tendo em vista a reconstrução da Ucrânia. Assim parece lícito deduzir que estamos perante uma crença fundamentada e generalizada no mundo ocidental de que a Ucrânia vencerá esta guerra!

Mas, e se a Ucrânia a perder e deixar pura e simplesmente de existir no espaço de um a dois anos como referiu Medvedev? Vamos ajudar a reconstruir o quê? A Rússia? Parece-me ser uma pergunta óbvia a colocar!

Estaremos dispostos a reconstruir territórios arrasados por Putin na sua ansia expansionista? Entendo que essa possibilidade estará liminarmente fora de questão!

Numa visão realista, parece-me útil saber quem está disposto a ajudar e com que meios, quantos milhares de milhões estarão envolvidos neste suposto plano, como reunir esse montante que há cerca de um mês se estimava ser de 500 milhares de milhões de euros e que, dia 04 de julho, já foi anunciado que seria no mínimo de 750 mil milhões. Então e daqui a um ou dois meses será de quanto? Dois, três biliões? Quem sabe?

Com os constantes níveis de destruição a que assistimos, estaremos seguramente perante verbas da ordem dos biliões de euros. É muito importante que os líderes ocidentais tomem consciência e encarem esta dura realidade tal como ela se apresenta.

Seria razoável saber de que forma a Rússia deverá indemnizar a Ucrânia pela destruição que lhe está a causar. Seja através do confisco dos bens mobiliários e imobiliários dos oligarcas ou de quaisquer outras formas, mesmo que isso implique a aprovação de alterações às leis vigentes nos países em questão.

Fica-se com a sensação de que os 35 países e organizações presentes em Lugano poderão ter estado a construir castelos na areia ou a discutir algo parecido com o sexo dos anjos, como quando fugimos ao essencial e passamos a discutir o acessório.

Salvo melhor opinião, aqui o essencial é justamente criar as condições para que a Ucrânia seja vencedora neste conflito. Para isso é fundamental continuar a garantir que ao exército ucraniano, e de uma vez por todas, nunca lhe faltem nem armas, nem munições, nem atividades de formação dirigidas a quem as vai utilizar e manter operacionais.

Julgo que estamos perante uma situação em que se está a querer colocar a carroça à frente dos bois!

Em abono da verdade, as únicas vantagens práticas que se conseguem vislumbrar desta iniciativa são:

  • Inventariar um conjunto de organizações e países dispostos a participar numa reconstrução de algo que não se sabe bem o quê;
  • Passar uma mensagem clara a Moscovo de que acreditamos piamente na vitória da Ucrânia neste conflito;
  • Por último demonstrar a Kiev a solidariedade com a sua causa e a firme disposição de participar na reconstrução do seu país.

É compreensível a posição do Presidente Zelensky quando solicita apoio para a reconstrução da Ucrânia, contudo é preciso ser paciente e não cair na tentação fácil de reconstruir de forma definitiva aquilo que pode eventualmente ser destruído no dia seguinte pelo furor da artilharia e dos mísseis russos.

Primeiro é preciso garantir que se ganha a guerra. Se assim não for não haverá sequer esperança de reconstrução.

Assim Lugano, com muita pena minha, não passou de um exercício teórico e algo prematuro dado que o grau de destruição de ontem é diferente do de hoje e este por seu turno muito diferente do de amanhã.

A acrescentar à complexidade do problema temos obrigatoriamente de referir as demoradas e sensíveis operações de desminagem e inativação de engenhos explosivos não detonados, e estes são inúmeros, como muito bem sabemos.

Outro aspeto muito importante a adicionar a tudo isto é a existência de vastas áreas contaminadas em resultado das ações de bombardeamento sobre refinarias e complexos produtivos ligados a indústrias químicas.

Se e quando a reconstrução se vier a concretizar, julgo importante sublinhar que poderá ser uma excelente oportunidade para efetuar extensivamente a reconversão da tipologia de construção da era soviética, para os “standards” europeus.

Se a dimensão e a complexidade da questão aconselham a que se comece a planear congregando vontades e recursos, também não devemos esquecer que derrotar a Rússia nos campos da Ucrânia constitui condição “sine qua non” para que essa reconstrução seja uma realidade.

Cascais, 05 de julho de 2022