O retrocesso. Voltou. Só nas últimas semanas tivemos o retrocesso “de mais de 40 anos” implícito nas alterações apresentadas pelo Governo para a disciplina de Cidadania, mais o “inequívoco retrocesso” presente, segundo as Mulheres Socialistas, nas propostas de alteração à legislação laboral, nomeadamente no que respeita aos dias de baixa por interrupção de gravidez.

Quer num caso quer noutro estamos perante um exercício de pura demagogia política – não só não vai deixar de se tratar da sexualidade nas escolas como a disciplina de Cidadania, nos moldes em que está, é uma espécie de tudo e o seu contrário.

Já quanto às alterações nas faltas por interrupção da gravidez o caso é ainda mais patético: fizeram-se títulos como Porque é que o Governo quer eliminar o direito ao luto gestacional? ou Governo quer eliminar direito a faltar ao trabalho por luto gestacional. O PS veio falar de “inequívoco retrocesso” e no final, se as alterações forem como detalhado no comunicado que o ministério do Trabalho e da Segurança Social fez sair em plena crise do “inequívoco retrocesso”, não só trabalhadores não perdem dias por luto como ganham.

Num primeiro e mais distraído olhar, as polémicas do retrocesso são em Portugal como os filmes de guião estafado. Já se sabe quem são os maus, os bons e o desfecho que se quer inevitável: os bons, progressistas, ganham aos maus, os “retrocedores”. Mas politicamente falando o imaginário do retrocesso merece que se lhe dê mais atenção. Afinal o retrocesso é o fantasma que invariavelmente paira sobre os portugueses mal o PS deixa de morar em São Bento, pois a esquerda, apresentando-se como o motor do progressismo (não confundir com progresso), vê na simples chegada da direita ao poder, não um processo de alternância entre diferentes propostas políticas, mas sim a interrupção de uma marcha antecipadamente delineada e que pode ser adiada mas tem de ser cumprida.

A primeira escolha. Não há pecado original em Portugal que se equipare ao facto de não se ter sido a primeira escolha. O caso veio mais uma vez à baila por Álvaro Santos Pereira não ter sido a primeira escolha para o lugar de governador do Banco de Portugal (terá sido mesmo a sétima, o que não deixa de ser um sinal dos constrangimentos legais e da pouca atractividade do cargo).

Mas deixando o caso de Álvaro Santos Pereira para o tópico que se segue — a falsa paixão nacional pelos independentes — vamos lá à mácula de não se ser a primeira escolha seja para o que for.  Quando pessoas que na sua maioria não foram escolhidas para nada de particularmente relevante franzem os narizinhos e dizem do alto da sua irrelevância sobre outrém “Não foi uma primeira escolha!” não só sinto uma irreprimível vontade de rir como desato de imediato a pensar se alguém os escolheria para alguma coisa.

Tenho aliás a prosaica convicção de que ao longo da nossa vida somos invariavelmente a segunda, terceira ou sei lá qual escolha em diversas circunstâncias profissionais e pessoais e não só não vejo nisso problema algum como interpreto como um inquietante sinal de insegurança este imaginário em torno da primeira escolha que entre outras coisas esconde o medo de não se ser escolhido.

O que define a escolha não é na minha opinião o ter-se sido a primeira ou a sétima escolha mas sim a forma como se desempenha o lugar para o qual se foi escolhido. E aí não tenho mesmo a certeza de que primeira escolha seja invariavelmente sinónimo de melhor escolha.

A falsa paixão nacional pelos independentes. Dou de barato que Mário Centeno, que passou do Ministério das Finanças para o cargo de governador do Banco de Portugal, seja apresentado como independente e que Álvaro Santos Pereira, que foi ministro há treze anos, apareça agora como uma nomeação política. O que me interessa mesmo é o paradoxo em que caímos: por um lado queixamo-nos da falta de qualidade dos políticos e passamos a vida a dizer que há que atrair os melhores para a política mas o facto de alguém, no caso Álvaro Santos Pereira, ter tido um cargo político — foi ministro há treze anos — é agora visto como uma mancha no seu curriculum. Dir-se-á que se fosse socialista o problema não se colocava nos mesmos termos. Provavelmente não, mas, repito, não é isso que me interessa agora. O que me parece mais preocupante é a concepção triunfante da independência não como uma forma séria, rigorosa e livre de estar mas sim como uma espécie de anti-política. (Deve ser a isto que se chama populismo, não é?).