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Ensaio sobre a cegueira [governativa]

Autor
  • Gonçalo Sobral Martins
406

Um ministro das Infraestruturas a dizer que a solução passa por «todos termos de nos preparar» é o mesmo que o ministro da Saúde pedir que nos antecipemos a ficar doentes em caso de greve dos médicos.

Ter ouvido e visto – o que alguns portugueses mais criativos, ou jericos, dizem ser «ouvisto» – a nova preciosidade do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, foi como revisitar os «Tesourinhos Deprimentes» do Gato Fedorento, mas sem a parte de análise em chacota do grupo de humoristas. Ainda assim, não se sentiu a sua falta porque o ministro, sozinho, chega para nos animar. Relativamente ao aviso de greve imposto por parte de dois sindicatos de motoristas de mercadorias, o ministro declarou e passo a citar: «Todos temos de nos preparar. Todos nós dever-nos-íamos abastecer, para enfrentar com mais segurança o que vier a acontecer no dia 12». Confesso que a transcrição já apresenta a correção da sua gralha gramatical, mas não fui a tempo de o calar, o que na grande maioria das vezes teria sido um ato louvável em favor dos portugueses – dos que ouvem, pelo menos; os que não ouvem já se encontram naturalmente poupados a este flagelo (há sempre um lado positivo em qualquer debilidade).

Termos um ministro das Infraestruturas a referir que a solução passa por «todos termos de nos preparar» antecipadamente para a eventualidade de greve dos camionistas de mercadorias seria o mesmo que o ministro da Saúde solicitar que nos antecipássemos a ficar doentes e a ir às urgências asap, por forma a não as enchermos em dia de greve dos médicos e/ou dos enfermeiros. Ora bem, sem qualquer auxese – a menos que fortuito – da minha parte: temos um ministro que nos solicita, tacitamente, para atenuar com o nosso trabalho os males consequentes do insucesso do seu? É isto, não é, Pedrinho? A meu ver, o domínio do português não é o teu forte, mas esforça-te lá, por favor, que esta dúvida é séria.

Contudo, as questões não se esgotam aqui. Fiquei com uma dúvida ainda maior: é seguro atestar a banheira de casa com gasóleo? Seria útil a todos os portugueses que fosse criada uma linha de apoio telefónico (do género da linha de Saúde 24), para esclarecimento público, nomeadamente: dos postos de venda dos jerricans recomendados por Pedro Nuno Santos; para conceder estimativas de quantos recipientes de 20 litros necessitamos de ir tendo na dispensa e por quanto mais tempo, consoante o desenvolvimento das negociações com a ANTRAM; etc. Poderíamos, ainda, ter uma app na qual sabíamos qual a gasolineira espanhola mais próxima face à nossa localização, para quando os tanques – e as banheiras, claro – começassem a ficar vazios.

E se, por um lado, o ministro das Infraestruturas estima complicações para o transporte de gasolina e afins, já o ministro da Administração Interna vai lançando lenha para a fogueira. O fogo governamental em que arde o seu próprio desespero não parece cessar, porque a hipocrisia não tem limites – e tampouco se transporta em camiões de matérias perigosas. Passo a explicar: o governo, ao responsabilizar diretamente autarcas pelos incêndios calamitosos como os de Mação ou Vila de Rei, profere acusações inadmissíveis, perfeitamente despropositadas e muitíssimo graves. Além de aumentar o caos numa fase já altamente danosa para muitos portugueses que perderam praticamente tudo, surge uma triste tentativa de aproveitamento e de politização de um flagelo em que os principais culpados, a existirem, são entidades governamentais.

Não podemos esquecer que há dois anos – mais que a destruição florestal e a devastação material de milhares de pessoas – sucedeu mais de uma centena de mortes. E, aqui, o governo foi “poupado” por todas as forças políticas, numa união dos diferentes quadrantes partidários que decidiu priorizar – e bem, a meu ver – o respeito pelas vítimas e não o lavar de roupa suja desnecessário que tem sucedido por estes dias. Imagine-se, agora, que António Costa, há dois anos – em vez de ser o primeiro-ministro cego que nada via –, era o principal líder da oposição (mas “esclarecido” como está hoje): não quero imaginar, então, o folclore que teria sido instigado, em 2017, para ganhar votos, através de um momento que deveria ser de respeito pelas famílias atingidas por tamanha catástrofe. Em todo o caso, nada disto é novidade: a forma covarde como sempre tem sacudido, em tudo que dá para o torto, a água do capote é tão ardilosa quanto a forma sabichona como chegou ao poder.

António Costa e o seu governativo assustam-se porque sabem, perfeitamente, que assumir responsabilidades por acontecimentos nefastos os fará perder votos. Mas, a meu ver, que é contrário ao “ver” de António Costa, antes perder votos que perder o discernimento e a humildade. E, tal como os votos, tantas outras coisas. Estas acusações pueris por parte do governo, típicas de puros meninos mimados que julgam que há a opinião deles e a errada, são simplesmente infundadas.

Vejamos: Portugal não tem, sequer, a esmagadora maioria dos planos regionais de ordenamento florestal aprovados, uma vez que existem bastantes dados obsoletos que necessitam de serem revistos. Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente. Nas últimas décadas, não tivemos um único governo capaz de fazer a gestão florestal, que se vai empurrando, ad aeternum, com a barriga. Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente. Ainda há pouquíssimo tempo se discutia, em praça pública, a incapacidade do Estado em adquirir mais helicópteros e outros meios técnicos identificados como cruciais para o combate aos incêndios. Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente.

É mais que sabido que, nos últimos anos, tem existido uma aceleração de desinvestimento no interior do país e o seu, consequente, despovoamento. O interior é cada vez menos atrativo para as pessoas, fruto principalmente de máquinas centralistas que se limitam a fechar serviços públicos, ao invés de os renovar. Não há um verdadeiro plano estratégico contra a desertificação do interior do país – um dos maiores flagelos a que assistimos em Portugal. Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente. O ridículo do desinvestimento é tal que, como adiantou Tiago Dores na sua última crónica, uma aplicação de alerta de fogos chamada Firerisk – pasme-se, caro leitor: galardoada pela agência para a Modernização Administrativa – fechou este ano por falta de fundos. Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente.

Pior: segundo avançou o JN, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (uma entidade governativa) deve mais de meio milhão de euros em combustível aos dispositivos especiais de combate aos incêndios rurais. Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, declarou com toda a legitimidade que estes elementos não têm de pagar para socorrer (apesar de já o fazerem tantas vezes e de forma voluntária). Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente. O ministro da Administração Interna, claramente atrapalhado quando questionado pela RTP sobre esta dívida, referiu que a ANEPC «pagará, certamente, tudo aquilo que deve ser pago». Esta falha crassa não é culpa dos autarcas, certamente.

Posto isto, o senhor ministro não pode, tal como compreenderá – caso o seu intelecto seja suficiente e a sua “cegueira” não permanente – sacudir a água do capote e culpabilizar, tão grave e levianamente (de forma quase arbitrária), autarcas, quando estes não têm, sequer, à disposição das suas localidades corporações de bombeiros com recursos tão básicos para o exercício da sua atividade quanto o combustível. Não me diga que, num país com a carga fiscal mais pesada de todos os tempos e repleto de tão gabados excedentes orçamentais, o governo não tem verbas, sequer, para encher os jerricans que o seu colega das Infraestruturas nos recomenda alegremente colecionar.

Economista

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