Partidarização e fragmentação

As sondagens dizem-nos, desde há meses, que, na segunda volta, André Ventura perderia com todos. Com variações de sondagem para sondagem e diferenças consoante o oponente, o destino estava traçado: Ventura perderia, isto é, Seguro vencerá. Neste duelo, as sondagens previam Seguro sempre acima de 60 pontos e Ventura em 25 a 30 ou pouco mais. A explicação estava nos chamados “índices de rejeição” – as sondagens indicavam que 60 por cento dos eleitores diziam nunca votar em André Ventura. Não são os partidos a falar, mas os eleitores.

Na noite eleitoral, André Ventura criticou a “forte fragmentação da direita” e responsabilizou-a pela situação criada. É verdade. Os três candidatos à direita somaram 50,8% e os seis de esquerda 36,7%. (Não apresento os 12,3% de Gouveia e Melo, cujos eleitores talvez possam dividir-se, em hipótese, por metade para cada lado.) Olhando o quadro como se tudo fosse homogéneo, interpela-nos, na verdade, como é que, sendo a “direita” maioritária, as sondagens dizem que a “esquerda” ganha folgadamente. Quando assim é, a constatação, a ser sólida, revela que houve maus cálculos e más escolhas. E também erro grosseiro quanto ao que são a “direita” e a “esquerda”.

Procurando a explicação nestas presidenciais, penso que o problema está nestas palavras: partidarização e fragmentação. E a coisa já não tem conserto. Por outras palavras, quem escolheu Ventura, escolheu o vencedor. André Ventura culpou a fragmentação (“a direita fragmentou-se como nunca”), mas não lhe é estranho: também contribuiu para ela – e de que maneira! Contribuiu também para a partidarização, sendo igual dizer candidato André Ventura ou candidatura do Chega. Nem se fazia disso segredo. Era o modelo de Jorge Pinto, António Filipe, Catarina Martins ou Luís Marques Mendes – partido (ou coligação) igual a candidatura e vice-versa. Dizendo de outro modo: se se tivesse ajustado uma candidatura suprapartidária à direita, talvez ganhasse; assim, cada um se encurralou no seu partidinho e afundou o possível conjunto. É evidente que todos são livres de fazer as escolhas que querem, não podem é estranhar que os efeitos aconteçam.

António José Seguro apresentara a candidatura com independência e propunha-se agregar, à semelhança do modelo seguido por Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo. O eleitorado compreendeu isso e, nesta primeira volta, premiou a independência em vez do alinhamento partidário e recompensou a agregação contra a fragmentação. A forte vantagem de Seguro também resulta destes factores; e André Ventura teve exatamente aquilo que queria representar: os votos do Chega. O PS, que tanto maltratara António José Seguro, vê, hoje, um dos seus a superar 30%, coisa que já não via desde as presidenciais de 2001 e as legislativas de 2009.

Quando, a meio de Setembro, André Ventura anunciou a candidatura, o facto marcou fortemente o que veio a acontecer: rebobinando os acontecimentos, há claramente uma corrida antes e outra depois de o líder do Chega se apresentar. Tinha acabado de ter grande sucesso em Maio, conquistando 60 deputados (contra 50 em 2024) e 1,4 milhões de votos (contra quase 1,2 milhões, um ano antes). Logo se comentou que era uma candidatura instrumental, que não visava eleger o Presidente da República, mas consolidar o eleitorado do Chega e aumentá-lo ainda mais, para depois usar esse capital noutros combates com outros alvos – munições para ir de batalha em batalha.

No fundo, tratava-se de repetir as presidenciais de 2021, em que Ventura aumentou largamente os magros votos iniciais de 2019, pondo-os, depois, a render nas legislativas de 2022. Em todo o trajecto até à primeira volta, esse propósito nunca deixou de estar presente e de mostrar-se na temática própria do debate parlamentar ou da acção do governo. António José Seguro acertou, quando lhe respondeu na televisão: “O senhor deputado está nas eleições erradas”. Não havia diferença no estilo do discurso de André Ventura, na bancada da Assembleia da República ou na estrada das presidenciais. O eleitorado do Chega respondeu à chamada: deu-lhe quase todos os seus votos, menos 100 mil. Não conseguiu subir, diversamente de em 2021. Mas, nessa altura, ainda o Chega dava os primeiros passos, abaixo dos 500 mil votos; agora, a coisa fia mais fino – o patamar já é muito elevado e André Ventura não subiu face a 2025.

Na segunda volta, claro!, poderá subir. Mas custa crer que suba muito; e o que subir poderá perder. Números obtidos numa segunda volta, com dois candidatos apenas, não são transponíveis para outra eleição aberta e plural. Além dos “índices de rejeição”, há uma sensação difusa de batota quando um candidato corre numa eleição a pensar noutra. Muitos eleitores não gostam disso. Pior ainda quando não é uma eleição para Presidente da Junta, mas para Presidente da República.

Estabilidade política

Domingo passado, à noite, André Ventura apresentou-se como líder da oposição e líder da direita. Muito bem. Vamos por partes. Portanto, teremos o líder da oposição a disputar a segunda volta das eleições presidenciais.

O governo formou-se há poucos meses, depois de eleições em Maio. O orçamento para 2026 acaba de ser aprovado e publicado. O país deseja estabilidade política, paz social, crescimento económico. Faz sentido votar num candidato presidencial que, na noite eleitoral, se vangloriou “derrotámos o montenegrismo” e, todos os dias, brama a condição de “líder da oposição”? Que eleitor do espaço político do governo daria um só voto a quem quer sabotá-lo? O trajecto desta candidatura presidencial mostra que cada 1% mais que André Ventura obtivesse a 8 de Fevereiro seria força política a mais para o Chega jogar todos os dias no Parlamento contra o governo e a direita moderada. Os eleitores que querem a estabilidade sabem que têm a obrigação de a proteger. Os eleitores que apoiam o governo e a sua maioria têm certamente a vontade inteligente de não os sabotar. Quem quer dias difíceis, se do que precisa é de dias mais fáceis?

A ideia de ser o “líder da direita” é discutível. A manter-se a linha característica de intervenção do Chega, é difícil que venha a ser líder de outros além de si mesmos. Pode ser maior, mas não será mais abrangente. Os “índices de rejeição” mostram isso. O método putiniano de liderança é bom para intimidar, demolir e esmagar, mas não dá para construir, atrair, alargar concertação. Em Janeiro, por exemplo, houve novas demissões de autarcas relevantes do Chega: vereadoras em Lisboa e Coimbra acabadas de eleger, com queixas típicas de um problema antigo. “Líder da direita” é, aliás, uma proclamação errada. André Ventura foi, na primeira volta, o candidato mais votado à direita; mas isso em nada altera a relação de forças entre as forças políticas. A AD é liderante e para continuar.

Segunda volta

Até 8 de Fevereiro, deverá ser-nos dada informação sobre as ideias e propostas dos candidatos sobre questões da responsabilidade real do Presidente da República. Dou alguns exemplos que me ocorrem: coesão nacional; relacionamento institucional, separação de poderes e regular funcionamento das instituições; poder moderador; a palavra do Presidente; proximidade com os cidadãos e todo o território; no perigoso momento actual, a guerra da Rússia na Ucrânia, os recentes movimentos de Trump contra a Gronelândia, o uso das tarifas para coacção política e o ataque à União Europeia, uma agenda da Paz; reforço robusto do investimento em Defesa e Forças Armadas e o futuro da NATO; o estatuto internacional da língua portuguesa e sua afirmação; a revalorização da CPLP, que Adriano Moreira considerava como a melhor construção portuguesa, “comunidade geopolítica dos afectos”, mas tão desleixada nas últimas duas décadas. A agenda do governo e do parlamento não é chamada para esta eleição. Se usada, como infelizmente acontece, deve ser considerada “encher chouriços” e pura perda de tempo.

André Ventura é natural que continue com estratégia de carro de combate, como tem sido a sua marca e os seus seguidores aplaudem. Procurará romper o cerco que montou a si mesmo na primeira volta, agindo mais como líder da oposição do que como figura presidencial. Quererá ir tão longe quanto puder na conquista de mais votos, embora seja de crer que não espere ganhar. A votação que obtiver será para pôr a render como líder da oposição e, mais tarde, em nova eleição.

António José Seguro deverá manter-se onde está. Tendo começado sozinho com a sua coragem, soube definir onde devia colocar-se; e, tendo definido com inteligência o seu lugar na geografia, depois foi deixar funcionar a bacia hidrográfica. Não pode deixar que o cavalguem e deve deixar claro que, tendo a sua história política e pessoal, não é candidato do PS – todos têm visto que não é. Tem um passado socialista, mas não assusta. Foi dos primeiros a romper com José Sócrates, com frontalidade. Sendo líder do PS e da oposição, agiu com lisura com Pedro Passos Coelho, num tempo difícil e muito exigente para Portugal. Pagou no PS do lado de lá o preço do patriotismo. Afastado da atividade política desde 2015, não tem nada a ver com os governos socialistas dos últimos anos, nem com o desleixo e caos herdados na imigração e na nacionalidade, no SNS, no INEM e noutras áreas muito expostas. Não é militante revolucionário, antes pelo contrário, e acredito que se aproxima de Mário Soares na sua melhor fase de “o socialismo na gaveta”. Não assusta verdadeiramente ninguém, salvo à deputada Isabel Moreira, que se entrincheirou na candidatura Catarina Martins. Tudo coisas que o enobrecem.

Sim, em abstracto, se eu tivesse esse poder e o tempo voltasse para trás, eu preferiria claramente eleger um candidato da área da Aliança Democrática. Mas as coisas são o que são. E, como diz o sábio, o que tem de ser tem muita força.