Depois do último 5 de outubro, é imperativo mudar o tema do feriado. A implantação da república não excita ninguém – foi há mais de cem anos e deu origem a um dos períodos de maior bandalheira da história da Europa e arredores – pelo que é tempo de celebramos as peculiaridades do modo de ser português. Assim, sugiro que se substitua pelo ‘dia da saloiice nacional’ ou ‘dia da carneirada lusitana’.

Porquê no dia 5 de outubro? Porque neste feriado abriu o MAAT e se soube que António Guterres seria o novo secretário geral da ONU. E o país ficou transbordado de alegria como se Trump se desfizesse no ar, com revelação de afinal o candidato ser somente um holograma inventado por um cientista com um retorcido sentido de humor.

Começando por Guterres. É evidente que António Guterres é muito adequado para liderar uma organização que já teve a Líbia dos tempos de Kadhafi na sua comissão de direitos humanos, e que dá um assento ao Irão na comissão que alegadamente pretende promover os direitos humanos das mulheres no mundo. Por aí percebo o regozijo. É sempre bom celebrarmos a consonância interna das organizações supranacionais.

Também sei da tendência aqui do retângulo para diabolizar as gentes de direita (Cavaco Silva é o anticristo, está provado, Passos Coelho é a reincarnação de um oficial das SS e Marcelo Rebelo de Sousa só será fofinho enquanto não incomodar a nossa magnífica geringonça). E para elevar a santos de altar (atenção, altares hipster e modernos, não daqueles católicos e bafientos) as boas pessoas da esquerda. Cunhal foi cúmplice do regime mais mortífero de sempre, mas escrevia e desenhava tão bem, que belo temperamento de artista. Sócrates vestia-se como um pato-bravo e gostava muito de fotocópias, mas liberalizou o aborto e foi o perfeito primeiro-ministro de um país que gosta muito de pechisbeque; merece sem dúvida um lugar à direita de Marx.

Por isso quero contribuir com uns pedaços que faltam para o retrato com que políticos e jornalistas nos mimosearam de Guterres (benzam-se sempre que lerem o nome do insigne chefe da ONU, se faz favor).

A habilidade guterrista para as contas públicas, por exemplo, não está ao alcance de qualquer um. Só mesmo um génio como Guterres consegue espatifar as contas públicas numa conjuntura económica tremendamente favorável. Em meia dúzia de anos, com crescimento económico robusto, situação internacional favorável, receitas fiscais a jorrarem viçosamente para o orçamento de estado e juros da dívida pública a caírem com a adesão ao euro, Guterres teve o mérito de não só não cumprir nenhum dos critérios orçamentais do pacto de estabilidade e crescimento, como ainda foi virtuoso a ponto de nos conduzir a uma situação de défices excessivos. Tal capacidade destrutiva é, de facto, um talento escasso mesmo no político típico português.

Os amigos de Guterres. Temos a agradecer ao atual secretário geral da ONU ter trazido para a política estadistas gigantes da estirpe de Sócrates (tão polivalente que é agora também intelectual de gabarito prestes a lançar o segundo livro) (ok, podem tirar uns momentos para gargalhadas) e de Armando Vara (que na CGD e no BCP emulou a arte de Guterres para as contas públicas).

Como recomendação do caráter de Guterres gosto muito do episódio Pina Moura. Enquanto o seu ministro das finanças estava num debate na Assembleia da República, Guterres foi a Belém informar que não lhe queria mais os serviços. Como de costume nos governos guterristas, a fuga de informação foi imediata. Pelo que defendia Pina Moura o governo na AR quando toda a gente (incluindo o próprio) soube pela comunicação social que tinha sido despedido. Nunca vi outro primeiro-ministro humilhar tanto alguém que para ele havia trabalhado. Personalidade cinco estrelas.

E Guterres era um homem de fibra. Quando se recandidatou, em 1999, nem teve coragem de pedir uma maioria absoluta. Os eleitores, astutos, fizeram-lhe a vontade (115 deputados para o governo e outros 115 para a oposição) e o resiliente pm amuou com o país e perdeu interesse na governação. Entregou-se a esquemas de trocas de favores de nível de conselho paroquial para aprovar os orçamentos, o mais famoso envolvendo o queijo limiano. Quando finalmente as contas públicas estavam em cacos miudinhos, desertou em vez de resolver a situação – que chamou de ‘pântano’ – que havia criado.

Posto isto, é óbvio que devemos louvar o ex-pm e colocá-lo numa prateleira moral onde só está acompanhado pelo Papa Francisco e por Ghandi.

E agora, brevemente, o MAAT. Ainda não fui lá e não pude verificar se é bonito (não devemos acreditar nas fotografias, porque há edifícios fotogénicos que ao vivo desiludem). Mas foi enternecedora a carneirada do dia de abertura, com ameaças de queda de pontes pedonais e tudo isso. Não se tratou de paixão repentina pela arquitetura contemporânea (que eu perceberia, que já fui em peregrinação por alguns países a ver edifícios icónicos), nem de uma atração irresistível ao acervo da EDP. A multidão acorreu como se à inauguração de um centro comercial de estética questionável, provavelmente para nunca mais voltarem.

Não é uma parte do país de súbito conquistado pela arte e pela arquitetura. É um país que nem consegue ir a um museu, essa excentricidade, se não em dias de feira. E que está aos pulos de felicidade a celebrar Guterres. Faz sentido.