O dia 2 de abril de 2025 vai ficar para a história como a data em que o Presidente dos EUA, usando o poder extraordinário que foi concedido pelo Congresso[1], terminou a era neoliberal iniciada por Nixon-Reagan de tendência para o comércio livre internacional, e abalou o Mundo com um nível de tarifas e protecionismo que só remonta a 1910. Era não só uma forte machadada na estabilidade económica internacional e a ordem internacional criada pelo GATT-WTO, como o eventual início de uma guerra mundial comercial, com todas as consequências no risco e incerteza nas relações comerciais e políticas internacionais. O eufemismo utilizado por Trump de “Liberation Day” iria ser seguido por uma forte queda nas bolsas mundiais: o índice Dow Jones iria cair 7% até ao dia 7, com quebras ainda maiores nos setores mais expostos à subida das tarifas, a maior queda das ações desde o início do Covid. Se estes eventos irão acabar numa guerra comercial e numa recessão do mundo industrializado depende do aumento e duração deste nível de tarifas e da retaliação dos países afetados. Alguns historiadores chegam a afirmar que as guerras comerciais por vezes são seguidas por guerras militares, com consequências gravíssimas.
Neste ensaio vamos começar por descrever a moderna teoria das tarifas, ensinada nas Universidades pelo menos desde os anos 1970’s, que estabeleceu a primazia do comércio livre para o bem-estar mundial, os benefícios do comércio externo versus a autarcia, provando que (i) a redução multilateral de tarifas e barreiras aduaneiras promove o crescimento das nações, (ii) o papel das tarifas está reduzido à proteção da “indústria nascente” e de forma temporária, e (iii) os regimes orientados para as exportações como os asiáticos estão na base da performance espetacular de países desde o Japão à China, em contraste com os regimes protecionistas da América Latina.
Seguidamente vamos rever os argumentos doutrinários do chamado Trumpismo que estão por trás da nova ordem internacional. Trump afirma que o atual regime tem levado à subsidiação pelos EUA da defesa dos países da sua orla, à abertura dos seus mercados para o escoamento de sobre-produção do Resto do Mundo (e, em particular da China), e à sobrevalorização do dólar. A grande preocupação de Trump é que as políticas das duas últimas décadas levaram à desindustrialização dos EUA e ao risco associados à segurança da falta de produção de produtos básicos (como ferro e aço, chips e antibióticos).
Num próximo texto iremos estudar as consequências de uma possível guerra comercial, iniciada com este nível de tarifas aplicadas. Desde já é de acentuar que o nível médio das tarifas aplicadas por Trump no dia 2 de abril é de 22 a 24%, o que significa uma subida de cerca de 10 vezes mais em relação ao nível médio pré-Trump. E que coloca este nível de proteção à taxa média registada em 1910! Mesmo acima do nível observado nos anos 1930 durante a guerra comercial desencadeada a seguir à Grande Depressão.
Teoria fundamental sobre as tarifas como política comercial, e os fundamentos do comércio livre
A teoria das tarifas ensinada nos manuais universitários prova que as tarifas impostas por Trump: (i) aumentam os preços para os consumidores americanos, (ii) fazem subir os lucros esperados pelos produtores americanos tanto do bem taxado como dos substitutos, e podem atrair IDE para os EUA, mas se os carros da Ford ou GM são produzidos no México ou Canadá também vão ser penalizados, (iii) fazem reduzir as exportações dos parceiros comerciais dos produtos afetados pelas tarifas, reduzindo a produção e emprego no país exportador, tanto mais quanto este não consegue reorientar a sua produção para outros mercados, (iv) aumentam as receitas aduaneiras do país no montante aproximado ao aumento das tarifas vezes as importações pós-tarifas, e (v) reduzem o bem-estar social ao aumentarem os custos para os consumidores e reorientarem os recursos para setores em que o país tem menos vantagens comparativas.
E, numa análise de equilíbrio geral, a teoria tradicional do comércio internacional diz que um pequeno país, categoria que abrange a esmagadora maioria de países, deve ter tarifas nulas. De facto, um país que não consegue influenciar o preço internacional do produto sujeito a tarifa, são sobretudo os consumidores desse país os mais afetados, e perde rendimento, emprego e bem-estar. Só se for um grande país que consegue melhorar as razões de troca a seu favor, ou seja, em que são os exportadores para esse país que baixam os preços do produto afetado, o país que impõe as tarifas pode beneficiar até certo ponto, e aumentar o seu rendimento. Mas isto só acontece até um certo nível de tarifas. E há uma hipótese fundamental: os outros países não retaliam.
Mas no mundo atual de cadeias de produção espalhadas por vários países e de níveis de globalização record, a análise anterior é muito simplista: o impacto sobre os preços dos produtos finais depende de onde a tarifa atua dentro da cadeia de produção. Suponhamos que o governo impõe uma tarifa sobre uma matéria-prima ou produto intermédio. A tarifa aumenta o preço deste, e consequentemente os custos de produção de todas as indústrias que utilizam aquela matéria-prima ou produto intermédio, reduzindo os seus lucros e fazendo subir os preços finais dos produtos finais. De facto, o que estamos a fazer é aumentar a proteção da indústria de produto intermédio e a desproteger as indústrias de todos os produtos finais, que em valor são muito mais elevados que o produto intermédio.
Mas foi isto que Trump fez, ao colocar tarifas de 25% sobre o alumínio e aço. A ideia é simplista: estes produtos são essenciais na produção de armamentos e nas outras indústrias. Mas, ao mesmo tempo estamos a provocar a desindustrialização, ao fazer subir os custos de todas as indústrias a jusante que utilizam alumínio e aço. Esta é a teoria da proteção efetiva (de Bela Balassa) dos anos 1960s, mas que pelos vistos é desconhecida pela equipe de Trump.
Deve a UE retaliar a um aumento das tarifas pelos EUA? Ao retaliar a UE está a reduzir os lucros das empresas exportadoras americanas. Mas a UE incorre os mesmos custos que a economia americana. Ou seja, os consumidores europeus irão pagar um preço mais elevado sobre os produtos importados, os produtores beneficiam e reduz-se o bem-estar da UE. No entanto, os dois efeitos conjugados levam a uma redução ainda maior do bem-estar mundial, à medida que as tarifas (e barreiras comerciais) aumentam e fazem cair o nível do comércio internacional.
Se a UE não retaliar o PIB mundial não cai tanto, e prevalecem os efeitos descritos atrás. Porém, o efeito das tarifas retaliatórias europeias sobre a economia americana infringe prejuízos sobre os exportadores americanos, que antes beneficiavam das tarifas americanas, cancelando os benefícios para os produtores. Assim, haverá maior pressão políticas da população americana (a que se soma a europeia) para haver uma redução das tarifas de ambos os países.
Neste jogo de tit-for-tat, onde termina o nível de proteção global e os prejuízos finais depende do poder económico relativo de cada um dos jogadores e até onde estão dispostos a ir. De entre os parceiros comerciais dos EUA, os pequenos países, ou para os quais é pequena a quota de exportações para os EUA, não têm capacidade de retaliação. E os que são atingidos por baixos níveis (10%, atualmente) de tarifas, têm menor incentivo em retaliar. O que é certo é que todos perdem numa guerra comercial.
Quais os fundamentos do comércio internacional livre? Os argumentos que fizemos sobre os efeitos das tarifas, são os mesmos que fundamentam o comércio livre, em termos inversos.
Outra forma intuitiva dos fundamentos do comércio livre começa por entender um fenómeno muito simples: o progresso da humanidade assentou em grande parte na troca livre de bens e serviços entre as pessoas, em que cada uma se especializa na produção em que tens vantagens relativas, e vende essa produção para comprar o resto dos bens e serviços que necessita. Aplicado a países, como o fez David Ricardo, vemos que na base do crescimento económico pós-II Guerra está a intensificação do comércio internacional e o fenómeno da globalização.
Em termos estáticos, o comércio livre maximiza o bem-estar mundial. E a nível nacional? Sim, para os pequenos países e para grandes países, exceto no produto em que tiver poder de monopólio. Também pressupõe que não existem externalidades ou falhas de mercado. Mas neste caso, existem melhores instrumentos de política económica para os resolver do que tarifas ou outros instrumentos de comércio internacional.
Porém, devemos sublinhar que estes argumentos são válidos se todos os países seguem as mesmas regras. E, se um grupo de países pratica entre si o comércio livre, como a União Europeia, e outros países ou grupos têm elevadas tarifas ou barreiras aduaneiras? Em geral, pode provar-se, que dentro da teoria do segundo ótimo, uma área de comércio livre contribui para melhorar o bem-estar mundial e nacional das áreas de comércio livre. Já os arranjos preferenciais de tarifas são em geral prejudiciais.
Já em termos dinâmicos, podemos aduzir argumentos tais como efeitos tecnológicos endógenos e custos afundados, “learning by doing” e externalidades positivas ligadas ao capital humano que podem ser aduzidas no caso de políticas comerciais estratégicas, como o caso da Airbus que foi criada em rivalidade com a Boeing, sobretudo ligadas ao crescimento económico. Mas estes argumentos devem ser colocados no seu contexto nacional e mundial, que não invalidam a superioridade geral do comércio livre.
Mais recentemente, os economistas políticos defendem que o comércio justo, fair trade, é superior ao comércio livre. Os argumentos são que os países podem estar a aproveitar violações do direito humano, ou a poluir, ou a competir com sistemas de proteção social muito inferiores, para exportar a preços mais baixos. Este argumento é totalmente válido, mas o que deve ser feito é pressionar estes países a corrigir estas políticas. Mas já quanto a salários mais baixos e sistemas de bem-estar de menor proteção, o argumento não é válido, pois estes países têm produtividade do trabalho mais baixas e os próprios países hoje desenvolvidos já tiveram sistemas menor proteção nas fases iniciais do seu desenvolvimento.
Um pouco de história económica das tarifas e protecionismo
O Trumpismo tem raízes profundas no mercantilismo. Esta doutrina económica dominou a política dos Estados nos séculos XVI a XIX, em que o poder económico era visto como um jogo de soma nula. Para um Estado aumentar o seu poder económico/militar deveria aumentar as entradas de ouro ou prata (riqueza), que utilizava como reservas e base monetária. Para tal, devia seguir duas políticas fundamentais: (i) aumentar as exportações através da industrialização e proteção aduaneira das suas indústrias; e (ii) reduzir as importações, por políticas de substituição de importações, e mais uma vez industrialização e proteção aduaneira. Para maximizar as entradas de capitais deveria combater os défices comerciais bilaterais com os seus parceiros. Outra justificação fundamental das tarifas é que estas eram a principal fonte de receitas do Estado, era fácil taxar as mercadorias nas fronteiras e portos, e não havia capacidade institucional para taxar o rendimento. Na sua versão mais moderna, alguns economistas americanos consideram a política económica chinesa como o “mercantilismo chinês”. É importante sublinhar que esta doutrina levou a várias guerras comerciais e militares.
Foram Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), com o nascimento da ciência económica, que primeiro demonstraram a importância do comércio livre, e apontaram os erros do protecionismo. Adam Smith sublinhou que é através da especialização e a troca que o progresso tecnológico e económico ocorrem (lembram-se do famoso exemplo dos alfinetes). David Ricardo descobriu a teoria das vantagens comparativas relativas entre as nações, mostrando que todos os países, com diferentes níveis de produtividade, podem beneficiar do comércio internacional.
O historiador económico Paul Bairock afirmou que “historicamente, o comércio livre é a exceção, e o protecionismo a regra”[2]. Friederich List, o economista que defendeu a proteção das industrias nascentes, criticou Adam Smith afirmando que ele queria proteger a Industria Britânica através do comércio livre para abrir os mercados externos e “reduzir a concorrência externa dos países menos desenvolvidos”.
Bairoch considerou os Estados Unidos como “a pátria-mãe e o bastião do proteccionismo moderno” desde o final do século XVIII e até ao período pós-II Guerra. Alexander Hamilton, o primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, era da opinião, expressa no seu famoso “Reporto on Manufactures”, que era impossível desenvolver uma economia industrializada sem protecionismo porque as tarifas eram necessárias para proteger as “indústrias nascentes” até que pudessem alcançar as economias de escala necessárias para competir no mercado internacional. A sua posição venceu contra Jefferson e Maddison, que advogavam o comércio livre e criticavam Hamilton por proteger o Norte mais industrializado.
A descolagem industrial dos Estados Unidos ocorreu sob políticas protecionistas de 1816 a 1848 e sob protecionismo moderado de 1846 a 1861. Mesmo assim o economista Douglas Irwin [3] contesta o papel atribuído ao protecionismo. Os EUA aumentaram a sua participação na produção global de 23% em 1870 para 36% em 1913. As elevadas tarifas do período tiveram um custo estimado em cerca de 0,5% do PIB em meados da década de 1870. Em alguns sectores, podem ter acelerado o desenvolvimento em alguns anos. Mas o crescimento americano durante o seu período protecionista teve mais a ver com os seus abundantes recursos naturais, a forte imigração de capital humano da Europa e as políticas liberais que apoiavam a iniciativa individual e o empreendedorismo.
Um dos Presidentes dos EUA mais admirado por Trump é William McKinley, que governou entre 1897 e 1901. Conduziu uma política de expansionismo territorial e travou a guerra contra a Espanha, que ganhou, tendo anexado as Filipinas, Porto Rico, Guam e o Hawaii. Enquanto Congressista Republicano, introduziu a chamada Tarifa McKinley em 1890, com fins de proteger as indústrias e trabalhadores da concorrência estrangeira, que acreditava que iria trazer prosperidade aos EUA. Esta medida subiu as tarifas médias de 38 para 50% do valor das importações. A lei eliminou as tarifas em certos produtos com a finalidade de pressionar os parceiros comerciais a baixarem os direitos aduaneiros nestes produtos, ameaçando repô-las no caso de não as eliminarem. Porém, Trump deveria avaliar melhor os resultados desta política. Provocou um forte aumento dos preços no consumidor, o que levou à derrota dos Republicanos na eleição de 1892. Outro efeito, embora em combinação com outros fatores, foi a disrupção do comércio internacional e a queda dos preços mundiais das matérias-primas, que conduziu à segunda maior depressão nos EUA de 1893.
Mas as implicações da subida e níveis elevados de tarifas não se ficam por aqui. A Grande Depressão de 1929, seguida do Smoot-Hawley Act de 1930 que impôs tarifas sobre os bens sujeitos a este imposto numa média de 50% foi seguida de fortes retaliações de outros países. Aliado a sucessivas desvalorizações também retaliatórias, provocou uma queda da quota dos EUA no comércio internacional de 16 para 11%, e uma queda do PIB de 29%, cuja recuperação foi mais prolongada devido a esta guerra comercial. Em 1934 aquele Ato foi repelido pelo Trade Agreements Act que permitiu ao Presidente negociar bilateralmente redução das tarifas, iniciando-se a recuperação do comércio internacional.
A posição da equipe de Trump sobre as tarifas e a política do Make America Great Again (MAGA)
Os dois economistas que delinearam o designado Trumpismo são o Chief Economic Adviser, Stephen Miron (veja-se A User´s Guide to Restructuring the Global Trading System, Hudson Bay Capital, nov 2024, disponível aqui) e o Treasury Secretary, Scott Bessent (veja-se o seu discurso no Economic Club de NY), para além de vários trabalhos da Heritage Foundation. Ambos os economistas trabalharam em hedge funds de Wall Street.
O Trumpismo parte da ideia de base de que a ordem económica, política e financeira atual, neoliberal, prejudica seriamente os EUA por três vias, porque os EUA : (i) subsidiam as despesas de defesa dos países do bloco “americano”, e em particular dos países da NATO, usando o seu poder militar para manter a paz e defender estes países; (ii) provêm um largo mercado que absorbe o excesso de produção de bens industriais do resto do Mundo; e (iii) ao prover a moeda de reserva (dólar), devido à inelasticidade da oferta e uma procura crescente, leva à sobreavaliação do dólar e à perda de competitividade da sua economia.
Estes fatores levam: (i) à desindustrialização dos EUA, com a consequente perda de empregos e “desertificação”, como é exemplo o Rust Belt; (ii) a baixa de salários das classes de trabalhadores menos qualificados; (iii) a perda da indústria para a China e outros países asiáticos leva ao enfraquecimento militar, por causa da incapacidade de produzir armamento; (iv) a perda da indústria farmacêutica leva às dificuldades em proteger o país de epidemias e manter a segurança sanitária; (v) à deterioração das infraestruturas, por causa do desvio das verbas para o escudo militar. E não existe nenhum mecanismo de compensação. No dizer de Trump, a riqueza dos EUA está a esvair-se e ser apropriada pelo Resto do Mundo, sem que os seus governantes tenham tido consciência disso.
E é aqui que entram as tarifas, como instrumento para criar os mecanismos de compensação. Primeiro, para proteção da sua indústria em relação à concorrência externa, na longa tradição da política americana. Segundo, para obrigar os outros países a baixarem as suas tarifas e barreiras aduaneiras às exportações americanas. E, terceiro, para levar a um “level playing field” na repartição dos custos da defesa e vários tipos de segurança.
A visão da equipe de Trump sobre as tarifas começa por considerar que a arma das tarifas deve ser usada para coadjuvar as outras políticas externas dos EUA. Por exemplo, no caso do México e Canadá destina-se a reforçar o controle das fronteiras, para travar a imigração ilegal e o comércio de drogas incluindo fantanyl. No caso da Russia já foi ameaçada com tarifas no petróleo se não aceder a um acordo de cessar-fogo com a Ukrania.
Mas dá relevo a alguns efeitos particulares das tarifas, que considera mais importantes, minimizando os restantes efeitos. O Trumpismo dá relevo ao (i) aumento de preços dos produtos com tarifas nos mercados dos EUA, faz aumentar os lucros e incentiva à maior produção e emprego[4] das empresas americanas protegidas e à substituição das importações por produtos domésticos (porventura mais baratos) pelos consumidores americanos; (iii) a criação de condições mais atrativas para o IDE; (iv) aumentar as receitas fiscais e permitir reduzir os impostos sobre os rendimentos das empresas e indivíduos.
Mas um argumento fundamental, defendido pelo Chief Economic Adviser Stephen Miran, é que o aumento dos preços para os consumidores devido às tarifas, pode ser em grande parte cancelado pela apreciação (valorização) do dólar face às moedas dos países afetados. Isso faz com que este país fique mais pobre e os EUA beneficiem do maior valor da sua riqueza. Segundo este economista o nível ótimo de tarifas deve ser cerca de 20%, em comparação com os atuais 1,5%.
Outro argumento é que a imposição de tarifas é apenas um instrumento, uma força de pressão, sobretudo quando o parceiro comercial tem uma balança comercial bastante a seu favor e negativa para os EUA, para obrigar o parceiro a negociar a baixa das suas tarifas e barreiras comerciais contra as exportações dos EUA. Que seria completado por acordos do tipo Mar-a-Lago, sobre taxas de câmbio, para evitar manipulação desta contra os EUA e outros fatores. Se for assim, a imposição da tarifa a nível mais elevado é apenas uma tática temporária.
Mas a forma como a equipe de Trump calculou as tarifas a 2 de abril, metade do rácio do défice comercial com os EUA não tem qualquer racional económico. Este é um dos aspetos mais bizarros desta política: excedentes e défices comerciais bilaterais refletem não só tarifas ou barreiras aduaneiras, mas também vantagens comparativas, políticas macro, etc. Ou seja, só uma visão mercantilista pode justificar esta aproximação.
O que interessa é o défice ou excedente globais de um país. A balança corrente reflete a diferença entre a poupança e investimento do país. A esta junta-se a balança de capitais, que reflete a procura e oferta de ativos financeiros e outros do país. Portanto, o défice multilateral ou global da lança corrente (que subsume a balança comercial, a única que que Trump toma em consideração), dos EUA com o Resto do Mundo reflete a política orçamental do governo federal e a política monetária do FED.
Aqui é que se coloca o famoso dilema de Triffin, de que a procura de dólares pelo Resto do Mundo obriga a que o saldo da balança de pagamentos global (corrente mais de capitais) seja negativa, para fornecer ao Resto do Mundo os dólares como moeda de reserva. Este é o “extraordinário previlégio”, como Giscard d’Estaing o batizava. Trump e os seus doutrinários reconhecem a sua importância (até querem castigar o país que abandone o dólar), mas reconhecem que provoca uma distorção.
Por um lado, como a procura de dólares para reserva (e hoje, a maioria destas reservas estão nos cofres da China, Países do Sudeste e Sul Asiáticos e Médio Oriente), é superior à oferta (inelástica) de dólares, porque o défice da balança dos EUA implica um aumento da Dívida Externa americana, leva a uma apreciação do dólar.
E a apreciação do dólar, mais as barreiras e tarifas de outros países baixam fortemente a competitividade da indústria americana, levando à desindustrialização. Corrigir esta apreciação é o ponto crucial do Trumpismo.
E, para corrigir a apreciação crónica do dólar, a equipe de Trump propõe, toando a ideia de vários economistas de Wall Street, de realizar acordos bilaterais para fixação de novas taxas de câmbio, chamados “Mar-a-Lago Agreements”.
Estes acordos obrigam o país a manter o dólar como moeda de reserva, e obrigariam o país a intervir nos mercados cambiais (à semelhança dos Acordos de Plaza da era de Regan com o Japão e a Europa) de forma a manter uma taxa de câmbio “competitiva” para os EUA.
Assim, no curto prazo, o dólar aprecia-se com a introdução de tarifas elevadas (proibitivas), mas no longo prazo, a diminuição das barreiras, (e a previsível desaceleração do crescimento dos EUA), cominado com os Acordos Mar-a-Lago fariam depreciar o dólar e assim favorecer a competitividade da economia americana. Por outro lado, e não menos importante, a negociação bilateral da baixa das tarifas levaria a um comprometimento por parte dos parceiros comerciais a baixo nível de tarifas e outras barreiras à entrada das exportações americanas, e a uma melhor partilha das despesas de defesa.
O aumento das receitas fiscais, via tarifas dos EUA, permitiriam uma redução dos impostos sobre o rendimento, reconstrução das infraestruturas e maiores despesas em I&D. E a re-industrialização permitiria melhorar o emprego e as condições das classes de trabalhadores “blue collar”.
Conclusões
A condução da política comercial de Trump, e em particular a sua sequenciação, são extremamente difíceis, e como os próprios arquitetos reconhecem de difícil execução. E os primeiros passos, com avanços e recuos sucessivos, turbulência dos mercados e aumento de incerteza, podem levar a uma crise financeira internacional.
O jogo tit-for-tat implícito na guerra comercial que está subjacente a esta estratégia é não só de difícil execução, como de consequências finais imprevisíveis. A teoria dos jogos e a experiência mostra que é preferível cooperar (se o a outra parte está disposta a cooperar). É, em particular, o problema a que estamos a assistir na subida de tarifas entre os EUA e a China. Aos níveis atuais a que se chegou, neste momento, em que os EUA estão a impor uma tarifa “proibitiva” de 125% sobre os produtos chineses e a China a responder com 84%, estamos numa situação do “fim do comércio entre a China e os EUA”, com consequências económicas gravíssimas para ambos os países.[5] Continuar a aumentar tarifas já não faz sentido, assim só temos duas vias possíveis: (i) negociar, ou (ii) recorrer a outras formas de força.[6] Esperemos, todos, que os “egos” envolvidos reconheçam o perigo da situação e passem à fase de negociação, como já aconteceu no primeiro mandato de Trump.
Não temos espaço para analisar os factos que suportam as políticas de Trump. Tem o plano de Trump fundamentos económicos que o suportam? Tem o plano coerência interna? E é o plano adequado para atingir os objetivos propostos? E se a execução desencadear uma guerra comercial? Esta é matéria para um próximo ensaio.
A política de Trump implica o fim do sistema internacional de comércio e a ordem financeira internacional como a conhecemos. Acabou-se o multilateralismo, e entramos na era do bilateralismo e de conflito entre nações (e a União Europeia). Mas existe uma grande restrição: a disciplina imposta pelo mercado e a reação dos principais apoiantes de Trump, a reação dos consumidores e o facto de Trump ter agora menos de 2 anos para mostrar que o seu plano está a trazer benefícios para todos estes grupos.
[1] A legislação que Trump tem usado são a Section 232 of the Trade Expansion Act of 1962 e o International Emergency Economic Powers Act of 1977 que autoriza o Presidente a declarer uma emergência e assim regular e proibir importações.
[2] “Trade Policy and Economic Development”. A Trading Nation: Canadian Trade Policy fromColonialism to Globalization
[3] Clashing over Commerce: A History of US TradePolicy, 2017
[4] Não é por acaso que um dos apoiantes mais entusiastas da política comercial de Trump é o presidente do sindicato dos trabalhadores do setor automóvel.
[5] É evidente que a China pode responder continuando a exportar “indiretamente” para os EUA via países terceiros. Poderá desviar mais exportações para outros mercados (por exemplo, EU). Mas os EUA também têm bastante a perder pois importam uma grande parte de produtos intermédios da China que são usados pela indústria americana, afetando os preços de retalho desde vestuário a produtos eletrónicos.
[6] É possível que a subida das taxas de juro de longo prazo nas obrigações dos EUA esteja relacionada com vendas massivas destes títulos por países como a China, o que é uma fonte importante de preocupação para Trump.