Pacientes zero

Face à discrepância entre o número de suspeitos (uma resma deles) e o número de casos confirmados (nenhum), o primeiro-ministro já veio serenar as massas e prometer entusiasmado que, “mais tarde ou mais cedo”, Portugal terá o seu primeiro paciente com o coronavírus. Falar é fácil. E, para o dr. Costa, mentir é facílimo. Certo é que o tempo passa e até agora nada. No momento em que escrevo, cinco dezenas de países exibem vítimas da doença e nós continuamos sem uma para contar a história aos repórteres televisivos exaustos de entrevistar a mulher do mecânico à porta de casa. Em matéria de coronavírus, estamos como na economia: na cauda da Europa e nos fundilhos do mundo. O país é tão pelintra que nem os micro-organismos querem nada connosco. O bicharoco é igual aos terroristas islâmicos: se se apanhar por cá, no dia seguinte atravessa a fronteira para causar baixas em lugares civilizados. Etc. (Aceitam-se sugestões de novas graçolas alusivas à situação).

O costume dos suspeitos

A propósito, de que modo se determina que um indivíduo é suspeito de sofrer do coronavírus? Dito de outra maneira, o que distingue os suspeitos do coronavírus dos suspeitos da gripe comum? Dito ainda de uma terceira forma, se amanhã for ao médico por causa de um resfriado, quais as probabilidades de que me receitarem Ilvico em vez de me submeterem a 35 horas de exames? O que decide, o tipo de espirro? As férias recentes em Hubei, China? O palpite dos clínicos? A cara do “utente”? Uma lista secreta de quotas para suspeitos a preencher por cada hospital ou centro de saúde? E porque é que, mudando um bocadinho de assunto, a quantidade de suspeitos sem doença cresce diariamente? O INEM recebeu ordens para caçar transeuntes com pingo no nariz? Por fim, quem nos garante que os suspeitos da gripe comum não padecem realmente do coronavírus? E que os suspeitos não confirmados podem ficar aliviados com a eficácia das análises? Convinha que as autoridades nos esclarecessem, logo que alguém esclarecesse as autoridades.

Os nossos homens em Toyoake  

Do governo às entidades da saúde, dos jornalistas aos moços que cuidam dos “alertas CM”, o país está mortinho, salvo seja, por encontrar o primeiro português infectado com o coronavírus. Por sorte, há dois. Por azar, tiveram a desconsideração de o “contrair” (sic) para os lados do Japão, que não fica à mão de redacções televisivas sitas em Carnaxide, ou Almoxarife ou Alcabideche ou lá o que é. E além das dificuldades logísticas, há as exigências simbólicas: o herói que Portugal procura não pode ser um estrangeirado. É urgente que, no meio de tantos suspeitos, se arranje depressa um Zé Carlos Santos, residente num subúrbio e possuidor de uma família disposta a entreter os repórteres. Não duvido de que estaremos entre os melhores do mundo em matéria de pacientes. Com ou sem vírus, paciência é o que não nos falta.

Walking (não exactamente) dead

À semelhança do sr. Canas, que através de jantaradas com o “eng.” Sócrates se prepara há 40 anos para ser juiz do Tribunal Constitucional, é possível que a dra. Temido se tenha preparado durante 45 anos para ser ministra da Saúde. Eu preparo-me há 50 para ser governado por anedotas ambulantes. Mas ainda não estou pronto. Sobre as pessoas que viajaram por zonas afectadas, a dra. Temido afirmou: “Quem provenha destas regiões onde há transmissão do vírus deve ter cuidados especiais, designadamente mantendo-se isolado (…)”. Ou seja, quem passeou por Roma ou Seul deve, mal aterre por cá, fugir dos familiares à espera no aeroporto e correr para locais ermos, por exemplo o topo de colinas, shoppings falidos ou as instalações da Qimonda, onde ficará a vaguear, género zombie, por tempo indeterminado. A alternativa seria testar os passageiros que chegam da China e tal, mas tamanha irresponsabilidade custaria um dinheirão, aliás necessário para “injectar” no Novo Banco e em alguns velhos. Entretanto, fomos informados de que as declarações da dra. Temido constituíram um lapso. Não era preciso: toda a gente sabe que a própria existência da dra. Temido é um lapso.

Beijem-me, idiotas

É preciso notar que nem todas as autoridades produzem disparates imediatamente desmentidos. Algumas dizem asneiras que ninguém desmente. A directora-geral de saúde avisa: “Não nos devemos beijar todo o dia e a toda a hora”. Eu fique ceguinho se já me ocorreu beijar, uma vez que fosse, a dra. Graça Freitas.

A Oeste tudo de velho

Por falar em beijinhos, resta o prof. Marcelo. Na noite de 17 de Junho de 2017, o prof. Marcelo chegou a Pedrógão Grande e declarou: “O que se fez foi o máximo que se poderia ter feito”. No dia 25 de Fevereiro de 2020, o prof. Marcelo afirmou: “Tudo está a ser feito para lidar com o coronavírus”. É nestas alturas que invejo os que sabem rezar. Se soubesse, rezaria para que o bicho mantenha o desprezo por um lugarejo cujos líderes são criminalmente irresponsáveis, cujas autoridades não têm autoridade nenhuma, cujos hospitais assistem à morte de infelizes em salas de espera e cujo povo sente orgulho de semelhante circo, e confia no circo para o proteger. Para a portugalidade é que não há cura.