[Nota Importante: A presente crónica foi escrita antes de conhecida a resposta do governo grego à recente proposta da Comissão. Será a minha fé justificada?]

Tudo começou a desabar num quente domingo de verão. Era o dia 5 de Julho e o povo grego – os helénicos descendentes dos clássicos, o berço da democracia, a terra ocupada pelos otomanos turcos entre 1453 e 1821 – decidia o seu futuro na Europa.

O governo do país, liderado por um partido chamado Syriza, uma mescla de pequenos partidos situados ideologicamente no canto à esquerda do espectro politico do país (coligado com um partido de direita nacionalista), perguntou aos gregos: “Deve o plano do acordo (…)”, que consta dos documentos “Reformas para a Conclusão do Programa Atual e Além” e “Análise Preliminar de Sustentabilidade da Dívida” proposto pelas instituições “ (…) ser aceite?”.

Ninguém fazia muito bem ideia do conteúdo desses documentos. Acredita-se que alguns gregos os tenham lido (tiveram 8 longos dias para o fazer). Os que o não fizeram talvez guardassem em mente as palavras do primeiro-ministro Tsipras: “Gregos, em resposta à chantagem para que aceitemos um programa de austeridade austero (?) e humilhante, sem fim à vista e sem perspectivas de nos reerguermos, peço-vos que decidam patrioticamente e com orgulho de acordo com os ditames da orgulhosa história dos gregos”.  

E esse governo pediu ao povo que votasse Não. A Aurora Dourada pediu ao povo que votasse Não. Eurocépticos do Mundo inteiro, rejubilantes, pediram ao povo que votasse Não. O senhor Krugman, prémio Nobel, pediu ao povo que votasse Não. E o povo, naturalmente, votou contra a austera austeridade, votou com orgulho na orgulhosa história dos gregos: votou Não.

À Europa, cujos principais líderes tinham apelado sem sucesso ao Sim no referendo, deparou-se uma situação inédita: um Estado-membro falido recusava ajuda, cessava o pagamento das dívidas e recusava as regras e obrigações decorrentes da sua condição de membro da União Europeia e da zona euro. Ora como a Grécia não podia ser expulsa, nem do euro – não o permitindo os Tratados, como proclamara o flamejante ministro Varoufakis – nem da União, foi preciso uma vez mais “torcer” a lei europeia. A Grécia abandonou o euro por acordo intergovernamental, numa espécie de saída controlada, e manteve-se na União.

Sem acesso ao mercado de crédito, mais tutelada do que nunca, com controlo de capitais e dependência dos parceiros, o país aplicou a fórmula da desvalorização cambial: chusmas de turistas acorreram às ilhas gregas – e o PIB diminuiu 30%, a somar aos 25 dos anos anteriores. A economia estagnou durante 10 anos, altura em que voltou a crescer com modéstia. O PIB per capita dos gregos era então menos de metade da média da restante União Europeia. Nenhum dos males do país, da corrupção ao descontrolo fiscal, pôde ser erradicado.

Com a saída da Grécia, os mercados aperceberam-se que a zona euro não era inexpugnável: países com economias estagnadas e escassa competitividade, fortemente endividados, membros de uma união monetária não apenas incompleta mas sobretudo precária, constituíam presas fáceis – que as instituições comuns não podiam proteger, nem que fosse de si mesmos. A confiança laboriosamente construída nos anos anteriores, esfumou-se.

A Grécia indicara o caminho: tal como em 1993, tal como em 2010, tal como tantas vezes no passado, sucederam-se os ataques especulativos aos países mais fracos. Portugal, esgotadas em poucos meses as reservas, com as taxas de juro da dívida a subirem centenas de pontos base, depressa foi forçado a descobrir o seu caminho para Ítaca. Um a um, os países do Sul abandonaram a eurolândia. Até ao dia em que, sem aviso, o chanceler sucessor da “odiada” Merkel anunciou o regresso ao marco, e quem quisesse que o seguisse; seguiram-no alguns, diga-se de passagem.  O euro findou, abruptamente.

Sem estabilidade monetária e cambial, o mercado interno tornou-se uma ficção; como nos anos 70, estagnou, retrocedeu, encheu-se de barreiras e limitações. Os egoísmos nacionais recrudesceram. As fronteiras voltaram a ficar a cargo de cada país, com o fim efectivo da chamada zona Schengen. Os imigrantes ilegais franqueavam em números imponentes as fronteiras nacionais entregues às limitadas capacidades nacionais, fazendo crescer a pressão social, a xenofobia, o medo do Outro. Os fundos europeus mirraram, a solidariedade de facto cessou, as desigualdades cresceram exponencialmente. O que era um mercado interno, voltou a ser um mercado comum, e depois uma união aduaneira, e no fim nem isso – uma mera zona de comércio livre, velha aspiração dos inimigos da integração europeia.

A morte da União Europeia sobreveio lentamente, aos poucos, num lento estertor.

Post-scriptum:

Este texto é uma ficção; pelo menos, até ao princípio da próxima semana. Como tenho repetido ad nauseam, e vou continuar a fazê-lo, acredito ainda, acreditarei até ao fim (por fé?) que a eurozona será capaz de encontrar uma solução para aquilo que, seja qual for o futuro, faz da Grécia o novo “homem doente da Europa”. O que está em causa é muito mais do que a Grécia e a sua economia, os gregos e o seu modo de vida, os portugueses e os seus sacrifícios, os alemães e a sua ortodoxia, os líderes europeus e os seus umbigos.

O que está em causa é o futuro de um continente que já foi centro do Mundo e ainda é uma das mais prósperas regiões do planeta. O futuro de um continente que perde população, sofre de uma crescente perda de competitividade face a economias jovens e dinâmicas, é ameaçado por flagrantes desequilíbrios entre as suas regiões – ainda designadas países – e está rodeado de ameaças mortais, a leste como a sul. A verdade até, pretendem alguns, é que a Europa vive uma situação de guerra não convencional, declarada por inimigos como o Estado islâmico.

Divididos, confrontados com a sua própria irrelevância, sem euro e portanto sem mercado interno e portanto sem União Europeia, cada vez mais desiguais entre si e em si mesmos, cada vez mais envelhecidos, cada vez mais tomados por dentro pelos seus inimigos, os países do velho e notável continente a que chamámos Europa entrariam lenta e inexoravelmente num inevitável declínio. É isso que não vêem, é isso que não entendem, é isso que persistem em negar todos aqueles que alegremente advogam o fim do euro. Que isso nos chegue de paragens distantes, de prémios Nobel de outras geografias, até de militantes atávicos do nacionalismo e do proteccionismo, não nos deve espantar: mais estranho é que seja defendido por todos aqueles – por todos nós – que tanto têm a perder com a, infelizmente já não tão inverosímil, implosão do projecto europeu.

Epílogo: 

A Europa jaz, posta nos cotovelos. 

Jaz, olhos gregos lembrando; lembram o extraordinário projeto de união monetária dos povos do continente. 

De oriente a ocidente jaz, fitando; e o que fita e vê são restos, ruínas devastadas de uma visão de um futuro conjunto, próspero e em paz. Em paz.