Em Maio, o Banco Central de Moçambique (com o apoio da FSD Moç) anunciou o lançamento da sua sandbox regulatória para fintechs. Juntou todos os reguladores nacionais, governo, bancos, seguradoras e startups. Convidou especialistas para apadrinharem a iniciativa, incluindo o professor Njuguna S. Ndung’u, antigo presidente do Banco Central do Quénia no período em que o M-pesa foi aprovado. Assim deu arranque a um processo que visa dotar o país dos ingredientes para se posicionar como um hub de referência para o desenvolvimento fintech, vocacionado ao mercado da África Subsariana.

Qual será o sucesso da iniciativa? Só saberemos com o decorrer do programa mas não se pode deixar de ressalvar alguns pontos que poderiam ser aproveitados em Portugal como princípios orientadores para resolver desafios de um sector financeiro europeu em constante mutação e crescentemente concorrencial. Mais do que comparar as duas geografias, procuro trazer duas ideias que podem ser contributos para resolver dilemas que o sector atravessa.

1. Abrir a porta: criar, aprender e melhorar. Só depois sedimentar

O objetivo por detrás de sandbox (caixa de areia) é o de construir rapidamente a base do produto a inovar para testar, avaliar o comportamento e a reação do mercado em ambiente controlado. Com esta informação é possível iterar e só depois passar para tijolo (produção), onde é mais difícil ter essa flexibilidade. Este ciclo tem ganho adesão junto dos reguladores do sector financeiro. Estas entidades vêem nesta metodologia inúmeras vantagens para melhorar a fase de sedimentação da construção com a criação de regulação, que desta forma já viu a inovação a funcionar em ambiente real.

O programa do Banco Central de Moçambique já conta com cinco startups e foi capaz de atrair não só empreendedores nacionais mas também de países como a África do Sul e Portugal. Desta forma, procuram não só guiar as startups no processo de licenciamento, mas também aprender como lidar com áreas ainda não reguladas.

Qual seria o impacto de uma figura similar em Portugal? Acredito que bastante elevado, além de ganhar especial importância com o surgimento de iniciativas semelhantes noutros países da Zona Euro, os nossos mais diretos concorrentes. Questiono-me se existindo uma sandbox, poderiam ter sido mitigadas várias críticas feitas à atuação do governo no regulamento do financiamento colaborativo (crowdfunding).

2. Inovar a colaborar, para poder existir

Em Moçambique, a inovação tem ganho um peso enorme para o sector financeiro poder existir. Como se sabe, o continente tem ainda enormes desafios de inclusão financeira. A massificação de tecnologias está a tornar economicamente eficiente o acesso a serviços básicos como transferências, depósitos e acesso a activos financeiros. Um dos maiores casos de estudo deste movimento é o M-pesa, nascido no Quénia em 2007, que permite pagar serviços ou transferir dinheiro para zonas rurais sem ter conta bancária, apenas através da utilização de um telemóvel (mesmo não sendo smartphone). Este produto fintech foi trazido para o mercado por um operador de telecomunicações e é hoje um serviço que muitos bancos integram.

Terão o mesmo sucesso as empresas que estão a participar na sandbox moçambicana? Como o Mukuru e a Zoona que, de forma fácil, barata e segura, permitem aos moçambicanos residentes na África do Sul transferir dinheiro para a família não bancarizada. Ou o Paytek que agrega os meios de pagamento locais num só e já está a montar um piloto dentro de uma Universidade. Ou a Ekutiva e o Robobo que, dadas as restrições de movimentação de capitais, estão a criar sistemas similares ao PayPal na moeda local (metical).

Em Portugal o desafio do sector financeiro, mais do que existir, é subsistir. Olhando para o panorama europeu e a reduzida dimensão do mercado nacional, sem uma postura aberta de cooperação com fintechs, não me admirava se no médio prazo não existissem bancos portugueses.

  • Pressão regulatória: existe um tsunami de regulação com que os bancos europeus estão a lidar. Isto fez engordar equipas de compliance e auditoria. Tudo áreas não geradoras de receitas.
    Pressão do cliente: o cliente está habituado a uma experiência de utilização ao nível do que a Google ou a Netflix produzem, o que obriga a maiores e melhores equipas de produto.
    Pressão concorrencial: com a figura do passaporte europeu, será cada vez mais fácil players internacionais procurarem clientes portugueses pela via digital — o que não só vai aumentar a frequência de casos de arbitragem regulatória como os vividos com a abertura de conta digital do Number26 mas também irá abrir o mercado a produtos diferenciadores como o Revolut.

Haverá solução? Uma possível é a de cooperação com fintechs que já tenham produtos para resolver os desafios acima enunciados. Algum banco ou consultora acredita que desenvolveu um software de deteção de fraude melhor do que a Feedzai, um score de crédito apoiado em Inteligência Artificial melhor que a James ou um sistema de onboarding e gestão da identidade digital melhor do que a Loqr? Mesmo que o tenha feito, a manutenção será menos cuidada pois têm muitos desafios pela frente e não podem ter o foco total no problema, ao contrário destas fintechs. Estes fatores fazem-me questionar se o retorno de investir num projeto com uma startup não será superior aos desenvolvimentos internos e em R&D?

Devo rematar observando que tanto Moçambique como Portugal estão a dar passos muito interessantes que, sendo díspares, podem usufruir de princípios comuns. Felizmente os reguladores e incumbentes estão cada vez mais próximos destes inovadores externos, e por isso a inclusão financeira em Moçambique e o afirmar da diferenciação portuguesa no contexto europeu são cada vez mais uma realidade, apesar do longo caminho ainda por percorrer.

João Freire de Andrade é ‘head of venture capital’ na BiG Start Ventures. Fundador e presidente do BET e da Portugal Fintech, completou o curso de Fintech do MIT. Licenciou-se em Economia pela Nova SBE e tem um mestrado em Management and Finance da Católica LSBE, onde lecionou a primeira cadeira de Fintech num mestrado de Finanças em Portugal.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes. Irão partilhar a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers.