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Fintechs, Insurtechs e Regtechs: os catalisadores da transformação digital financeira /premium

Autor
  • João Freire de Andrade

Porque é que energia de ativação não foi ainda suficiente? Falta de foco? Orçamento? Atritos na decisão e navegação das políticas da organização? Sistemas informáticos desatualizados? Compliance?

Um catalisador aumenta a velocidade de uma reação química sem ser consumido pela mesma, oferecendo um caminho mais rápido para o mesmo destino. Processos que beneficiam a nossa vida quase quotidianamente, como fazer pão, ocorrem em minutos e não anos porque o processo usufrui do trabalho catalisador das enzimas presentes nas leveduras. Estas moléculas permitem que a energia de activação seja mais baixa para a mesma transformação ocorrer. Quanto tempo demorará o setor financeiro a usar as startups de Fintech, Insurtech e Regtech como catalisador da sua transformação digital? Desta forma, o sonho de ter uma interação verdadeiramente digital com o sector financeiro poderia, efetivamente, passar a ser “o pão nosso de cada dia”.

É inegável que os incumbentes já começaram este processo, mas ainda sem resultados práticos massificados. Porque é que energia de ativação não foi ainda suficiente? Falta de foco? Orçamento? Atritos na decisão e navegação das políticas internas da organização? Sistemas informáticos desatualizados? Compliance? Quase parece uma equação impossível de ser resolvida, mas poderão estes catalisadores oferecer parte da resposta?

Acredito que o setor será muito diferente no curto-médio prazo. O impacto do Fintech a nível global já não é marginal. Desde 2017 que as apps financeiras mais descarregadas nos Estados Unidos da América são de Fintechs. Em apenas quatro anos de existência, Yu’e Bao (o fundo que nasceu para rentabilizar o dinheiro sem utilização na wallet do Alibaba) atingiu mais de 165 mil milhões de dólares americanos, superando os maiores nomes do sector como a J.P. Morgan ou a Vanguard. Em Portugal, o Revolut já tem mais clientes que a maioria dos pequenos bancos. O receio do que poderá vir já está instalado nos incumbentes. Há poucos meses a Google adquiriu a licença de e-money e começou a comprar fintechs a operar na Europa. Significará isto a extinção dos bancos e seguradoras? Apostaria mais numa metamorfose que será tão mais rápida e economicamente viável quanto mais se usarem startups como catalisadores. Há exemplos nacionais e internacionais inspiradores e ao alcance de qualquer incumbente.

Fintech: A nível europeu a Raisin, criou um marketplace de depósitos a prazo que permite aos aforradores terem acesso a taxas superiores de bancos de outros países da Europa. Por outro lado, os bancos captam assim ativos noutros mercados em que há mais capital disponível, sempre com o fundo de garantia de depósitos.

Em Portugal a Bankonnect já permite a bancos nacionais agregar as contas de todos os bancos do seu cliente mesmo antes da efetivação do PSD2 (2ª Directiva dos Serviços de Pagamentos, que vai obrigar os bancos a abrir a sua infraestrutura através de API’s).

Insurtech: A BIMA usa o telemóvel para distribuir seguros de saúde com preços adequados a 24 milhões de clientes, nas economias em desenvolvimento. Desta forma a Allianz consegue servir a base da pirâmide com um seguro rentável e sustentável.

Em Portugal a Drivit já permite às seguradoras oferecer um preço justo para cada condutor, baseado na qualidade da sua condução. Além disso têm essa capacidade para frotas e carros eléctricos, relacionando a localização com ofertas específicas orientadas a uma experiência de utilização próxima das necessidades diárias dos clientes. Desta forma as seguradoras são mais eficientes, melhoram os seus rácios e ganham relevância no ecossistema automóvel.

Regtech: A APIAX, uma empresa Suíça, criou uma ferramenta que parece ser a melhor amiga dos departamentos de compliance. Atualmente já trabalha com grandes bancos globais e tem como principal caso de uso a transformação das complexas regulações financeiras em regras objetivas de compliance, fáceis de usar  em formato digital por quem as tem que seguir.

Em Portugal a LOQR já permite aberturas de conta em formato digital, de forma simultaneamente compliant e fluída a vários bancos nacionais e internacionais. Parece uma tarefa simples mas, até meados de 2017, era irregular e esta startup entrega, em estilo “chave na mão”, inúmeros atalhos aos complexos processos internos de compliance e sistemas de informação dos bancos. Desta forma, as equipas de marketing atingem o seu objectivo: baixar barreiras de entrada e melhorar a experiência do cliente.

Os incumbentes gozam ainda de várias vantagens, tais como o enorme número de clientes com a natural inércia em mudar de banco ou seguradora. Têm também muita experiência regulatória e de compliance. Não faria sentido aproveitarem a agilidade e qualidade tecnológica das startups para equiparem os seus clientes com as melhores ofertas?

O forno está quente e só não temos mais (e melhor) pão se não quisermos. O sector financeiro português vai continuar anos à espera de resultados ou passar a usar catalisadores?

João Freire de Andrade é ‘Head of Venture Capital’ na BiG Start Ventures. Fundador e Presidente da Portugal Fintech, completou o curso de Fintech do MIT. Licenciou-se em Economia pela Nova SBE e tem um mestrado em Management and Finance da Católica Lisbon SBE, onde criou e leciona a primeira cadeira de Fintech num mestrado de Finanças em Portugal.

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