À hora a que escrevo este texto, já são conhecidos todos os resultados das eleições de Domingo, assim como respectivas análises, de modo que não faz qualquer sentido começar com “à hora a que escrevo este texto”. A não ser, claro, que o “à hora a que escrevo este texto” não seja relativo às eleições, mas sim ao pós-eleições, que antecipo explosivo. É que, quase 48h depois do fecho das urnas, ainda não há notícias sobre as consequências que teve a não eleição de António Baptista Dias como vereador do PS em Setúbal. Era o 5º .da lista e o PS só elegeu 4. E que consequências pode haver: António Baptista Dias é um antigo membro das FP25, condenado a vários anos de prisão terrorismo. Sim, o número 5 do PS de Setúbal já tinha sido o número 327 do EP do Linhó.  Da última vez que ficou insatisfeito com os resultados da democracia, António Baptista Dias correu tudo à bomba. Sabe-se lá o que poderá fazer agora. À hora a que escrevo este texto, ainda não rebentou nada em Setúbal.

Se bem que isso não nos deva deixar propriamente descansados. António Baptista Dias tem a virtude da paciência e sabe esperar pela oportunidade de vingança. As eleições para a Constituinte foram em 1975, as primeiras legislativas em 1976, mas António Baptista Dias e camaradas ainda andavam aos tiros em 1987, muito arreliados com a democracia. É demasiado tempo para guardar ressentimento. Pelo sim, pelo não, se trabalhasse na Câmara Municipal de Setúbal, começava a ter cuidado a abrir embalagens.

Porém, acho que os setubalenses não tinham perdido nada em eleger António Baptista Dias. Que mal é que ele podia fazer na vereação? Até porque era muito pouco provável que levasse o mandato até ao fim. Da última vez que foi colocado numa instituição do Estado, Baptista Dias só cumpriu 4 dos 18 anos para que tinha sido eleito.

Percebo os protestos de quem acha que talvez não seja muito avisado trazer um terrorista para uma Câmara Municipal. Por outro lado, trata-se de Setúbal, que tem um grave problema de bairros degradados. Alguém com experiência em explosivos podia dar um impulso às demolições que têm de ser feitas antes de se construir habitação com qualidade.

É admirável que o PS tenha patrocinado a reabilitação de António Baptista Dias, ao ponto de ter apostado nele para vereador da Educação. O que faz todo o sentido, uma vez que Baptista Dias era conhecido na sua quadrilha como “O Professor”. Foi pena o PS não ter descoberto também o colega terrorista que tinha a alcunha “O Piloto”. Podia tê-lo candidatado com a pasta da Mobilidade e Transportes.

Mais do que perceber porque é que António Baptista Dias é o 5.º na lista de candidatos do PS, gostava muito de descobrir porque é que Tiago Venâncio (atleta olímpico e professor universitário) é o 6.º, Ana Sobrinho (terapeuta) é a 7.ª e Sandro Mendes (ex-futebolista, actual treinador) é o 8.º e Raul Melo (médico) é o 9.º. O que é que não os recomenda? Que características terão estas pessoas, aparentemente bons exemplos cívicos, para que, na altura de fazer as listas, tenha havido alguém no PS a dizer: “O Tiago Venâncio? Nem pensar! Se é para isso, põe o bombista!”