Gostamos que nos mintam. Não por ingenuidade, mas por conveniência. A mentira funciona como um anestésico curto: reduz o desconforto, confirma preconceitos, protege identidades. A verdade faz o contrário. Expõe erros, cria fricção, obriga a escolhas difíceis.
Quando a mentira é descoberta, a reacção é de revolta. Mas antes disso há conforto. Há validação. Há pertença. Esse intervalo explica muito do nosso comportamento colectivo.
Nas últimas eleições legislativas portuguesas, circularam milhões de visualizações de conteúdos comprovadamente falsos nas redes sociais. Estudos independentes de monitorização digital apontaram para mais de oito milhões de visualizações, com clara predominância de conteúdos associados ao Chega, acima dos 80%. O dado relevante não é apenas a escala. É o resultado político: o crescimento eleitoral manteve-se. A exposição à falsidade não penalizou. Em muitos casos, reforçou convicções prévias.
O algoritmo não cria esta tendência. Mede-a. Conteúdos falsos simples, emocionais e de confirmação geram mais partilhas, mais comentários e maior tempo de permanência. As plataformas sociais já admitiram, em documentos internos tornados públicos, que a desinformação tende a ter melhor desempenho do que conteúdos verificados. O sistema aprende com o que fazemos. E nós recompensamos a mentira.
Na política externa, o padrão repete-se. O presidente dos Estados Unidos mente em média 7 vezes diariamente nas redes sociais, numeros contabilizados por organizações de fact-checking. Ainda assim, quando diz verdades duras — sobre imigração, indústria ou alianças internacionais — essas declarações são rejeitadas não por serem falsas, mas por serem politicamente incómodas. Muitos preferem a falsidade previsível à franqueza desconfortável.
A mentira tornou-se uma táctica política aceite. Não marginal. Central. Não como erro, mas como método. Funciona porque reduz complexidade e transforma a realidade numa narrativa moral simples: nós contra eles.
O desporto oferece um exemplo mais próximo e mais honesto. O vídeo-árbitro continua a gerar resistência. Não apenas pelos erros técnicos, que existem, mas porque revela injustiças que antes podiam ser ignoradas. O adepto aceita melhor uma vitória construída sobre um erro não visto do que uma derrota justa confirmada em vídeo. A verdade atrapalha a celebração.
Vivemos num tempo com mais mecanismos de verificação do que nunca: fact-checkers, dados, registos públicos, tecnologia. Ainda assim, escolhemos o limbo. Preferimos a ocultação confortável à clareza dolorosa. Não é falta de informação. É recusa de confronto.
A verdade dói porque exige responsabilidade. A mentira protege porque suspende o juízo. Enquanto for assim, continuaremos a indignar-nos com a desonestidade apenas depois de ela deixar de nos ser útil.