O namoro entre o Chega e o Cristianismo, que nem começou por acaso nem precisa de terminar para já, basta que alguém, com uma certa elegância, lhes diga que estão a ouvir músicas diferentes. A Igreja toca Bach, o Chega insiste em batidas de estádio. Não é que sejam incompatíveis, mas quando Bach tenta dançar ao ritmo de bateria política, normalmente parte-se qualquer coisa: se não for a harmonia, é o bom senso. E, para quem acredita que a fé é música para a alma, ver esta desafinação dói.
O que mais me espanta e, deveria espantar qualquer crente com catecismo suficiente para saber distinguir água benta de água tónica, não é o Chega tentar imitar o tom grave da Igreja. É ver tantos católicos, gente de fé sincera, acreditarem que os decibéis de indignação equivalem à clareza moral. Confundem firmeza com fúria, justiça com castigo, verdade com volume. Há católicos sinceros no Chega, sem dúvida, a questão não é a sua fé, mas a coerência do discurso público do partido com o Evangelho. E é por isso que este namoro mal afinado merece, ao menos, um par de notas de rodapé. Não para terminar o enlace, porque isso não me cabe a mim, mas para garantir que ninguém agride a música.
Comecemos por aquele velho vício político que a Igreja nunca acolheu bem: transformar o estrangeiro num problema doméstico. S. Paulo nunca exigiu exames de integração cultural às comunidades gentias, e o Evangelho é explícito: “Eu era estrangeiro e acolhestes-me” (Mt 25,35), é claro como água e, não, não há tradução bíblica em que “acolhestes-me” signifique “recolocastes-me num país terceiro”. O Catecismo da Igreja Católica também é claro: “As nações mais abastadas devem acolher, tanto quanto possível, o estrangeiro que procura melhores condições de vida.” (Catecismo, 2241). Contrastando com isso, o Chega adota por vezes uma narrativa de “invasão” destas comunidades que vêm em busca de melhores condições de vida. Onde a Igreja diz “acolhe”, o Chega responde “afasta”. Onde o Evangelho diz “vê o teu irmão”, o programa diz “vê o teu risco”. É difícil encontrar versículos que sustentem isto a não ser que se use a Bíblia como quem usa um extintor: só em caso de emergência retórica.
Não é que a Igreja seja ingénua. O Compêndio da Doutrina Social fala em políticas migratórias ordenadas e prudentes. “Prudentes”, não “punitivas”. Mas prudência é palavra que não costuma sobreviver bem à acústica dos comícios: ecoa demasiado pouco.
O segundo desencontro amoroso está no estilo. O Papa Francisco insiste na Fratelli Tutti que “a unidade é superior ao conflito” e que “a agressão verbal destrói a convivência”. Imagino os estrategas do Chega a ler esta frase e a sublinhar “agressão verbal” como se fosse um elogio. Na política da adrenalina, a caridade parece sempre tibieza. Só que para um católico, agressividade não é programa; é tentação. A Igreja ensina que a pessoa humana tem dignidade inviolável, não por utilidade política, mas por ser “imagem de Deus” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n.º 164). No entanto, o discurso público de algumas figuras do Chega frequentemente rebaixa adversários a rótulos insultuosos “escumalha”, “vergonha nacional”, adotando uma retórica que flerta com a humilhação. Esse estilo contraria diretamente a noção cristã de “política como forma eminente de caridade”.
Não se trata de distribuir esmolas mas sim de ser “a voz dos que não têm voz”, sem transformar a indignação em espetáculo. E a Igreja, que ainda acredita no incómodo, mas necessário mandamento de amar o inimigo, fica sempre mal na fotografia quando aparece ao lado de quem precisa do inimigo para existir.
A Igreja vive na reconciliação, o Chega insiste no combate. Um lado ouve “Bem aventurados os mansos porque herdarão a terra”, o outro parece ouvir “Bem aventurados os que insultam, porque deles será o prime time”. As coreografias são tão diferentes que só com uma dose generosa de boa vontade, ou uma enorme surdez espiritual, se imagina uma fusão. E, quando a música já soa estranha, entra o passo mais arriscado: a instrumentalização da fé.
A Gaudium et Spes é clara: a Igreja não se confunde com a política e rejeita a utilização da fé para fins terrenos. E, no entanto, há quem trate a religião como marketing eleitoral, transformando o Evangelho num slogan pronto a usar. O Compêndio lembra que a doutrina social serve “o bem comum”, não comícios nem campanhas. Quando o Chega invoca “valores cristãos”, não estará apenas a instrumentalizar a fé? Publicar orações nas redes sociais como se fossem adereços de campanha só demonstra que, no fim, quem perde não é a política: é o Evangelho.
Escrevo isto como católico que tenta, com as falhas de sempre, viver aquilo que reza. Alguém que ainda acredita que a fé nos pede gestos de paz, mesmo quando o ambiente parece feito para o barulho e para as trincheiras. Que onde há ódio vale a pena tentar levar amor, não suspeitas, e onde há trevas, alguma luz, não mais focos apontados uns aos outros.
Escrevo porque é impossível não notar como, por vezes, a fé se reduz a rótulo e a identidade religiosa passa a funcionar quase como um emblema de equipa. Em vez de procurarmos entender, vamos atrás do que confirma aquilo que já trazíamos decidido; em vez de discernir, disputamos. E as palavras fortes, repetidas com a cadência dos slogans, acabam por fazer mais ruído do que clareza, mais eco do que verdade.
Mas a fé, a fé verdadeira, não grita. Não ameaça. Não segrega. Não transforma o próximo numa estatística útil. A fé levanta pontes, não muros; oferece perdão, não castigos exemplares; procura consolar mais do que ser consolada. Tudo aquilo, aliás, que o discurso político mais inflamado considera fraqueza. Talvez seja por isso que Cristo nunca foi eleito para nada.
O católico pode votar onde quiser, a Igreja não dá cartões eleitorais.
Mas a coerência existe: não se pode citar o Evangelho ao pequeno-almoço e insultar meio país ao jantar.
O Chega reivindica as “raízes cristãs”. Mas raízes não chegam: é preciso frutos. E, até agora, os frutos do Chega têm sido mais parecidos com as pedras que iam sentenciar a mulher adúltera.
Cristo disse “Pelos frutos os conhecereis”.
E o eleitor católico, se quiser ser honesto, tem de fazer a mesma pergunta: Que frutos espirituais dá um partido que vive da raiva, desconfiança e humilhação? Até agora, escassos.
O Cristianismo sobreviverá, como sempre. Já viveu sob tormentas bem maiores do que um partido que gosta de o citar sem o ler. O Chega também sobreviverá; os partidos populistas têm a energia dos fogos de artifício: fazem barulho, iluminam o céu por momentos, e depois deixam um cheiro vago de pólvora no ar.
No fundo, tudo isto seria cómico se não fosse trágico, e seria trágico se não tivesse, às vezes, uma certa comicidade involuntária. Não é que o Chega seja anticristão. Longe disso. O problema é mais subtil: é que o cristianismo, a sério, é profundamente anti-simplificação. E o Chega vive de simplificar o que é complexo, de reduzir o que é humano a categorias fáceis de imprimir em cartazes. É difícil praticar o Evangelho quando se vive politicamente da caricatura. Porque as caricaturas têm graça, mas raramente têm alma.