O que está a ser feito ao dr. Gentil Martins a propósito das considerações que teceu sobre os homossexuais na entrevista que deu ao Expresso é grave. Não está em causa saber se o dr. Gentil Martins tem ou não tem razão (eu acho que não tem). Nem está em causa o direito que assiste aos que dele discordam de contestar as suas ideias com a veemência toda que entenderem. Mas está em causa que daí se passe à ameaça e à perseguição. Pois foi a isso que assistimos na última semana: não à refutação (já não digo civilizada mas, ao menos, ordeira) das afirmações do dr. Gentil Martins, mas ao insulto e à intimidação.

Os argumentos usados são um disparate. Gentil Martins é colocado no pelourinho por, sendo médico, ter feito afirmações supostamente ao arrepio da “verdade científica”. Eu percebo que gente como a deputada Isabel Moreira não faça a mínima ideia do que é uma “verdade científica”. Mas já me custa ver a professora Ana Matos Pires repetir a tolice. A professora Ana Matos Pires deve saber que as “verdades científicas”, ao contrário de outras “verdades” (religiosas ou ideológicas), não passam de hipóteses de trabalho. A ciência médica não tem, portanto, verdades sobre a homossexualidade, como não tem nem deve ter verdades sobre coisa nenhuma. Nem, de resto, são elas necessárias. O respeito pelas orientações sexuais de cada um não é matéria de ciência, mas de educação e civilidade.

Ao disparate soma-se a malevolência: é assim que, onde Gentil Martins afirma que “Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la”, há quem leia: “não aceito promover um homossexual” (no sentido de promoção na carreira). É a leitura que faz a professora Ana Matos Pires, servindo o mal-entendido para suportar a queixa à Ordem, com o argumento de que Gentil Martins teria violado o artigo 107º do Código Deontológico, onde se lê que “constitui dever dos médicos, nas suas relações recíprocas, proceder com a maior correcção e urbanidade”. Não sei onde ficaram a correcção e a urbanidade da professora Ana Matos Pires em tudo isto.

Sobram as declarações do dr. João Semedo, para quem perseguir Gentil Martins por causa da opinião que expressou não é censura nem viola a liberdade de opinião. Porquê? Porque a opinião de Gentil Martins é “contrária à posição da OM” e errada “do ponto de vista médico e científico”. Donde se conclui que a Ordem dos Médicos ganhou, para o dr. João Semedo, estatuto de infalibilidade e que ele e a professora Ana Matos Pires andaram na mesma escola.

Os esbirros do doutor Salazar não fariam melhor.

Tudo isto é beato, pidesco e miserável. Já não há paciência.

Médico