Hoje, os fármacos para a melhoria dos desempenhos cognitivos de pessoas doentes. Amanhã, fármacos acessíveis a todos os saudáveis que desejem melhorar as suas capacidades. Depois, o desenho genético de bebés à medida, com capacidades cognitivas e físicas melhoradas. Não é ficção, é o futuro. E está cada vez mais próximo: são já milhares os que, por todo o mundo, procuram aumentar as suas capacidades de raciocínio através de fármacos, sobretudo nos meios sociais mais competitivos – nas universidades, no desporto, nas profissões de alto desgaste. Daqui a dois anos, alguns destes mecanismos de melhoramento estarão disponíveis no mercado global. Estaremos preparados?

Tudo indica que não. A ciência parece apanhar-nos sempre desprevenidos, mesmo quando vislumbramos as suas conquistas com décadas de antecedência. Existem centenas de romances escritos e de filmes produzidos acerca dos riscos da tecnologia e dos avanços científicos para a vida dos homens. No entanto, há ainda muito pouca reflexão sobre os impactos desses avanços para as nossas sociedades. E a que há permanece demasiado afastada do debate público. A diferença entre a fantasia e a realidade era, de facto, demasiado grande. Já não o é. Agora, nada mais importante do que entendermos o que está em causa.

O que está em causa é simples de explicar: quando o impossível se torna possível, ficamos perante a maior das tentações – a de sermos perfeitos, imortais ou simplesmente melhores, contornando os limites da nossa própria natureza. Devemos resistir? Neste caso, a pergunta é particularmente importante. É que, ao contrário de tantas outras inovações científicas, o melhoramento humano não é somente uma questão ética. A introdução desses mecanismos de melhoramento (fármacos ou desenho genético) alterará a nossa identidade, é certo, mas, sobretudo, abalará os pilares das nossas sociedades democráticas e liberais.

Vejamos o caso mais evidente, o do princípio da igualdade. A civilização ocidental baseia-se no reconhecimento de que todos os homens são iguais, apesar das suas diferenças (altura, força, inteligência, cor de pele, etc.). Ou seja, que as suas diferenças são indiferentes. Por isso, todos têm os mesmos direitos e deveres, e ninguém está acima das regras ou das leis. Mas, e se um dia essas diferenças deixassem de ser indiferentes?

Façamos o exercício através de um cenário considerado plausível pela investigação. Imaginemos que, com a possibilidade de proceder a modificações genéticas para aumento das capacidades cognitivas, os homens que o fizessem ficariam com uma inteligência de tal modo superior aos que não o fizessem que, irreversivelmente, a comunicação entre eles se tornaria impossível – tão impossível quanto alguém ter uma conversa com um gato. Aqui, criar-se-ia, na prática, uma distinção entre tipos de seres humanos (em que uns são objectivamente superiores a outros). E, sendo as suas diferenças significativas e inultrapassáveis, nunca mais estes homens poderiam ser tratados como iguais.

Na teoria, este cenário tem uma solução óbvia: se todos fizerem a intervenção genética, todos ficarão mais inteligentes e ninguém ficará para trás. Só que essa solução tem um problema irremediável: é irrealista.

Não é possível garantir que todos acedem à mesma tecnologia, muito menos que todos o façam ao mesmo tempo. Por diversas razões. Primeiro, por causa do tempo. Tal como esta possibilidade está prevista, as intervenções genéticas serão feitas em fetos ou embriões. Assim, quem tiver nascido antes da introdução dessa tecnologia nunca terá acesso a melhoramento genético. Além disso, quem nascer 20 anos após um indivíduo sujeito a intervenção genética terá acesso a melhor tecnologia e, como tal, a um aumento cognitivo superior ao desse indivíduo. Segundo, porque há um desafio social. É ingénuo acreditar que a tecnologia será a mesma para todos. Tal como acontece hoje, quem tiver mais dinheiro terá certamente melhor tecnologia, melhores médicos, melhores técnicos e, claro, melhoramentos genéticos mais significativos. Terceiro, porque há um problema de escala. Mesmo que acreditemos que, num país, o Estado garantirá equidade no acesso, em muitos outros sítios do planeta não será assim – em muitos países, esta tecnologia não existirá sequer. E, assim, haverá sempre quem não tenha acesso a melhoramentos genéticos.

Este é apenas um cenário entre muitos outros – sobre questões laborais, sobre o Estado Social, sobre o sistema educativo – cujo ponto fundamental é tornar claro dois aspectos do problema. Que, desta vez, as implicações da ciência poderão ser maiores do que alguma vez foram. E que encontrar soluções para os desafios que enfrentaremos será mais complexo do que nunca. A seu tempo, a mudança virá. Até lá, compete-nos estar preparados.

Nesse sentido, as recentes declarações de Alexandre Quintanilha (coordenador de um projecto europeu sobre melhoramento cognitivo) devem ser lidas com alguma apreensão. Numa brevíssima entrevista ao Expresso (28.06.2014), Quintanilha afirma que o melhoramento cognitivo não é um fenómeno novo – “porque a técnica mais antiga para a potenciação neuronal é a educação (…) e todos nós achamos hoje que a educação é uma coisa boa, com efeitos muito positivos”. Sim, a educação potencia. Mas a comparação tem perigosos limites. É que o consumo de fármacos e o recurso a tecnologia para melhoramento cognitivo fazem mais do que potenciar as nossas capacidades – alteram-nas. E isso é um fenómeno novo. Não perceber isto é meio caminho andado para o desastre.