Todos nós sabemos que o Partido Comunista Português mantém uma enorme admiração pela antiga União Soviética e por toda a narrativa revolucionária da chamada ditadura do proletariado. Ninguém põe em causa os milhões de mortes causadas por Vladimir Lenine, Josef Estaline, ou por outros ditadores comunistas como Pol Pot e Mao Tsé-Tung. Todos os militantes da esquerda sabem que o regime soviético, o Grande Salto em Frente na República Popular da China ou a actuação dos Khmer Vermelho foram responsáveis pela morte de milhões do seu próprio povo, em nome de um alegado bem maior.

Numa pesquisa rápida, encontramos estimativas que apontam para mais de 15 milhões de mortos associados às políticas repressivas da antiga União Soviética, incluindo a Grande Purga, as fomes provocadas, o Holodomor, os gulags e as deportações em massa de populações inteiras durante e após a Segunda Guerra Mundial. Também é amplamente reconhecido que a Revolução de Outubro foi o grande catalisador para a implementação de vários outros regimes socialistas e comunistas pelo mundo, regimes esses que, curiosamente, acabaram por produzir resultados semelhantes.

Entre os exemplos mais marcantes estiveram a República Popular da China, caracterizada pela colectivização forçada, controlo absoluto do Partido Comunista e campanhas como o Grande Salto em Frente; Cuba, marcada pelo partido único, repressão política e forte aparelho estatal; a Coreia do Norte, conhecida pelo culto da personalidade, isolamento extremo e regime dinástico; o Vietname, estruturado num sistema de partido único; e países do Leste Europeu, como a antiga Alemanha Oriental, a Polónia e a Roménia, caracterizados por economias centralizadas, censura, polícia política e limitação das liberdades individuais.

Paula Santos conhece toda esta realidade histórica, mas ainda assim não hesitou em afirmar no Parlamento, perante o país, que “a União Soviética, infelizmente, terminou há muitos anos, infelizmente, porque de facto foram avanços extraordinários para o povo”. Não é novidade. Todos sabemos que muitos simpatizantes comunistas continuam, ainda hoje, a relativizar ou mesmo a defender o lado mais negro destas revoluções. Não podemos esquecer a posição do PCP, aquando da queda do Muro de Berlim, que esta “foi uma perda para a humanidade”; e, anos antes, Álvaro Cunhal nunca perdoou Gorbachev pelas reformas da Perestroika e da Glasnost, classificando o fim do bloco soviético como uma derrota civilizacional para a humanidade.

Ao contrário destes lamentos, é fundamental recordar que os regimes comunistas não sofreram nenhuma conspiração externa fatal; eles simplesmente implodiram. É caricato dizer que “infelizmente” uma coisa já não existe quando ninguém acabou com ela, ela própria acabou consigo mesma. O que vimos foi um processo de autofagia ideológica e económica, onde o sistema consumiu os seus próprios recursos e a dignidade do seu povo até colapsar sob o peso das suas próprias contradições.

Esta visão de que um ideal justifica todos os meios é reflexo de uma profunda falta de humanismo. Na teoria comunista revolucionária, o objectivo final de uma sociedade considerada “igualitária” pode ser perseguido sem olhar aos métodos utilizados: pela imposição, pela repressão, pela exploração ou pela submissão do indivíduo ao Estado. A História mostrou repetidamente que, quando o poder absoluto se concentra num partido, a liberdade individual torna-se descartável e a dignidade humana passa para segundo plano.

O grande paradoxo da questão é que o comunismo em Portugal continua, muitas vezes, de “peito feito” por ter combatido o Estado Novo e por ter sofrido às mãos da PIDE. No entanto, não reconhece que os regimes comunistas fizeram, de forma exponencialmente mais brutal, exactamente aquilo que diziam combater: perseguição política, censura, polícia secreta, prisão de opositores, campos de trabalho forçado e eliminação sistemática de milhões de pessoas. Quem condena legitimamente a repressão do Estado Novo deveria também ter a honestidade intelectual de condenar, com igual clareza, os crimes cometidos em nome do comunismo. A defesa da liberdade e da dignidade humana não pode depender da cor ideológica da ditadura.

Os regimes comunistas do século XX não foram apenas experiências políticas falhadas; foram também algumas das maiores tragédias humanas da História contemporânea. Defender Marx e Engels hoje, ignorando o rasto de destruição que as suas teorias deixaram quando aplicadas, é negar o empirismo e a própria evidência dos factos. Se o objetivo é obter resultados diferentes, não se pode continuar a defender as mesmas ações e ideologias que falharam sistematicamente. E talvez o mais inquietante seja perceber que, apesar de tudo, continuam a existir sectores políticos incapazes de fazer uma condenação clara e inequívoca destes regimes e dos seus crimes.