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Internet: a mais poderosa ferramenta de censura

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Não é o lado mais sombrio da indústria que quero trazer à baila. É sobre o poder que uma plataforma tem de decidir a ética e a moral dos seus utilizadores. É sobre os novos donos da palavra.

Quando o britânico Tim Berners-Lee inventou a World Wide Web (www), em 1989, não imaginaria o quão perigosa esta se viria a tornar. Quando Jimmy Wales fundou a Wikipedia em 2001, fê-lo com o intuito de permitir que indivíduos pudessem colaborar na criação, organização e divulgação de conhecimento.

Separados por 12 anos, ambos partiam de valores básicos na sua relação com isto a que chamamos de Internet. Na sua génese, a descentralização do poder seria um dos princípios mais invioláveis da comunidade. Assim, não existiria um poder central responsável por autorizar e mediar a colocação de conteúdos na web. Não haveria qualquer nó central ou qualquer guardião da palavra. A internet seria livre, liberta de qualquer censura ou vigilância  indiscriminada.

Este era o princípio base do sonho de ligar o mundo numa só plataforma. Um sonho que, ultimamente, tem ganho contornos de pesadelo.

Novas formas de censura, novos donos da palavra

Com o crescimento das redes sociais e da panóplia de aplicações que as rodeiam, a experiência digital aglomerou-se à volta de uma mão cheia de serviços: Facebook para redes sociais, Google para pesquisa, Spotify para música e assim sucessivamente. Como em qualquer outro exemplo de elevada concentração, para além de utilizadores e conteúdo, esta centralização veio trazer poder a estas plataformas. Aqui, alegaria eu, demasiado poder.

Com a maior parte da população a consumir conteúdo (notícias, conhecimento, cultura, etc.) através destas plataformas, não consigo deixar de ficar incomodado quando são algoritmos que definem aquilo que podemos ver, em função do que poderá gerar mais engagement (likes, clicks, e outros quaisquer objetivos perversos) para a plataforma.

Mas, pior do que isso, preocupa-me quando são estas plataformas a definir aquilo que eu não devo ver. Quando são as plataformas a censurarem (pois não há outro nome) em função daquilo que elas acham que é bom ou mau. Quando são máquinas, algoritmos, enfim, código, a definir o que é certo e o que é errado.

Dou-vos um exemplo com um serviço que milhões de portugueses usam: o Spotify. A plataforma de streaming serve milhões de horas de música todos os dias, a muitos de nós.

Uma das suas principais funcionalidades é a secção de playlists, criadas especificamente ao gosto do utilizador (nós). É o produto de avançados algoritmos de inteligência artificial e machine learning que, em qualquer momento, determinam as músicas que nós queremos ouvir. Tal como as mães, os algoritmos sabem o que é melhor para nós.

Acontece que no passado mês de Maio, a Billboard avançou que a plataforma tinha retirado as músicas do artista R. Kelly de todas as recomendações automáticas (algoritmos) e ainda das famosas playlists editoriais (RapCaviar, Discover Weekly, etc).

Nas palavras da Spotify: “Não censuramos um artista devido ao seu comportamento, mas queremos que as nossas decisões editoriais reflitam os nossos valores. Quando um artista faz algo que é prejudicial e odioso, isso pode ter um impacto na forma como trabalhamos com esse artista”.

Até aqui, tudo bem, certo? A plataforma, à luz das recentes acusações de assédio sexual, violência e coerção, por diversas mulheres, resolveu agir de acordo com os seus valores. Ignore-se que o artista ainda não foi condenado por qualquer acusação. A plataforma já o fez.

Será R. Kelly o único artista acusado deste tipo de crimes? Teremos encontrado a única pessoa “errada” na longa lista de artistas do Spotify? Permitam-me: não.

  • Aos 23 anos, Anthony Kiedis (vocalista dos Red Hot Chili Peppers) mantinha relações sexuais com uma adolescente de 14 anos.
  • Michael Jackson foi acusado de contactos impróprios com menores.Ian Watkins (vocalista dos Lost Prophets) foi condenado a 35 anos de prisão por múltiplos crimes de abuso sexual de menores.
  • Chris Brown espancou brutalmente a namorada, Rihanna, em 2009.
  • Chuck Berry usava câmaras para espiar mulheres nas suas casas de banho.
  • Sid Vicious (dos Sex Pistols) matou a mulher.
  • Iggy Pop teve relações com a sua “baby groupie” Sable Starr quando esta tinha 13 anos.
  • David Bowie teve relações com Lori Mattox quando ela tinha 14 anos.
  • O guitarrista dos lendários Rolling Stones Bill Wyman, começou a namorar a sua eventual mulher Mandy Smith, quando ele tinha 47 anos e ela 13.

A lista podia continuar, porque há muitos mais exemplos. Contudo, estes artistas podem ser encontrados em listas editoriais e em sugestões dos algoritmos da plataforma.

Não é o lado mais sombrio da indústria que quero trazer à baila. Disso, a história encarregar-se-á. É sobre o poder que uma plataforma tem de decidir a ética e a moral dos seus utilizadores. É sobre os novos donos da palavra, as plataformas, e o seu crescente poder.

Um poder que se pode alastrar rapidamente a todas as formas de consumo digital. Um poder que pode decidir por si que notícias pode ler, que sites pode visitar, que conteúdo pode consumir. Para o seu bem, claro. É esta a internet dos nossos dias. O sonho de qualquer déspota. A mais poderosa ferramenta de censura alguma vez criada.

João Romão tem 29 anos e é o fundador da GetSocial.io, uma plataforma de análise de conteúdo em redes sociais. Além da temática das redes sociais, tem desenvolvido produtos e explorado ideias à volta dos temas do impacto das redes sociais na sociedade, futuro do trabalho e inteligência artificial.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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