A crescente confrontação entre Irão, Estados Unidos da América (EUA) e Israel representa um dos episódios mais perigosos da já complexa história geopolítica do Médio Oriente. O conflito, que se desenvolve em várias frentes e através de múltiplos atores indiretos, tem vindo a gerar spillovers significativos para países da região adjacente, ameaçando a estabilidade de um espaço que, paradoxalmente, nos últimos anos parecia caminhar para uma relativa normalização política e económica. No entanto, para compreender o comportamento estratégico de Teerão é necessário afastar leituras que frequentemente dominam o debate público ocidental e analisar o problema à luz de uma lógica de poder e sobrevivência do regime.
O Irão sabe perfeitamente que não tem capacidade para enfrentar militarmente os EUA ou Israel num confronto convencional direto. A disparidade de meios é demasiado grande. O orçamento de defesa americano ultrapassa largamente os 800 mil milhões de dólares por ano e sustenta um aparato militar global sem paralelo histórico, com uma sofisticação cada vez maior, como é agora o caso, das novas tecnologias IA inseridas em material militar. Israel, por sua vez, possui uma das forças armadas mais bem preparadas do mundo, fruto do estado constante de combate e conflito que este país se depara, praticamente desde a sua fundação. É precisamente aqui que entra a lógica estratégica de Teerão. Se não pode vencer uma guerra convencional, pode, no entanto, tornar qualquer conflito demasiado dispendioso, prolongado e politicamente complexo para os seus adversários. A resposta iraniana tem sido, ao longo das últimas décadas, o desenvolvimento de uma estratégia de guerra assimétrica baseada na criação deliberada de instabilidade regional. Em vez de concentrar o confronto num único campo de batalha, o Irão procura dispersar o conflito por múltiplos teatros, multiplicando os pontos de pressão geopolítica e criando uma rede de tensões que dificultam qualquer resposta militar decisiva.
Essa estratégia assenta numa arquitetura regional cuidadosamente construída desde os anos 1980. Ao longo do tempo, Teerão investiu na formação, financiamento e armamento de diversos aliados e grupos não estatais que funcionam como extensões indiretas da sua política de segurança. Por exemplo, o Hezbollah no Líbano constitui talvez o exemplo mais conhecido e mais poderoso desse sistema, tendo evoluído para uma força militar altamente sofisticada e integrada na política libanesa. No Iémen, o apoio aos Houthis permitiu abrir uma nova frente de pressão contra a Arábia Saudita e contra rotas marítimas estratégicas no Mar Vermelho. Este sistema de aliados e proxies permite ao Irão projetar poder muito além das suas fronteiras sem assumir diretamente o custo de uma guerra aberta. Ao mesmo tempo, cria uma zona cinzenta permanente entre guerra e paz, onde ataques, sabotagem, terrorismo e confrontos limitados ocorrem sem desencadear necessariamente uma escalada imediata para conflito total.
Mas existe uma segunda dimensão estratégica nesta lógica de instabilidade que é frequentemente subestimada. O Irão procura também atingir os pilares da estabilidade económica que sustentam o modelo político e financeiro de vários países do Golfo. Nos últimos vinte anos, Estados como os Emirados Árabes Unidos (Dubai), a Arábia Saudita e o Qatar transformaram-se em centros de estabilidade relativa numa região historicamente marcada pela turbulência. O Dubai tornou-se um dos maiores hubs financeiros e logísticos do mundo, símbolo de globalização e turismo de luxo. Doha consolidou-se como potência energética global através do gás natural liquefeito. Riade tenta reposicionar-se como potência económica diversificada através de projetos gigantescos ligados à estratégia Vision 2030. Esta estabilidade é, no entanto, extremamente dependente da perceção internacional de segurança. O capital global, o turismo de luxo e os grandes fluxos logísticos têm aversão à imprevisibilidade. Basta um aumento significativo do risco geopolítico para provocar reações em cadeia nos mercados energéticos, nas rotas comerciais e nas decisões de investimento. Ao permitir que tensões militares e ataques indiretos se aproximem destas zonas de estabilidade, seja através de ataques a infraestruturas energéticas sauditas, ameaças à navegação no Golfo ou instabilidade no Mar Vermelho, o Irão consegue gerar repercussões internacionais que rapidamente ultrapassam a dimensão puramente regional do conflito. Este tipo de pressão tem um objetivo político claro. Quanto maior for o impacto económico global da instabilidade regional, maior será também a pressão internacional sobre os EUA e Israel, para evitar uma escalada prolongada. Ao transformar a segurança do Golfo num problema global, Teerão procura redistribuir os custos políticos do conflito.
Contudo, para compreender plenamente esta dinâmica é necessário reconhecer que o atual antagonismo entre o Irão e o Ocidente não surgiu no vazio, existe o pecado original, que em nada se relaciona com a imprudência de Trump e de outros personagens pouco recomendáveis, como Hegseth ou Netanyahu. Pelo contrário, resulta de uma longa sequência de decisões geopolíticas que moldaram profundamente o equilíbrio de poder na região. Um dos momentos fundadores desta história ocorreu em 1953, quando o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh foi derrubado por um golpe apoiado pelos EUA e pelo Reino Unido. Mossadegh tinha nacionalizado a indústria petrolífera iraniana, anteriormente controlada por interesses britânicos, o que desencadeou uma forte reação das potências ocidentais. A operação secreta organizada pela CIA e pelos serviços britânicos restaurou o poder absoluto do Xá Reza Pahlavi, cujo regime autoritário governaria o país durante mais de duas décadas. Para muitos iranianos, este episódio tornou-se um símbolo profundo da interferência externa na política nacional e alimentou uma narrativa de desconfiança estrutural em relação ao Ocidente. Quando a Revolução Islâmica de 1979 derrubou o regime do Xá, essa memória histórica já fazia parte da identidade política da nova República Islâmica. Décadas mais tarde, um segundo momento crucial alteraria novamente o equilíbrio estratégico da região: a invasão americana do Iraque em 2003. Ao derrubar Saddam Hussein, Washington eliminou inadvertidamente um dos principais contrapesos regionais ao poder iraniano. Durante décadas, o Iraque tinha funcionado como rival estratégico de Teerão. Com o colapso do regime baathista, o vazio de poder permitiu o fortalecimento de partidos e milícias xiitas fortemente alinhados com o Irão.
O resultado foi um redesenho profundo da balança de poder no Médio Oriente. Em vez de conter o Irão, a guerra do Iraque acabou por abrir espaço para a expansão da sua influência regional, especialmente em Bagdade, Damasco e Beirute. Neste contexto geopolítico complexo, a posição da China merece também atenção particular. Pequim tem vindo a aprofundar a sua relação económica com o Irão, especialmente no setor energético. A China tornou-se no principal comprador de petróleo iraniano, absorvendo grande parte das exportações do país, apesar das sanções internacionais. No entanto, esta relação é profundamente assimétrica. Embora a China compre cerca de 90% do petróleo exportado pelo Irão, esse volume representa apenas cerca de 13% das importações totais de petróleo chinesas. Em outras palavras, o Irão depende muito mais da China do que a China depende do Irão. Os chineses dispõem de múltiplas alternativas energéticas, desde a Arábia Saudita à Rússia, passando por Angola e outros produtores globais. Já os iranianos, fortemente condicionados por décadas de sanções e isolamento económico e diplomático, tem poucas opções para escoar o seu petróleo no mercado internacional. Esta realidade ajuda a explicar porque razão a China dificilmente se envolverá diretamente num confronto militar relacionado com o Irão. Apesar de Pequim sair prejudicada por eventuais perturbações no mercado energético, o custo estratégico de um confronto direto com os EUA seria incomparavelmente maior. A estratégia chinesa continua a privilegiar a estabilidade internacional e o crescimento económico gradual. Entrar num conflito militar indireto com Washington no Médio Oriente representaria uma distração estratégica significativa num momento em que a China procura consolidar o seu poder económico e tecnológico. Mais importante ainda, Pequim reserva as suas principais cartas para questões que considera verdadeiramente existenciais, e nenhuma é mais central do que Taiwan. A reunificação da ilha com a China continental tem sido repetidamente descrita pelo presidente Xi Jinping como um objetivo histórico fundamental do Partido Comunista Chinês. Qualquer confronto militar direto com os EUA será, muito provavelmente, reservado para esse teatro estratégico e não para conflitos periféricos no Médio Oriente.
Apesar das tensões crescentes na região, é improvável que a atual escalada evolua para uma guerra global envolvendo as grandes potências. O mais provável é a continuação de um conflito híbrido e fragmentado, marcado por ataques indiretos, operações clandestinas, sabotagem e escaladas controladas. Neste cenário, o Estreito de Ormuz será central, como “arma” de arremesso. O Irão continuará a apostar naquilo que melhor sabe fazer: transformar a sua inferioridade militar numa estratégia de instabilidade calculada. Ao dispersar o conflito por múltiplos pontos da região, Teerão procura aumentar os custos estratégicos para os seus adversários e garantir que qualquer tentativa de confrontação direta se torna demasiado arriscada. Desengane-se quem pensa que este conflito está, de alguma forma, sob controlo de Trump. Não está. O presidente dos EUA parece longe de compreender a complexidade da sociedade iraniana, uma civilização persa milenar, com instituições profundamente enraizadas e um aparelho militar numeroso e influente na região. O Irão não é um ator menor e subestimá-lo pode revelar-se um erro estratégico de grandes proporções.