Joe Berardo, o comendador dos jornais, foi à Assembleia da República, e com o que disse ou não disse, e com as fotos que tirou ou não tirou, o país ofendeu-se. Aparentemente, ter-nos-á faltado ao respeito. Terá faltado ao respeito ao primeiro-ministro, que se referiu solenemente ao “desplante” de Berardo. Terá faltado ao respeito aos deputados, e através desses eleitos da nação, ao povo que nas redes sociais, entre fotos de gatos e pataniscas, lhe chamou vários nomes. O comendador deve milhões à CGD. Ter-lhe-ia ficado bem alguma contrição. Mas riu-se.

Fica sempre bem exigir respeito. Mas o respeito é também algo que se faz por merecer. Por isso, vale a pena perguntar: o primeiro-ministro, os deputados e o povo das redes sociais mereciam o respeito que esperavam do comendador Berardo?

Experimentem isto: ponham-se no lugar do comendador. Quem têm à vossa frente, na comissão de inquérito? Quem imaginam que vos esteja a ver lá fora, nos ecrãs da televisão ou do telemóvel?

À sua frente, à volta da mesa parlamentar, a fazer-lhe perguntas, o comendador tem os políticos que chegaram àquele lugar sob a protecção de outros políticos que também o ajudaram a ele, Berardo, a fazer dívidas de milhões. Os políticos que agora querem fazer dele o bode expiatório foram os políticos que puseram o banco do Estado a emprestar-lhe dinheiro. Os políticos que agora fingem que este caso justifica até a nacionalização da banca foram os políticos que com as operações a que o comendador se prestou já visavam precisamente uma espécie de nacionalização da banca – nesse caso, o controle do BCP. Imaginem, portanto, Berardo a olhar para esta gente, a lembrar-se de velhas cumplicidades. Que queriam que fizesse? Que mostrasse respeito por quem tem este “desplante”, para usar a linguagem do primeiro-ministro?

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