Caso José Sócrates

Jorge Sampaio também está envergonhado? /premium

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2.045

Sampaio tornou-se tão criador do socratismo como o próprio José Sócrates. E vai ser lembrado como o produtor da frase mais traiçoeira, ignorante, irresponsável e populista proferida por um Presidente.

Por estes dias está tudo muito envergonhado e traído pelos lados do PS e comentadores amigos. Contudo ainda falta saber os estados de espírito de algumas pessoas. Pedro Silva Pereira, por exemplo, faz ainda por ignorar que o vento mudou sem regresso para os lados do PS. Que o partido não mudou de posição, não deve discutir se se deixou instrumentalizar por corruptos e, sobretudo, é a oposição que está a fazer aproveitamento político com casos de justiça (adormeceram com este último argumento, de tão cansado e esfarrapado que está, certo?)

A Pedro Silva Pereira não lhe pareceu bem explicar se afinal o seu filho vivia com Sócrates em Paris com despesas pagas por Carlos Santos Silva, como as notícias indiciam. É que se acreditou que Sócrates vivia de empréstimos da CGD e da mesada da mãe, seguramente Silva Pereira não supôs que Sócrates tivesse capacidade para pagar a habitação (e alimentação?) de filhos alheios numa cidade cara como Paris.

Fizeram uma vaquinha para as despesas? Silva Pereira pagava parte? Qual? Sabia que era Santos Silva quem sustentava o folclore parisiense de Sócrates? Sabia que o dinheiro era, como diz a acusação do processo Marquês, do ex-primeiro-ministro de quem era tão próximo? Acha correto – ou, como os socialistas gostam, fazendo parte da ética republicana – um político no ativo, ex-ministro, ter um filho com uma estadia em Paris sustentada por origem incerta? Não tive explicações de nada disto. E, no entanto, Pedro Silva Pereira é eurodeputado. Se não for demasiado incómodo (e, se for, também) gostava que o PS insistisse para que Silva Pereira contasse a sua parte aos eleitores.

Há outro político que também ainda não ouvi nem li. E Jorge Sampaio? O que tem a dizer sobre Sócrates e o Processo Marquês?

É que José Sócrates não era inevitável. Recordemos que Sócrates se tornou primeiro-ministro depois de um dos atos politicamente mais reles da breve história da democracia portuguesa. Em 2004 havia uma maioria absoluta de direita na Assembleia da República – e, à luz de 2018, as maiorias que se estabelecem no parlamento é tudo e só o que conta para formar governo. A maioria era estável. Mas devido a ‘trapalhadas’ que nunca cuidou de elencar ou descrever, Sampaio dissolveu a AR e convocou eleições.

Entra Sócrates.

Sampaio sabia que depois do primeiro assomo de austeridade deste milénio no nosso retângulo (Manuela Ferreira Leite aumentou ‘temporariamente’ o IVA para 19% – não se ria, caro leitor, que o caso é sério) e da saída de Durão Barroso, o PS ganharia eleições. Pelo que a dissolução da Assembleia da República foi uma entrega deliberada do governo a José Sócrates por Jorge Sampaio.

Dir-me-ão que Sampaio não desconfiava no que Sócrates se tornaria. Bom, desde logo seria então um péssimo avaliador de pessoas, demasiado ingénuo para ocupar cargos tão fulcrais. Por outro lado, não é crível. Afinal já tinha existido a reportagem da Focus questionando de onde vinham os rendimentos do ex-ministro do ambiente. Já havia notícias e rumores sobre o Freeport. Os indícios eram numerosos. Foi Sampaio que escolheu ignorá-los e misturar-se com o socratismo.

Qualquer presidente sério seria prudente na hora de entregar o governo a um político à volta de quem existiam zunzuns. Mesmo se mais tarde se revelassem falsos. Mas a Sampaio não lhe apeteceu ser prudente. A Sampaio apeteceu-lhe entregar o poder executivo ao seu partido de sempre, ainda que liderado por uma figura já então questionável. Para Sampaio, um socialista com aura de corrupção e de vida acima das possibilidades vale mais do que qualquer político íntegro de outros partidos.

Sampaio tornou-se, assim, tão criador do socratismo como o próprio José Sócrates. Vai ser conhecido para a história como o produtor da frase mais traiçoeira, ignorante, irresponsável e populista proferida por um Presidente da República – ‘há vida para além do défice’ – e criador dos governos de José Sócrates.

Que isto sirva de lição para vermos como elegermos nulidades políticas tem custos grandes. Não foi Sampaio que ganhou a Presidência da República – foi Cavaco Silva que, desgastado depois de dez anos no governo, a perdeu. O número de portugueses entusiastas de Sampaio nos seus momentos áureos (uso a palavra com benevolência) anda na casa do número de pessoas que por cá, incluindo a comunidade chinesa, já leu as obras completas de Lu Xun. É provável que eu tenha mais pares de skinny jeans no armário.

A ignorância arrogante de Sampaio era assustadora, como a frase lapidar sobre o défice orçamental demonstra. Um presidente que nem se dava ao trabalho de estudar e perceber as consequências económicas de finanças públicas descontroladas. Tendo em conta a ideologia, a personalidade e a falta de conhecimentos basilares sobre governação, era como a mãe da noiva: o melhor que se podia desejar era que Sampaio não se fizesse notar. Felizmente seguiu muito essa obscuridade, mas quando agiu foi uma calamidade.

Já que estamos numa altura de fazer as contas com a nossa história recente, seria bom não deixarmos de fora Jorge Sampaio. Representa o pior do regime que elevou Sócrates. E continua calado, esperando que ninguém se lembre do papel que escolheu.

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