Com o 25 de abril de 1974, abriu-se um mundo de fantásticas possibilidades de desenvolvimento do país. Depois das convulsões iniciais, e até mesmo com a relevância que a esquerda já representava no panorama político-social, o país tornou-se numa espécie de democracia liberal. Os comunistas e socialistas defendiam que “o povo é quem mais ordena”, as eleições justas tornaram-se numa realidade e os políticos cimeiros pareciam pessoas sensatas, equilibradas, justas e positivas para o país. A bancarrota de 83 até poderá ser levada em conta de alguma falta de experiência de governação numa democracia com um novo regime, onde muita gente ascendente e sem experiência tentava fazer o seu melhor. Sejamos bondosos.

Com a adesão ao Sistema Monetário Europeu, os anos 90 foram de grande estabilidade monetária e muito prometia o melhor dos futuros. Teríamos uma moeda mais forte (o escudo, apesar de tudo era a sexta moeda mais forte do mundo) e com a liberalização económica, o impulso do empreendedorismo e os abundantes fundos europeus, o futuro apresentava-se risonho e abundante.

Em todos os aspectos da vida social e económica, Portugal obteve fortes avanços. E as classes ascendentes com o 25 de abril sedimentaram-se no poder.

Começou então, já aí, a inevitável descida ao inferno económico e social que hoje vivemos. O rendimento médio é hoje inferior ao que tínhamos nos anos 90. As escolas e o ensino, uma lamentável desgraça num ecossistema de gestão da escola controlado por sindicatos e Partido Comunista, que têm o interesse das crianças e jovens em ultimíssimo lugar.

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Os funcionários públicos, com rendimento acima da média dos trabalhadores do sector privado, tornaram-se, paulatinamente, numa classe privilegiada eleitora por excelência de governos cada vez mais compradores de votos e menos capazes (ou “preocupados”, vai dar ao mesmo) com a gestão criteriosa da coisa pública. Entretanto, a carga fiscal é uma das maiores do mundo. E isto sem serviços estatais de quantidade e qualidade correspondentes ao elevado custo para os cidadãos contribuintes.

A economia foi ficando cada vez mais “regulada”, sinónimo de barreiras à entrada de novos concorrentes, criando efectivamente uma casta protegida de “senhores feudais” do regime, capazes de usar as grandes empresas de advogados para influenciar legislação e controlar os sectores em que intervêm. A situação agravou-se também com as várias vendas de empresas prioritárias a interesses estrangeiros.
A conversa pública sobre a necessidade de manter “os centros de decisão” em mãos nacionais deixou de fazer parangonas e quase tudo tem apenas um preço pelo qual se passa propriedade e controlo, sobretudo a interesses chineses. Com o beneplácito dos sucessivos governos.

Como é que Sócrates foi fundamental?

Sócrates deu um pontapé crítico para o actual descalabro. Os dois governos socialistas anteriores a 2008 criaram as bases na administração pública e nos sectores fundamentais da vida económica, política e mediática para o que temos hoje de pseudo-democracia. Extraordinariamente, sem um “ai!, estamos a comprometer o nosso futuro e dos nossos filhos e netos por parte da nomenclatura do regime. Do PS ao PSD, e com assentimento tácito, pelo menos, dos partidos de esquerda.

Sócrates inaugurou a mão que tudo controla na comunicação social. Deu o exemplo e abriu a Caixa de Pandora da politização dos média. Algo fundamental para conseguir controlar as rédeas do poder. Além de ter colocado a ”sua” rede em lugares fundamentais dos média, propulsionou a colagem sistemática dos meios de comunicação à propaganda pró-governamental. E estes factos significaram o fim da imprensa livre, isenta e neutral que ainda tínhamos.

Claro está, que meios de comunicação subservientes ao poder não podem configurar o papel imprescindível do Quarto Poder. E este é um paradoxo irresolúvel que, concomitantemente à concorrência das redes sociais, descapitalizou profundamente os mesmos meios de comunicação e os colocou numa situação de subserviência ainda maior. Os leitores fartam-se rapidamente de ler/ver “améns” ao regime.

Os 15 milhões que saem do Orçamento de Estado são uma gota no oceano. Experimentem ir a base.gov.pt, pesquisar pelos nomes das empresas proprietárias dos principais jornais e televisões e verão a proliferação de contratos. Uns maiores, outros menores, mas os fundos contínuos “oleiam” bem a máquina de propaganda ao serviço de quem aprendeu com Sócrates a fundamentalidade do controle dos média.

Claro está, que com este panorama de controle da informação permitida, os eleitores sofrem de carência profunda de informação. Deixou de haver jornalismo de investigação, de reportagem, debate pluralista e reflexão de fundo sobre o país. E votam. José Sócrates sabia bem o que queria fazer e por que motivo o deveria fazer.

Do que vemos nos média, praticamente tudo é uma superficial navegação na espuma dos dias, sem nada de substancial e informativo. “Papagueiam-se” as grandes agências noticiosas, dá-se espaço a cronistas “autorizados” (notável exceção deste jornal) pelo regime e entretém-se a populaça com reality shows de muito duvidosa qualidade.

É caso para dizer que o sonho de Sócrates está realizado.

Sócrates não só se serviu do regime mas, em dependência mútua, o regime saído do 25 de abril serviu-se de Sócrates. O seu mais digno representante. E agora voltará, ufano e garboso, porque venceu o processo.

E muito provavelmente o regime, que conta com os bolsos fundos do povo português (este, cada vez mais pobre) irá indemnizá-lo por danos reputacionais sofridos depois de ter praticado corrupção – esta dada como provada, mas prescrita – pelo juiz Ivo Rosa.

O triste descambar da democracia fundada no 25 de abril numa coisa que ainda não sabemos como se irá configurar, é profundamente marcado por Sócrates. Isto, porque não há democracia sem Quarto Poder. E Sócrates começou a ferir a comunicação social, de morte em vida, de que atualmente padece.