Com a tranquilidade de ter escrito, não agora, mas em Janeiro de 2009, no auge do poder de José Sócrates, que a sua “forma de actuação cria em seu redor (e replica-se ao longo de toda a administração pública) uma clara apetência pela subserviência da concordância sistemática em detrimento da lealdade da discordância fundamentada o que é facilitado pela sua incompreensão quanto ao facto dos funcionários públicos deverem lealdade ao Governo mas apenas à Lei deverem fidelidade” e “por tudo isto, que cria um clima favorável à decisão ineficiente a prazo e à corrupção imediata, embora permita decisões rápidas e focadas nos objectivos, eu não tenho dúvidas em discordar dos métodos de actuação de José Sócrates.”, penso que talvez seja a altura para lembrar que José Sócrates não aconteceu no vácuo, teve precedentes e consequentes.
Experiências pessoais são sempre limitadas, mas comecemos por uma história real, vivida por mim, ainda Sócrates era o secretário de Estado Adjunto de Elisa Ferreira, na altura independente não especialmente conotada com o PS, conhecido nos corredores como o Zé das Sobras porque Elisa Ferreira tinha entregado tutela das grandes instituições ao secretário de estado escolhido por si, Ricardo Magalhães, deixando pequenas coisas sem relevância, como a defesa do consumidor, para o secretário de Estado Adjunto, imposto pelo partido, José Sócrates.
O governo de Guterres não era bem um governo do PS, era uma estranha coligação entre o PS e independentes cooptados de uns longos Estados Gerais que Guterres tinha promovido ao longo dos últimos anos do cavaquismo, com uma estrutura em que os ministros independentes tinham sempre um secretário de Estado com uma espécie de função de controlador partidário.
Neste contexto, eu fui parar a vice-presidente do Instituto de Conservação da Natureza, a convite de Teresa Andresen, escolhida por Elisa Ferreira para presidente e, de acordo com o que tinha sido publicamente expresso por Guterres, veementemente, na campanha eleitoral, propusemos que na substituição de directores das áreas protegidas se usasse a faculdade prevista na lei, embora como método complementar, de a escolha de novos dirigentes ser feita por concurso público.
A resposta foi rápida e transparente: sim, o concurso seria a regra para a nomeação de dirigentes mas depois de muito bem estabelecidas regras que iriam ser discutidas com os sindicatos, até lá ia-se manter a nomeação por escolha prevista na lei como regra (o concurso podia ser usado, mas não era a regra, de acordo com a lei).
Dever-se-ia, no entanto, nessas nomeações, ter em atenção um pormenor.
Para garantir o enraizamento local das escolhas, embora a lei não o previsse, deveria ser sempre consultado o governador civil do distrito a que diziam respeito as nomeações, que, na qualidade de representante do governo no distrito, se encarregaria de fazer a articulação com a sociedade civil relevante.
Entretanto, Jorge Coelho, o poderoso ministro da Administração Interna, tinha nomeado como novos governadores civis, na generalidade dos casos (havia algumas excepções), os presidentes das distritais do Partido Socialista.
Com adaptações e respeitando as devidas distâncias, poderei agora dizer o que Jorge de Sena disse sobre os fuzilamentos de Goya: “foi uma coisa, entre mil, … que por violenta e injusta ofendeu o coração … muito grande, cheio de fúria e de amor”.
José Sócrates acontece neste caldo de cultura do guterrismo, que o próprio qualificou como pantanoso, e é porque é um grande especialista em esquemas que José Sócrates consegue acumular um poder inacreditável, a partir de um contexto meticulosamente formatado à imagem e semelhança do Partido Socialista de então, o mesmíssimo Partido Socialista que se ofendeu com António José Seguro quando este se recusou a caucionar os métodos de Sócrates, depois da sua derrota nas eleições de 2011.
E essa é a parte dos consequentes, Sócrates terá perdido a guerra política quando a justiça mudou os termos da discussão, mas o Partido Socialista manteve-se exactamente no mesmo ponto em que estava antes das eleições de 2011, descartando José Sócrtates como se nunca o tivesse conhecido e não admitindo qualquer falha política do partido em todo o seu consulado, inclusivamente escolhendo para seu secretário geral o coordenador da moção de estratégia que Sócrates levou ao congresso do PS ainda em 2011: António Costa (já agora, “aprovada com 97,2 por cento dos votos no XVII congresso nacional”).
Note-se que este congresso a votação norte coreana em José Sócrates, o apoio expresso, entusiástico e formal de António Costa, tudo opções políticas conscientes, são contemporâneos do pedido de ajuda externa conhecido em 6 de Abril (o congresso realiza-se a 8, 9 e 10 de Abril), portanto não há qualquer dúvida, já nessa altura, sobre as consequências políticas das opções de José Sócrates.
Na verdade, essas opções não eram essencialmente de José Sócrates, que se limitou a interpretar e executar eficazmente o que na verdade eram as opções do Partido Socialista.
José Sócrates tem graves responsabilidades políticas pessoais (as outras deixo para os tribunais) no mau governo do país?
Sim, tem, mas não aconteceram no vácuo.