1 Morreu este sábado, 31 de Dezembro de 2022, às 9:34 horas de Roma (8:34 h em Lisboa), no dia de São Silvestre I, seu longínquo antecessor na Cátedra de Roma, no século IV. Apagou-se a vela – eu diria um círio – que se foi extinguindo aos poucos, para usar uma precedente expressão do seu secretário pessoal, o arcebispo Georg Gänswein. No Mosteiro Mater Ecclesiae, para onde se retirou após a renúncia e agora terminou o seu percurso terreno, a chama do Papa Emérito ainda se reateou de luz uma ou outra vez, conforme as necessidades que irrompiam em momentos de ameaçadora obscuridade no interior das muralhas do Vaticano.

Não é possível, apenas numa crónica, resumir a importância eclesial e mundial da sua longa vida de sacerdote (como padre, bispo, arcebispo e cardeal), teólogo, académico, autorizado guardião da doutrina e finalmente Sucessor de Pedro, logo depois de São João Paulo II. Daí esta série de crónicas que apresentarei em IV Partes sucessivas.

Dos Papas meus contemporâneos (Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e II, Bento XVI e, agora, Francisco), Bento XVI, juntamente com João Paulo II, foram aqueles que, até hoje, mais influenciaram o meu pensamento religioso e direi mesmo existencial. Posso afirmar, sem qualquer exagero, que o seu Magistério constituiu para mim como que uma outra alma mater. Os seus pontificados (1978-2005-2013), duraram, conjuntamente, perto de 35 anos, que corresponderam aos anos que passaram desde os meus 26 até aos 61 – tempo em que lentamente fui afirmando, confirmando e sedimentando a minha maturidade. (Fica assim já claramente assumida a minha declaração de interesse.)

Nasceu na Baviera, num Sábado Santo, a 16 de Abril de 1927, terceiro e último rebento de uma família devotadamente católica. Filho de um polícia, apenas com o grau de ensino elementar e já então com a idade de 50 anos e de uma empregada doméstica, depois cozinheira e exímia padeira, então com 43 anos, que conhecera o futuro marido através de um anúncio por ele publicado no jornal local, em Julho de 1920; e que se casaram cerca de quatro meses depois.

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2 Da vastíssima bibliografia sobre ele, começo por elencar algumas das obras publicadas nos últimos 36 anos, do próprio ou produto da sua colaboração, ou de autores que o foram dando a conhecer ao grande público. Refiro-as conforme a edição e língua em que as li:

  1. Destaco, em primeiro lugar, a sua pequena obra de carácter autobiográfico A Minha Vida, publicada em Itália, em 1997, mas só aparecida em português, em 2005 (Editora Livros do Brasil), já depois da sua eleição como Papa;
  2. Em segundo lugar, saliento o livro-entrevista de Vittorio Messori com o cardeal Ratzinger, um género então absolutamente inédito e singular na forma de comunicar da Igreja, intitulado na versão portuguesa Diálogos Sobre a Fé (Editorial Verbo, 1985);
  3. Segue-se a obra de Peter Seewald, o Autor seu compatriota com quem Joseph Ratzinger terá conversado mais horas. No primeiro dos seus grandes livros-entrevistas: O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milénio (Multinova, 1997), não há temas tabu que não sejam abordados. O segundo, Deus e O Mundo – A Fé Cristã explicada por Bento XVI (Tenacitas, 2005), resulta de uma série de longas conversas com Ratzinger, havidas no mosteiro de Montecassino, em Fevereiro de 2000. Em 2005 e revisto em 2007, aparece Bento XVI visto de perto (Lucerna/Princípia, 2007), uma exposição sobre a eleição e o já eleito Bento XVI e o que dele se espera. Segue-se a terceira entrevista/conversa, Luz do Mundo – O Papa, A Igreja e os Sinais dos Tempos (Lucerna/Princípia, 2010), com o Papa a falar, de modo inédito, a título pessoal. E por fim, deste autor que se converteu depois deste prolongado tracto com Ratzinger/Bento XVI, temos Benoît XVI – Dernières conversations (Fayard, 2016), a primeira vez na história que um Papa (Emérito) faz um balanço do seu próprio pontificado, fala da sua renúncia e do seu sucessor, assim como dos desafios que se colocam à Igreja.
  4. De Roberto Regoli, saído em Maio de 2016, Oltre La Crisi della Chiesa – Il pontificato di Benedetto XVI (Lindau, 2016), temos uma das primeiras obras sobre as orientações e o perfil que assumiu o pontificado, um contributo para o futuro e uma primeira «grelha interpretativa» como diz o autor, professor de história contemporânea na Universidade Gregoriana.
  5. Meses depois, em Agosto de 2016, era publicada uma biografia escrita por Elio Guerriero, teólogo e historiador. Como director da revista Communio, frequentou e conheceu o biografado (um dos fundadores daquela revista), desde os anos 80. Sob o título Servitore di Dio e dell’Humanità – La Biografia di Benedetto XVI, apresenta um breve prefácio do Papa Francisco e uma entrevista ao próprio Papa Emérito, em apêndice.
  6. Ainda de Peter Seewald, temos a última grande biografia, em dois volumes, publicada na tradução em inglês, em Novembro de 2020 (Vol. I) e 2021 (Vol. II), intitulada Benedict XVI A Life (Bloomsbury Continuum). A mais actualizada e extensa biografia (no total, 489+557 páginas), para a qual mais uma vez contribuiu o biografado com prolongadas entrevistas.

3 O prestígio de Joseph Ratzinger com significativa repercussão eclesial, podemos dizer que teve o seu ponto de partida em 1961, aos 34 anos de idade, quando, como ghostwriter, foi o autor da conferência que o arcebispo de Colónia, o septuagenário cardeal Josef Frings, deu em Génova a 20 de Novembro. O tema era sobre o contexto sociocultural contemporâneo do Concílio Vaticano II (1962-1965), já em preparação, e o que o diferenciava do Concílio Vaticano I (1869-1870). O velho cardeal era membro da importante Comissão Central Preparatória do Concílio. A conferência foi um triunfo e até considerada por alguns marcantes cardeais um «documento histórico», o que levou o Papa João XXIII a convocar expressamente o conferencista, dizendo-lhe em pessoa: «Eminência, devo dizer-lhe obrigado. Li o seu discurso a noite passada. Che bella coincidenza del pensiero! […] Disse tudo o que eu pensei e queria dizer, mas não fui capaz de dizer eu próprio» (cf. Seewald, 2020, pp. 360-361). O impacto da conferência – da qual o cardeal Frings não deixou de revelar o verdadeiro autor – foi tal, que alguns paralelismos se notaram posteriormente entre o que Ratzinger escreveu e o próprio discurso de abertura do Concílio proferido por João XXIII, por quem o jovem teólogo se sentia então «fascinado» e se disse «um verdadeiro fan» (cf. Seewald, 2016, pp. 152-152).

O mote a respeito da Igreja do futuro, que veio a repetir em várias ocasiões ao longo da vida, já então era assim perspectivado pelo jovem teólogo Ratzinger: «De muitos modos a religião adquirirá uma forma diferente. Tornar-se-á mais magra na forma e no conteúdo, mas talvez mais profunda. A pessoas de hoje podem correctamente esperar que a Igreja os ajude neste processo de mudança. Talvez a Igreja deva deixar cair muitas formas envelhecidas que não são já adequadas […] estar disposta a despir a datada roupagem da fé. Ao deixar ir o transitório, foca-se mais claramente no essencial. As pessoas, hoje, devem novamente ser capazes de reconhecer que a Igreja não teme a ciência nem precisa de a temer, pois ela está segura na verdade de Deus, que nenhuma verdade ou progresso genuínos pode contradizer» (Seewald, 2020, p. 363).

À época do Concílio, Joseph Ratzinger situava-se confessadamente no campo progressista. Mas ao ser-lhe perguntado explicitamente isso mesmo, responde o seguinte a Peter Seewald, nas Dernières conversations (2016, p. 154): «Eu diria que sim. No entanto, à época, ser progressista não se inscrevia numa rotura com a fé, procurava-se compreendê-la melhor, vivê-la melhor, reatando-se às origens. […] No segundo ano do Concílio, o desvio [l’infléchissement, na tradução francesa] era já perceptível, mas não se afirmou verdadeiramente senão no decurso dos anos» (itálico meu). Na última página da biografia recém-saída, Seewald afirma que «os factos não sustentam a teoria da mudança, de um anterior teólogo progressista para um pensador reaccionário»; e, referindo-se ao que considera uma luta de meio século de Ratzinger pelo legado do Concílio, cita o que o próprio Papa Emérito elucida: «Tornar claro o que verdadeiramente desejamos e o que não desejamos. Essa é a tarefa que empreendi desde 1965» (p. 463).

Ainda antes de ser oficialmente nomeado teólogo do Concílio, peritus, teve a maior influência nas propostas de correcção dos documentos preparatórios, chamados Esquemas, assim como na redacção de alguns dos mais importantes dos dezasseis documentos finais, aprovados por Paulo VI. Destaco apenas a sua colaboração no documento que trata da Revelação divina («o mostrar-se de Deus ao homem»). O próprio cardeal Ratzinger, na sua autobiografia A Minha Vida (2005), esclarece com muita precisão o que esteve em causa na discussão do Esquema sobre as fontes da Revelação divina: o de reduzir a Revelação praticamente à Sagrada Escritura, supondo que «esta contem, de maneira completa, tudo o que respeita à fé» e baseando a sua interpretação sobretudo no método histórico-crítico (cf. pp. 86-91 da edição portuguesa). A propósito do tema, comentaria ele a Seewald, em 2016: «Estávamos convencidos tanto um como o outro [o cardeal Frings e ele próprio], que naquele momento devíamos servir a causa da fé e da Igreja. Era igualmente necessário definir claramente a justa relação entre as Escrituras, a Tradição e o Magistério, de modo que, graças a uma nova percepção e abordagem, esta relação pudesse ser verdadeiramente compreendida e justificada». Para um católico, essa tripla relação é absolutamente fundamental: a Revelação divina, veiculada pela Palavra de Deus, não está reduzida apenas à sola scriptura. A Tradição viva também é seu veículo; e o Magistério apostólico é o seu interprete oficial. A Constituição dogmática Dei verbum, sobre a Revelação Divina, finalmente promulgada por Paulo VI, nos números 9 e 10, consagraria isto mesmo. (Sobre a particular influência de Ratzinger no Concílio ver também a excelente síntese de Elio Guerriero, 2016, pp. 93-122).

Como é sabido, a posição de Ratzinger/Bento XVI relativamente ao Concílio Vaticano II, sofreu evoluções significativas, logo desde 1965. No capítulo das Dernières conversations, intitulado O Concílio: entre sonho e trauma, concorda o Papa Emérito com Seewald em que «a tragédia do Concílio é a de ter marcado o início de uma nova divisão interna da Igreja que, no fundo, perdura hoje em dia». Responde Sua Santidade: «Teria tendência a responder que sim. Os bispos queriam renovar a fé, aprofundá-la. Mas outras forças foram influenciando cada vez com mais força, em particular os jornalistas que reinterpretaram muitos factos. Num dado momento as pessoas perguntaram-se: “bem, já que os bispos podem mudar tudo, porque não podemos todos fazê-lo igualmente?” A liturgia começou a desmoronar-se e a ceder ao arbitrário. Pôde rapidamente constatar-se que o que partia de uma boa intenção era levado numa outra direcção. A partir de 1965, considerei ser meu dever expor claramente o que realmente queríamos e o que não queríamos» (pp. 165-166).

De facto, logo no seu primeiro discurso aos prelados da Cúria Romana por ocasião dos votos natalícios, dia 22 de Dezembro de 2005, e no contexto dos quarenta anos de encerramento do Concílio, Bento XVI desenvolveu o seu pensamento acerca do resultado, recepção e justa interpretação da reunião conciliar.

Em Agosto de 2012, volta ao tema do Concílio, redigindo um texto, depois publicado no L’Osservatore Romano (de 11 de Outubro), no qual o foco recai particularmente em alguns aspectos do encontro da Igreja com a era moderna, tais como: a Igreja no mundo contemporâneo, a liberdade religiosa e as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. No penúltimo parágrafo escreve Bento XVI: «Os Padres conciliares não podiam nem queriam criar uma Igreja nova, diversa. Não tinham o mandato nem o encargo para o fazer: eram Padres do Concílio com uma voz e um direito de decisão só enquanto bispos, quer dizer em virtude do sacramento e na Igreja sacramental. Então não podiam nem queriam criar uma fé diversa ou uma Igreja nova, mas compreendê-las a ambas de modo mais profundo e, consequentemente, “renová-las” de verdade. Por isso, uma hermenêutica da ruptura é absurda, contrária ao espírito e à vontade dos Padres conciliares» (itálicos meus).

A última vez, enquanto Papa, que se debruçou prolongadamente sobre o Concílio, foi no encontro com os párocos e os sacerdotes da sua diocese de Roma, realizado precisamente quinze dias antes de vigorar a renúncia ou seja, dia 14 de Fevereiro de 2013.

Bento XVI, começa por explicar o optimismo e as expectativas com que então se viveu aquele encontro de toda a Igreja universal. Seguidamente, descreve as diversas fases e a génese dos temas e respectivos documentos finais objecto do Concílio para depois concluir – qual derradeira mensagem, enquanto Papa, para a posteridade, sobre aquele histórico encontro – detendo-se sobre a interpretação e algumas das suas dramáticas sequelas, finalizando com uma exortação. Disse Bento XVI: «Sabemos como este Concílio dos meios de comunicação era acessível a todos. Por isso, acabou por ser o predominante, o mais eficiente, tendo criado tantas calamidades, tantos problemas, realmente tanta miséria: seminários fechados, conventos fechados, liturgia banalizada… enquanto o verdadeiro Concílio teve dificuldade em se concretizar, em ser levado à realidade; o Concílio virtual era mais forte que o Concílio real» (itálicos meus). Remata esta sua última conversa conciliar com os seus sacerdotes, garantindo a sua presença com a oração e convicto da vitória do verdadeiro Concílio: «Eu, retirado, com a minha oração estarei sempre convosco e, juntos, caminhemos com o Senhor, na certeza de que vence o Senhor! Obrigado!»

A surpreendente renúncia tinha sido anunciada a 11 de Fevereiro de 2013 – atribuindo-se o título de Papa Emérito, com direito ao tratamento de Sua Santidade, da batina branca, e de dar a Bênção Apostólica. Dezassete dias depois, dia 28, uma quinta-feira, às 20:00 horas locais, já retirado em Castel Gandolfo, deixava a Santa Sé de Roma vacante.

(continua)