Foi em maio, num dia feito de memórias suspensas que o grupo se reuniu num almoço de saudade. À mesa, como quem ergue uma ponte sobre o tempo revisitaram um passado que continuava a pulsar mesmo quando o julgavam distante. Com as memórias entrelaçadas num novelo compacto, iam desfiando lembranças que surgiam como um fio de luz em que o tempo, esse artífice implacável, tece a matéria de tudo o que foram, e que, por momentos, parecia abrandar o ritmo apenas para os escutar.

No entanto, o hoje estendia-se diante dos presentes com imponderáveis silêncios, moldado por forças de que raramente somos donos, e que nos levam por caminhos onde o acaso tem sempre a última palavra. Entre goles de conversa e intervalos de olhar aqueles ex-combatentes percebiam que existia uma harmonia secreta entre o antes e o agora. E foi nessa quieta revelação que esse maio se abriu lembrando que, mesmo quando a vida se dispersa em acasos, há encontros que lhe dão sentido e a recompõem.

Já embrenhados uns com os outros e toldados por lágrimas de alegria e saudade, todos fizeram uma pausa de veneração quando, amparado por duas muletas, o Mário Reis entrou na sala. O silêncio que o acompanhava sublinhava com notas de solenidade o que acontecera naquele novembro de 1970.

Faziam então parte do regimento de cavalaria “pica-na-burra” sediado em Nova Sintra – Guiné 1970, quando nesse fatídico dia de novembro marchavam de regresso de Bissássema onde se tinham deslocado dois dias antes. Tinham ido lá porque necessitavam afirmar a ocupação do território, mas também porque eles próprios eram os primeiros a duvidar se alguma vez o teriam realmente ocupado.

Estávamos no auge de uma guerra de guerrilha iniciada em 1963 e que opunha as tropas portuguesas ao movimento de libertação do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde (PAIGC). O PAIGC tinha emboscado e destruído o antigo quartel, e agora as forças portuguesas ponderavam reconstruir essa posição. A afirmação de territorialidade a par da colaboração com as populações eram pedras basilares da política de então.

Apesar de a distância entre Nova Sintra e Bissássema ser relativamente curta, pouco mais de 20 quilómetros, o risco de emboscada tornava praticamente inviável o trajeto em linha reta usando a estreita picada de terra batida.

A deslocação teria de ser feita fora dos caminhos habituais, num trajeto não linear e o menos previsível possível. A ida demorara cerca de seis horas e, depois de dois dias aí sediados para levantamento das condições, iniciaram o regresso.

A selva guineense, apesar de não ser habitat dos grandes predadores africanos, tinha os mais pequenos por “donos” do território. Formigas, mosquitos e serpentes, qualquer um deles um senhorio despido de um qualquer romantismo.

Fugir aos caminhos de terra batida e aventurar-se pela selva ou a savana da Guiné, apesar do romantismo e beleza natural, impunha um risco constante. A vegetação podia esconder trilhos traiçoeiros, fossos naturais, raízes escorregadias, e a falta de visibilidade facilitava encontros inesperados com cobras que, bem camufladas no capim ou sob troncos, são conhecidas pelo mau feitio com que reagem quando perturbadas. As formigas, embora infestante de pequenas dimensões, representam outro perigo real. Algumas espécies, como as formigas-safári, fazem longas marchas, têm um cheiro nauseabundo e, se importunadas, atacam em grande número e com picadas dolorosas. Estes ataques são tão maciços que obrigam qualquer viajante a recuar e a desviar o caminho. Nos trechos de savana aberta, o calor intenso, a escassez de água potável e a falta de sombra aumentavam a dificuldade da deslocação e transformavam qualquer percurso num sério desafio. Como se todos estes percalços não fossem suficientes, havia ainda sempre a possibilidade de serem emboscados, ou pisarem uma mina.

E foi o que aconteceu. Ainda estavam no início da viagem de regresso a Nova Sintra, quando o Mário Reis pisou uma mina e perdeu a perna esquerda.

O estalido foi tão breve que por um instante pensou que o tinha imaginado. Um som seco, deslocado, um pequeno erro como tantos outros que ocorrem. Depois, o chão abriu-se num clarão que não tinha cor, apenas força, uma força que o empurrou para trás como se o próprio mundo o rejeitasse. Quando voltou a ouvir qualquer coisa além do vibrante zumbido que lhe toldava a memória de si, foi então que percebeu que estava no caído. Atordoado que estava, piscou os olhos e viu o seu medo espelhado no rosto dos que o acompanhavam. Foi então, breves décimas de segundos depois, mas uma eternidade na sua mente, que se sentiu confuso, muito confuso.

A primeira sensação que teve não foi de dor, mas um vazio estranho como se o corpo não tivesse ainda decidido o que sentir. Tentou organizar o pensamento, mas tudo escorregava para longe, como água entre os dedos. Sentia-se com medo, confuso, e no meio de tudo ainda lhe sobrava a surpresa e a dúvida – será que aconteceu mesmo?

Tentou mover-se e o mundo respondeu-lhe com uma resistência nova, incompreensível! Olhou em volta, não para procurar ferimentos, mas para confirmar que estava ali, inteiro, vivo. O coração batia depressa, depressa demais como se tentasse em vão rebobinar a fita do tempo. As mãos tremiam-lhe sem que lhes tivesse “dado ordem” para isso. A seguir veio a negação, silenciosa, quase infantil – não, não pode ser! Ainda consigo levantar o corpo, só preciso de me concentrar! Mas o corpo não obedecia. Era como se a realidade tivesse ganho peso. Então aí, o medo entrou devagar. Primeiro como um frio na garganta, depois como uma presença total – medo de não conseguir mover-se, medo do que não via, medo do que ainda não sentia.

Só depois, muito depois, é que a dor começou a construir-se, subindo como uma maré inevitável. Primeiro um murmúrio, depois uma onda que lhe arrancou o ar dos pulmões. E naquele instante ele soube, com uma lucidez cruel, que nada voltaria a ser como antes.

Mário esvaía-se e o capim em seu redor tingia-se com a cor da sua vida. Era preciso atuar! Aquele corpo reconhecimento era composto de 30 homens, 30 pessoas vulgares, de dimensão vulgar, de perplexidade vulgar, de músculos-paralisados por um vulgar pânico de quem não sabe o que fazer! Afinal, a guerra é isso mesmo, uma surpresa que nos gela, primeiro incrédula, depois como se fosse obrigatório sentir o que o outro ainda não sentia.

Por entre os 30, não havia médico. Um médico por aquelas paragens era demasiado precioso para que pudesse ser jogado ao azar e ao sabor do risco. Um médico era um “bem” a ser sempre protegido – tão protegido que não estava presente, mesmo quando Mário dele precisou! Se a hemorragia não fosse estancada, se a intervenção cirúrgica demorasse, se tudo isso ocorresse, Mário corria o risco de a perda não se limitar à perna esquerda. Tinham de parar a hemorragia, de o levar para Nova Sintra para que pudesse ser evacuado de helicóptero.

Sem médico nessa coluna de 30 homens, os primeiros socorros foram prestados pelo enfermeiro Borges, que, apesar dos seus 25 anos, era competente, corajoso, de sangue-frio e eficaz no que fazia. Garrotado o membro e aplicado um penso compressivo, era agora preciso com urgência e de forma célere transportá-lo.

Foi aí que Mário percebeu que o acaso raramente alinha as desgraças todas no mesmo acontecimento. E se no meio do infortúnio tinha por perto o competente enfermeiro Borges, também a coluna era comandada pelo furriel José Augusto.

José Augusto, natural do Porto, mais conhecido por “Zeca da Beira-Rio”. Com 22 anos tinha completado o curso comercial e prestava o seu serviço militar como furriel da classe de sargentos – operações especiais, Ranger.

Filho de uma mulher iletrada e de um pai enfermeiro de profissão e bom homem de coração, teve uma meninice não muito diferente da que imaginamos nas crianças retratadas em “Aniki-Bóbó” de Manoel de Oliveira (1942).

Deve seguramente ter tido uma meninice traquina, pouco dada aos estudos, aliás, tão pouco aplicada que segundo contava, chegou a “vender” os manuais escolares para “tabaco e bilhar”!

Poderia ter uma juventude perdida e ser um adulto sitiado do outro lado das coisas boas. Poderia ter sido, não fora a frenética paixão pelo desporto que o levava a praticar quase todos os que existiam no Porto nos idos anos 60 e 70. E era um desportista magnífico. Empenhado, focado nos objetivos, atingiu tais níveis de excelência que não se estranha que tenha cumprido a instrução militar nas operações especiais dos Rangers. Fruto do desempenho físico e do curso comercial que, entretanto, completara foi mobilizado para a Guiné com o posto de furriel da classe de sargentos, e por essa inerência se deu que estivesse a comandar aquela coluna quando Mário Reis pisou a traiçoeira mina.

E assim, se foi o enfermeiro Borges quem prestou os primeiros curativos, foi o furriel José Augusto, que colocou o soldado Mário Reis nas suas costas e, por entre trilhos, veredas e capim, o transportou nos 15 quilómetros que faltavam para o destino. Um trajeto que demorou seis horas sem descanso e que cumpriu com resiliência e o espírito de “não deixar ninguém para trás”. Para os verdadeiros heróis, a grandeza está no gesto e não na sua proclamação.

E aquele avanço lento, quase sempre às cegas, surgia a cada inspiração arrancada ao esforço, a cada músculo levado além do possível. O peso de Mário, somado ao peso invisível da responsabilidade, imprimia nos ombros de José Augusto um dogma que não admitia hesitações. O calor húmido da selva e do suor colava-se ao corpo, roubava-lhe o fôlego, mas não a determinação. Cada passo era uma decisão renovada de avançar, de recusar o abandono, de afirmar que mesmo sem palavras, mesmo sem glória, mesmo assim, e em particular assim, a vida de um homem nunca é carga demasiada. Movidos pela cumplicidade e dever, entregaram-se ao esforço, pois todos sabiam que enquanto houvesse movimento, havia esperança.

Por entre o capim que lhes batia nas pernas e a vegetação que se fechava como um desafio, ergueu-se entre aqueles homens uma espécie de silêncio moral, não de medo, mas de firmeza. Ali, onde a distância parecia sempre maior do que os números, a resiliência não nascia de proclamações, mas da humilde aceitação de fazer o que tem de ser feito. Sem certezas e apenas com a sobriedade de quem sabe que a verdadeira força está em avançar quando o corpo pede repouso. Passo após passo, minuto após minuto, o grupo abriu caminho até Nova Sintra, levando consigo não só o corpo ferido de Mário Reis, mas a prova silenciosa de que, mesmo na dureza mais extrema, a ética reserva sempre uma doce vitória.

Hoje, Mário Reis, sabe que deve a sua vida a estes dois homens. O enfermeiro Borges, esta história perde-lhe o rasto. Por certo que continuou a ser um zeloso profissional, faltam-nos, contudo, o como e o onde – os heróis discretos deixam impacto, mas não deixam rasto.

O José Augusto, esse conhecemos bem a sua história. Em 1972 regressou ao continente depois de um serviço de dois anos durante os quais recolheu a admiração e respeito de todos quantos com ele atravessaram e partilharam esse período de suas vidas.

Regressado ao Porto com 24 anos e um curso comercial, continuou a prática desportiva exigente que sempre o caracterizara, tendo mesmo jogado como federado na primeira liga de basquetebol.

Nascido de humildes origens, com carácter forjado nas vielas de um Porto, agora só visitado por turistas, e temperado pela exigência do comando de 30 homens em teatro de guerra, o mesmo princípio de “não deixar ninguém para trás” que aplicou aos outros e pelo qual salvou Mário Reis, esse mesmo princípio de abnegação que lhe norteara a vida até então, decidiu com esmero aplicá-lo a si mesmo.

Enquanto trabalhava e se dedicava a várias modalidades desportivas, completou: o curso médio de Instrutores de Educação Física; a licenciatura do ISEF (76 a 81); foi docente de atletismo e avaliação em Educação Física ((82); prestou provas de mestrado em 1988; completou o doutoramento em 1993. Ao longo da sua vida académica doutorou dezenas, foi mestre de centenas, e é autor de mais de 150 publicações científicas internacionais. Enquanto desportista sénior o melhor que atingiu foi um 5.º lugar em maratonas de canoagem K2. Porém a idade não lhe iria acalmar o espírito nem o amor pelo desporto. Já depois dos 60 anos, enquanto veterano, e no seu escalão etário foi campeão da Europa e do mundo de canoagem, modalidade que abraçou enquanto docente, mas também enquanto praticante resiliente.

Volvidos 50 anos sobre as missões na Guiné, aquele almoço de saudade era mais que um reencontro com uma parte de si e o episódio que lhes mudara e moldara a vida.

Para todos, aquele reencontro não era apenas uma celebração do passado, mas sim a confirmação silenciosa de que certos gestos, os mais improváveis, os mais heroicos ou, os mais humanos, continuam a reverberar muito depois de cumpridos. José Augusto não salvara apenas a vida de Mário Reis, ajudara a erguer, sem o saber, a vida inteira que viria depois – a família, a carreira académica, os feitos desportivos, a autoridade construída no estudo e na superação. E ao olhar para ele naquele maio envelhecido, mas ainda firme na postura e na serenidade, era impossível não sentir que a força que o movera naquela savana distante permanecia intacta, talvez até mais nítida. Não era força física, essa sempre fora notável. Era sim uma força de carácter, um imperativo íntimo que lhe ditava, ontem como hoje, faz a o que deve ser feito.

E assim, quando a tarde se inclinava devagar sobre o grupo e as conversas começavam a dissolver-se no conforto das despedidas, tornou-se claro que nenhuma mina, nenhuma selva, nenhum acaso conseguira apagar aquilo que realmente definira aqueles homens – a fidelidade a um tempo partilhado, a consciência de que a vida se faz de escolhas que nos ultrapassam e de outras que só nós podemos carregar. Meio século depois, naquele almoço tecido de memória e gratidão, compreendia-se finalmente que “não deixar ninguém para trás” não fora apenas um lema de guerra era, para José Augusto, a forma inteira de viver. E por isso, todos ali reunidos sabiam que também eles tinham sido de algum modo resgatados.

# O mérito desta história é todo do José Augusto que teve a bondade de a contar por entre cafés e uma lágrima. Para mim fica a culpa e a ousadia de a ter escrito.