Se havia dúvidas sobre o estado melancólico da direita, a convenção da Iniciativa Liberal acabou com elas. Ah, já sei, vão dizer-me que a IL diz que não é de direita nem de esquerda. Desculpem, mas o truque é velho. Há cem anos, já Alain notava que quando ouvia alguém dizer que não era de direita nem de esquerda, percebia logo que era de direita. A direita tem muitas maneiras de ser tímida, e essa é a mais antiga de todas. Mas de que tem medo a IL?

Não tem medo de ser liberal, dir-me-ão. Sim. Há dez anos, liberal era sinónimo de fascista. Mas não foi graças à IL que isso mudou. Primeiro, foi graças ao Chega. Logo que apareceram os “populistas”, os liberais puderam brincar ao jogo do “fascista é ele, não sou eu”. O PPD, em 1975, jogou-o muito com o CDS. Segundo, foi graças ao BCE. O liberalismo assustou a esquerda durante a crise da dívida, quando as reformas estruturais pareciam inevitáveis. Se já não assusta, é porque o BCE, ao financiar os défices dos Estados, tirou urgência às reformas. Ao tornarem-se uma opção, tornaram-se menos prováveis, por não haver, desde que Rio chefia o PSD, força política para as fazer. O liberalismo é hoje inofensivo. E é por isso que há mais liberais agora do que em 2011, quando era perigoso.

A IL passou uma grande parte da sua convenção a discutir vacinas. É o que fazem os libertários na América. Mas deve ser esse o tema do liberalismo em Portugal? Antes da convenção, dois secretários de Estado de José Sócrates foram acusados pela justiça. Depois, um dos seus ministros foi preso. Entre 2005 e 2011, o PS protagonizou um projecto de domínio da sociedade através do Estado, cujas irregularidades e corrupções os tribunais vão agora examinar, mas a que a sociedade, na época, não conseguiu reagir. Só a crise da dívida externa, em 2011, parou Sócrates. Em 2015 os socráticos voltaram ao poder, amparados por PCP e BE. O BCE deixou-os formar, com os dependentes do Estado, um bunker eleitoral que os deixou à vontade para prosseguir o projecto de 2005.

Parece óbvio que aquilo que neste momento deveria definir a luta pela liberdade em Portugal não são as vacinas, mas a resistência a este poder socialista numa sociedade todos os anos mais enfraquecida pelo estatismo. No entanto, a  IL preferiu fingir que estava na América. É verdade: no fim, Cotrim de Figueiredo passou brevemente pela realidade portuguesa com uns remoques ao PS. Mas não foi isso que os seus correligionários discutiram. Também é verdade: a IL, ao contrário de Rio, ainda não vê nos antigos colegas de Sócrates os seus futuros companheiros de governo. Mas meio caminho já está andado: não é de direita (tal como Rio), é woke, vai às marchas do PCP, e até aceita a expansão regionalista do Estado.

Só há uma maneira de o dizer: a direita portuguesa tem tanto medo do PS como em 1975 tinha do COPCON. O COPCON prendia gente, mas o PS estraga negócios, impede carreiras, não deixa aparecer na televisão. Daí que o PSD tenha voltado a ser de “centro-esquerda”, como em 1975, e a IL diga que não é de esquerda nem de direita, exactamente como o CDS durante o PREC. Parecem convencidos de que não podem aspirar ao poder a não ser através de aproximações à esquerda (o “centro”, como lhe chama Rio), seja por meio de acordos ou de mimetismos. O Chega não está aí, mas tem o cuidado de ser genericamente contra “todo o sistema”, para evitar ser contra os socialistas em particular. Só o CDS de Francisco Rodrigues dos Santos se diz de direita e tem como prioridade ajudar a afastar o PS do poder. Espanta que os outros digam que vai acabar? Já quase ninguém à direita consegue imaginar que um partido em Portugal possa afrontar o PS e sobreviver. Estamos assim.

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