Confesso-vos uma coisa: nunca vi Donald Trump como um idiota completo (75% ainda vá). Aliás,  é provável que ele até goste que o considerem assim. Trump sabe que muitos o subestimam,  acham-no incapaz, ridículo ou mesmo perigoso. Mas talvez seja exatamente nesta perceção que reside uma das suas maiores forças: o homem aprendeu a transformar a aparente estupidez em vantagem estratégica, e não sou o único a dizê-lo. Kenneth Rogoff, economista de Harvard, afirmou recentemente ao Financial Times (julho, 2025) que Trump «está a acelerar  deliberadamente o declínio do dólar», uma jogada perigosa, mas que pode gerar benefícios imediatos para os Estados Unidos, mesmo que eventualmente acabe por corroer a confiança  internacional. E fica a questão: não será precisamente isso que Trump pretende?

A estratégia atual é bastante clara. Trump ameaça frequentemente impor tarifas comerciais pesadas contra parceiros estratégicos, sejam eles a China, a União Europeia ou o Japão, mas  raramente as aplica por completo. Gene Seroka, diretor executivo do Porto de Los Angeles,  afirmou recentemente que «só em junho deste ano se registou um aumento de 32% nas  importações face ao mês anterior» (Reuters, julho, 2025). Empresas internacionais apressaram-se a fazer encomendas nos EUA antes que as ameaças tarifárias se tornassem reais. É o chamado  “efeito chicote” das tarifas em pleno funcionamento: medo, ansiedade e sobretudo urgência  comercial.

Vejamos o caso recente da Walmart, que congelou quase um milhão de peças de roupa em  fábricas do Bangladesh devido ao receio de tarifas americanas (Reuters, julho, 2025). Os números  são claros. Desde janeiro de 2025, empresas europeias começaram a pagar preços exorbitantes  para armazenar produtos em armazéns alfandegários (bonded warehouses) nos EUA, com custos  por palete a subirem de 17,50 dólares para cerca de 150 dólares mensais (Business Insider, maio,  2025). Se isto não reflete urgência comercial, então o que refletirá?

Mas há mais nesta jogada. Trump está claramente a permitir uma queda significativa do dólar  porque sabe perfeitamente que uma moeda barata é irresistível para o comércio internacional  no curto prazo. Não é segredo nenhum que a moeda americana, após períodos de  desvalorização, volta sempre a valorizar-se. Neste cenário, comprar dólares em baixa para os  vender em alta é um movimento lógico para investidores experientes. Trump sabe-o bem e está  a apostar precisamente nisso. O dólar barato hoje é uma promessa de lucro amanhã.

Apesar de compreender a lógica estratégica por trás destas decisões, não me revejo nestes jogos  políticos e económicos. Sou um defensor assumido do comércio livre, com regras claras e iguais  para todos, fundado mais na reciprocidade do que na subsidiariedade. Defendo, com clareza,  um mercado aberto, competitivo, com restrições apenas pontuais e específicas em setores  verdadeiramente estratégicos. Aliás, posso dizer que sou um “filho” intelectual do modelo do Diamante de Porter e da ideia de competitividade das nações.

É por isso que me parece impossível ignorar os perigos imensos que a estratégia de Trump  encerra. Uma desvalorização prolongada da moeda pode facilmente disparar a inflação,  dificultar o pagamento da dívida externa dos EUA e criar pressões quase insustentáveis sobre as contas públicas. Aqui reside a preocupação mais séria: Trump está claramente a brincar com fogo  e talvez já não esteja por perto quando chegar a altura de apagar o incêndio. Porque incendiar  é fácil, extinguir o fogo é bem mais complicado.

Deixem me então voltar ao início, será Donald Trump um génio disfarçado de idiota, um mestre  do bluff no poker internacional, ou apenas uma velhinha insistente numa slot machine,  carregando nos botões até que o jackpot finalmente apareça? Provavelmente, Trump é um  pouco de cada uma destas personagens ao mesmo tempo, e é precisamente esta combinação  que o torna ainda mais perigoso e imprevisível.

No fim de contas, este jogo é demasiado sério para se deixar nas mãos de alguém que pode estar  apenas a contar com a sorte para resolver tudo. Mesmo no Poker, alguém acaba sempre por  pagar a conta. Esperemos apenas não ser nós a ficar com a fatura das apostas de Trump quando  a música parar e as luzes se apagarem, e alguém gritar a plenos pulmões “The show must go on”.