“Tudo aquilo que engana parece libertar um encanto.”
(Platão)

Esta é uma “notícia” que engana, mas sim, Platão tinha razão, liberta encanto. Conforme divulgou o Observador aqui, supostamente uma empresa – a Colossal Biosciences – trouxe de volta uma espécie extinta: o Lobo-terrível.

Não falta encanto nesta história: se a InGen criou um Parque Jurássico com dinossauros mas isso não passava de um filme, agora é real, a primeira “desextinção” da história e de uma criatura também ela fascinante, o Lobo da série da Guerra dos Tronos, supostamente o extinto Lobo-terrível.

Ora tudo isto é enganador: não há material genético do Lobo-terrível, mas sim a escolha de alguns genes de Lobo-cinzento com características que se assemelham não ao próprio Lobo-terrível mas sim aos Lobos da Guerra dos Tronos, para criar um animal que é um Lobo normal, com genes de Lobo normal, mas que aparenta ser um dos animais da série televisiva.

Dito por outras palavras, a tal desextinção pode ser muito boa para a empresa ganhar dinheiro e enganar entusiastas, mas é uma farsa, uma fraude, fake news.

Já agora, falemos mais um pouco sobre este animal. Foi um predador que viveu na América do Norte (onde foram descobertos os primeiros vestígios e onde seria mais abundante), mas também na América do Sul e provavelmente na Ásia, e que acabou extinto com o fim da era glaciar. Pensou-se que seria um lobo de grande tamanho. Todavia, estudos genéticos recentes mostraram que afinal não era um lobo, estando mais próximo dos Chacais e das Raposas.

Desconhecemos o seu aspeto. Mas não era assim tão grande: era do tamanho dos grandes lobos atuais (60-70kg), sendo que os Lobos-cinzentos com os quais conviveu talvez até fossem maiores. E uma vez que era uma espécie meridional, dificilmente seria branco. Provavelmente teria cores fortes, com vermelhos e castanhos como as Raposas e os Chacais e mesmo os Lobos meridionais, caso das subespécies Ibérica ou Itálica.

Portanto nem no aspeto a dita empresa conseguiu acertar.

Por alguma razão a novidade não foi partilhada pela Science ou pela Nature, mas sim pela revista Time.

Ainda assim, a Lusa fez a peça e a Comunicação Social portuguesa em peso limitou-se à divulgação acrítica: “Histórico” diz a CNN Portugal, “Desextinto” diz a SIC Notícias, “Revivem o lobo gigante da Guerra dos Tronos”, no JN, “Voltou o Lobo-terrível” diz… pasmem-se: A Bola…

Um bocadinho de trabalho permitia rapidamente perceber que isto não passa de uma farsa, mas se todos partilham, o melhor é partilharmos também, pensará a Comunicação Social preocupada apenas e só em vender informação – mas será que assim vende? com todos a dizer as mesmíssimas coisas? – sendo que a veracidade dessa informação, como é normal acontecer quando o processo se limita a isto, é… descartável.

Desde que o consumidor pague, ou não pagando, que o contribuinte seja obrigado a pagar, está tudo bem. Mas depois as redes sociais é que são o motor da desinformação, não são?