António Costa – por acaso – apanhou um autocarro para ir a uma Loja do Cidadão. E não é que – por acaso – estava na mesma carreira um jornalista pronto a fotografá-lo? A sorte, hein?

Foi mesmo sorte. Porque assim pudemos ver o nosso estimado primeiro ministro como ele é. Um homem simples e descontraído, que apanha um autocarro para ir tratar dos seus assuntos. Um de nós. Assim até fica a saber o estado dos transportes públicos em Lisboa (não é famoso) e o trânsito para quem não se locomove em viaturas oficiais prioritárias (ui, nem vamos falar disso). Não é uma pessoa altaneira que vai de táxi ou de uber, ou pega no seu carro e conduz ele próprio (ou pede a alguém da família para lhe dar boleia), como fazem os manientos atarefados que não podem perder tempo.

Alguma crítica merece esta artimanha inteiramente espontânea que por mero acaso foi parar aos jornais? Ora essa, claro que não. O nosso amado e reverenciado primeiro-ministro simplesmente mostrou as suas qualidades humanas. E é bom vermos essa parte dos políticos. Que, de resto, António Costa já havia mostrado quando posou, em família, para uma revista cor de rosa.

Há uns vinte anos, quando éramos todos menos enjoados e indignados, Herman José tinha um programa de humor que, pelo meio, tratava de coisas sérias. Uma vez convidou uma Elisa Ferreira ministra do Ambiente e uma stripper para se despir em frente à ministra em protesto pela poluição no rio Trancão. Mário Soares, então Presidente da República, foi entrevistado. E o casal Cavaco Silva, era a parte masculina do casal primeiro-ministro, também.

Se viajarmos para o outro lado do charco tudo isto é normal (menos a parte do autocarro de Costa, que essa é mesmo muito esticada na encenação). Os presidentes participam aqui e ali em programas de grande audiência, Michelle Obama vai dançar com Ellen Degeneres, a descontração é comum.

No ano passado, a família real espanhola fez uns vídeos supostamente caseiros mostrando os quatro comendo sopa e os reis levando as filhas à escola. A Rainha Isabel esteve em dois desfiles da London Fashion Week, sentada ao lado de Anna Wintour.

Mas vamos lá ter vários ataques cardíacos, apoplexias, surtos de urticária e mais umas maleitas porque Marcelo Rebelo de Sousa telefonou para Cristina Ferreira na sua estreia na SIC. Claro que se tivesse sido um presidente de esquerda, bom, estaria a revelar simpatia, boa disposição, a interagir com o povo via programa da manhã de televisão generalista, inteligência, bons instintos políticos, e por aí em diante.

Mas Marcelo Rebelo de Sousa não é um presidente de esquerda. Os presidentes de direita ou são austeros e rígidos como Cavaco Silva ou a esquerda não sabe o que fazer com eles. E à direita brotaram igualmente indignações – horror, um presidente tem de estar numa torre de cristal, intocável.

Vamos lá ver. Há muito para criticar no Presidente, que é histriónico e imprudente em abundância. Levamos as mãos à cabeça quando aparece no local de acidente de um elétrico descarrilado em Lisboa ou numa avioneta que cai perto de Tires. Ou quando emite notas sobre a morte de cantores pop estrangeiros. Ou, pior, ao botar faladura aprovadora sobre a péssima ideia que é eliminar as propinas nas universidades públicas (leia-se: os bloquistas querem não ter de pagar pelos cursos dos seus filhos nas universidades públicas).

Mas quanto a Cristina Ferreira, lamento, podem arvorar-se em grandes puristas do sentido de Estado, que Marcelo fez muito bem. Porque foi genuíno, estava a comunicar com os seus súbditos – como é seu dever – e, na verdade, não fez nada de extraordinário. Neste país cinzento repleto de pessoas que têm medo de ser ligeiramente diferentes, tudo se leva a mal e tudo rompe o pudor e faz enrubescer as vestais.

Fez bem porque foi uma forma inteligente de dar uma estalada de luva branca em Manuel Luís Goucha e nos que decidem o conteúdo do seu programa, depois da apologia de Mário Machado. Foi uma magnífica afirmação de que quem promover criminosos nazis terá a oposição do Presidente. Palmas.

(Já agora, os meus dois cêntimos sobre o assunto. Não, o problema nem era a ideologia do convidado, foi colocar um criminoso violento elevado a comentador da atualidade política – digo o mesmo de Otelo ou de Isabel do Carmo – o que ninguém com juízo faria. Não o convidar não era restringir a liberdade de expressão do dito, porque a liberdade de expressão não implica ser convidado para programas de televisão de grande audiência. Se a TVI tem liberdade para convidar quem quiser, os espetadores potenciais têm também liberdade de expressão para poder mostrar repúdio.)

Marcelo Rebelo de Sousa fez bem, ainda, porque nestas ocasiões estrepitosas, quando não se excede, é um populista benigno. Os populismos acontecem por muitas razões, algumas sinistras. Outras relacionam-se com o sentimento de abandono pelas elites, a discursarem para si endogamicamente, preocupadas com estratégias políticas e números como se ambos não impactassem na vida dos cidadãos, por vezes de forma brutal. MRS consegue criar empatia com as pessoas e fazer-lhes acreditar que tem os seus interesses no centro da sua atuação. Tem a linguagem dos populistas – extirpada das boçalidades – sem o fardo da ideologia problemática.

Passos Coelho aconselhava as populações a não darem presentes de Natal aos filhos. Costa é postiço e inconfiável até à medula. De Sócrates nem vale a pena falar. Temos Marcelo Rebelo de Sousa e, goste-se do estilo ou não, os políticos portugueses do arco moderado faziam bem em aprender com este Presidente.