Thiago Ávila é “internacionalista”, “comunicador” e (suspiro) “socioambientalista”. Thiago Ávila é, também, admirador do Hamas (claro), adorador do Hezbollah (obviamente), fã do Irão (como não podia deixar de ser), aficionado de Cuba (evidentemente), entusiasta da Venezuela (nem era preciso dizer) e devoto da China (Deus o ajude, se Marx estiver ocupado). E, mais importante do que tudo isso, Thiago Ávila é o futuro companheiro de viagem de Mariana Mortágua. Neste domingo, a líder do Bloco de Esquerda vai meter-se num barco da autointitulada “Flotilha da Liberdade” que pretende “quebrar o bloqueio” de Israel a Gaza e “fazer chegar mais auxílio à região”. Como acontece com qualquer adolescente antes de um Interrail, Mariana está entusiasmadíssima com os amiguinhos que levará consigo. Tremelicando de antecipação, a bloquista anunciou: “Estaremos bem acompanhados por dezenas de ativistas de várias pontas do mundo, como a Greta Thunberg ou o Thiago Ávila.”

Presume-se que a esmagadora maioria dos leitores desta coluna saiba já tudo o que nunca quis saber sobre Greta Thunberg. Mas presume-se também que não conheça ainda absolutamente nada sobre Thiago Ávila. Peço desculpa por estragar esse estado de sublime ignorância: vocês eram felizes e não sabiam. Este influencer brasileiro anti-capitalista tem mais de 750 mil seguidores nas redes sociais e, nos seus vídeos, aparece sempre com um keffiyeh inseparável nos ombros, com um sorriso inamovível nos lábios e com um neurónio solitário na cabeça.

Quem o ouve é informado, angelicamente, de que o Hamas é uma organização conhecida, reconhecida e admirada pelo seu “trabalho humanitário, de saúde, de educação”. Há, lamentavelmente, aquele detalhe desagradável da “estratégia de enfrentamento militar”. Mas, para Thiago Ávila, que apesar de tudo condena o 7 de outubro, essas minudências devem ser gentilmente enquadradas “na dinâmica do direito internacional que diz que o povo tem direito a lutar para se libertar” e (pausa para limpar uma lágrima) devem ser delicadamente englobadas no “contexto do surgimento de organizações que pensam um mundo mais justo e mais igualitário”.

Os seguidores do companheiro de viagem de Mariana Mortágua consomem também muitos vídeos sobre o Hezbollah. Há uma péssima razão para isso. É que, sendo Thiago Ávila um pequeno ídolo dos movimentos de “libertação” e “resistência”, foi convidado este ano para ir ao Líbano assistir às cerimónias fúnebres de Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah morto por Israel. Morto, não: usando as palavras do influencer brasileiro, que de resto têm um simbolismo ominoso, ele foi “martirizado”.

A ala militar do Hezbollah é considerada uma organização terrorista pela União Europeia e Nasrallah nunca ocultou a sua santa vontade de exterminar Israel, “o Estado dos netos de macacos e de porcos”. Mas isso são irrelevâncias. A borbulhar deslumbramento, Thiago Ávila fala da “grandeza” do falecido, que os libaneses, aparentemente, consideravam (podem colocar aqui o emoji do coração) “um pai”. Tudo o resto é difamação e conspiração: “Muitos sionistas tratam esta organização e estas pessoas como terroristas. Noutros momentos, movimentos de libertação também foram tratados assim. É importante não ser simplista.”

Não querendo ser “simplista”, arrisco sugerir que também seria “importante” manter a coerência: o Hezbollah é um movimento fundamentalista islâmico, mas a esquerda radical tem ataques de urticária de cada vez que ouve falar em religião. Ele resolve essa difícil contradição com recurso à clássica luta de classes: “Hezbollah significa Partido de Deus, mas, no fim das contas, é o partido do povo.”

É com a mesma leveza que o companheiro de viagem de Mariana Mortágua se dobra e contorce para encaixar o mapa-mundo nas fronteiras das suas peculiares convicções. Cuba e Venezuela são ditaduras? “A qualificação de ditadura é própria do imperialismo”. E a Rússia e a China? “Não as considero ditaduras”. E como avalia países da Europa ocidental? “Não considero a França uma democracia. Quem vence as eleições é quem tem mais dinheiro.”

É todo um programa: a França inspira repugnância a Thiago Ávila; o Irão, não. A embaixada do Irão no Brasil elogiou o seu “trabalho de comunicação e solidariedade com a causa palestiniana” e, em junho do ano passado, convidou-o a ir a Teerão participar num evento com o comovedor nome “Gaza, oprimida mas resiliente”. O regime deu tanta importância a esta reunião de amigos internacionais do ayatolah que enviou ao encontro deles o presidente do parlamento iraniano e o ministro dos Negócios Estrangeiros.

Thiago Ávila passa tanto tempo a elogiar “mártires” que, recentemente, convenceu-se de que também pode ser um. Há poucos meses, publicou um vídeo nas redes sociais com o título “Thiago Ávila recebe ameaça identificada como Mossad: ‘Nós estamos seguindo você’”. Ao longo de onze minutos, o candidato a “mártir” mostra um papel “com o logótipo da agência de espionagem israelita Mossad e com a foto do diretor dessa agência” que alguém lhe terá enviado para casa. Ele lê o conteúdo do texto: “Nós estamos seguindo você, nós observamos tudo o que você faz”. E conclui: “Que absurdo”. De facto, é absurdo alguém pensar que os serviços secretos israelitas iriam enviar uma carta pueril com o seu logótipo e com a fotografia do seu diretor como forma de ameaçar um “internacionalista, comunicador e socioambientalista” brasileiro. Não se percebe como essa evidência não o impediu de ter feito queixa na polícia e, pior, de ter publicado um vídeo-denúncia mantendo a cara séria.

Quer dizer: pensando melhor, percebe-se. Afinal, o exibicionismo político resulta. Fazer vídeos sobre a Mossad, visitar o Irão a convite, desculpar ditaduras, prestar homenagem ao líder falecido do Hezbollah e, agora, meter-se num barco em direção a Gaza é a melhor forma de Thiago Ávila adquirir relevância nos estreitos meios em que se move. Ele tentou outra: por duas vezes, apresentou-se como candidato e pediu votos pelo Partido Socialismo e Liberdade. Obviamente (Mariana Mortágua diria: estranhamente), não foi eleito.

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