Câmara Municipal Lisboa

Medina loves Madonna /premium

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Temos uma EMEL pidesca e uma falta de estacionamento atroz nas zonas antigas de Lisboa, sem que a CML se preocupe em dar solução aos residentes. Mas disse aparentemente Fernando Medina não quer saber.

A minha única explicação é Fernando Medina ter tido uma paixão de adolescência por Madonna de que ainda não recuperou. Talvez se eu fosse responsável camarária em Lisboa e me aparecesse Tom Cruise (ainda melhor se usasse o mesmo blusão de aviador que vestia em Top Gun) pedindo-me, sei lá, para encerrar a Ponte Vinte Cinco de Abril durante seis meses para filmar uma qualquer mistela cinematográfica de ação, era menina para estudar o caso e fazer tudo para aceder.

Fernando Medina talvez tivesse o seu quarto de adolescência repleto de cartazes de Madonna com aqueles corpetes que Jean Paul Gaultier lhe desenhava para os concertos e para essas relíquias que eram os videoclips. Ou, quiçá, deu o primeiro beijo ao som de ‘true blue, baby i love you’. É a única explicação benigna para o que aconteceu com a cedência, com contrato em cima do joelho e a preço de saldo, dos estacionamentos perto da Rua das Janelas Verdes a Madonna. Porque a outra justificação que sobra é a de Fernando Medina ser sociopata e estar a torturar deliberadamente os lisboetas.

Mas não, tem de ser caso de paixão assolapada de décadas. É que além da cedência dos estacionamentos, o que mais justificava que fossem funcionários camarários que andassem à procura de locais para os carros de Madonna? Que diabo, mas a que propósito andam funcionários pagos pelos impostos dos portugueses e lisboetas à procura de sítios para um privado (com recursos para pagar estes serviços principescamente) ter estacionamento? Foram funcionários da CML que contactaram o Museu Nacional de Arte Antiga, e lá se deslocaram, pedindo para o museu ceder estacionamentos a Madonna. Funcionários da CML foram ver as traseiras sugeridas pelo MNAA para verificarem se serviriam as necessidades de uma moradora privada daquela zona de Santos. Mas… mas… como?

E por falar em MNAA. O MNAA está num local de difícil estacionamento. As ruas circundantes têm muitos carros e poucos lugares, há um minúsculo largo à frente de uma das entradas sempre apinhado de carros de visitantes. Não é um local prático para visitar, sobretudo com crianças ou pessoas com dificuldade de locomoção. Não há estacionamento, não há metro (a parte ocidental da cidade não tem), os passeios são estreitos (e com a maldita calçada portuguesa). Mas afinal fico a saber que a CML tem um terreiro perto do museu, onde cabem pelo menos quinze carros, e que nunca se lembrou de disponibilizar o acesso aos visitantes do MNAA. (Que, de resto, bem precisa de ganhar mais dinheiro na bilheteira.) Nem aos moradores da zona, de resto.

Dificilmente me verão arengar contra os turistas, mas apreciava que a administrações central e local se ocupassem a promover e a facilitar o usufruto de bens culturais pelos habitantes portugueses permanentes. Tornar mais fáceis as deslocações até um museu importante se calhar seria avisado como pré requisito de política cultural. De resto, moro não muito longe do MNAA, vou lá com relativa frequência (e incómodo) ver exposições temporárias. O MNAA tem um café e restaurante no jardim com vista para o Tejo bem simpático. Se fosse mais fácil a deslocação este café poderia ser melhor rentabilizado e trazer mais receitas para o museu, que delas faria bom uso.

Por outro lado, temos uma EMEL pidesca. Uma falta de estacionamento atroz nas zonas antigas de Lisboa, sem que a CML se preocupe em dar solução aos residentes. Não quer saber. Medina, com as obras do mandato anterior, reduziu por todo o lado onde passou o número de estacionamentos. Qualquer pessoa que queira legalizar uma garagem é maltratado pelos gabinetes técnicos (passei por uma experiência destas há uma década e meia) como se estivesse a roubar espaço público. Os parques de estacionamento que fazem falta não são construídos.

E, perante tudo isto, Fernando Medina cede galantemente quinze estacionamentos a Madonna. Pensando bem afinal é sociopatia.

Permitam-me um salto final à operação Tutti Frutti. Há uma investigação, vamos aguardar. (Ui, até pareço um político a comentar.) Mas enquanto aguardamos podemos alterar legislação de modo a minorar estas, digamos, tentações. Podemos começar por impedir a acumulação de cargos eletivos pelos vários políticos. Sejamos francos, não há em Portugal uma dúzia ou duas (ou dez) de pessoas assim tão maravilhosas que sejam necessárias na Assembleia da República, nas câmaras municipais, nas freguesias, em todo o lado. Continuemos com a franqueza: ou são super-homens e super-mulheres (e todos sabemos que não existem fora dos filmes e da banda desenhada, não é?) ou são negligentes com os vários trabalhos, porque não se dedicam tanto quanto devem a cada um deles. E, por fim, sejamos mesmo, mesmo sinceros: quantos mais cargos se acumula, mais ligações de poder se estabelecem, mais orçamentos se influenciam, mais pessoas se podem contratar, mais avenças e serviços se vota a adjudicação. Traduzo: mais probabilidade há de tráficos de influências e corrupção. Uma forma de limitar estes infelizes fenómenos é dividir o poder por um maior número de pessoas e não permitir a acumulação de poder por poucos. É uma reforma que faria bem a todos os partidos. O que significa que provavelmente nenhum a defenderá.

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...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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