Tenho uma proposta imbatível para o nome do museu sobre aquela-coisa-que-não-deve-ser-nomeada: Museu das Perigosas Viagens de Barco de Madeira até Terras Distantes, a Este e a Oeste, que Poderiam ou Não Ter Pessoas Lá a Viver, Incluindo Algumas em Estados Civilizacionais Mais Avançados Que o Nosso. Fernando Medina que aproveite já este nome, não precisa de agradecer nem de pagar direitos de autor.

Mao Zedong bem dizia para usar o passado para servir o presente. Aquilo que celebramos da história (e o que esquecemos) é sempre mais ilustrativo do presente do que do passado. Confesso, porém, que esta sanha de politizar tudo – que é o ar do tempo dos inícios do século XXI – me satura muito. Como o estado novo glorificava os descobrimentos e difundia delírios luso-tropicalistas, o Portugal democrático tem de fingir que não navegámos para mais longe de cem milhas do cabo Espichel. Ou que, quando transgredimos para além desta boa fronteira, só fizemos aleivosias sobre os povos com que contactámos.

Um termo que sempre usámos e era consensual – Descobertas – e que todas as almas portuguesas reconheciam, agora está proscrito e não pode ser usado para dar nome a um museu das descobertas, perdão, daqueles eventos que aconteceram depois de 1415. Dêmos graças que vivemos num tempo em que tudo é ofensivo. ‘Judiarias’ ofende os judeus, ‘ceguetas’ ofende os portadores de astigmatismo, ‘Galamba’ e ‘Câncio’ ofende as pessoas desleais. Os ingleses ofenderam-se com a rábula de Herman Joséa Sir David Attenborough na Eurovisão. (Mas ofender os malditos imperialistas pode ser, ou não?)

Que os outros povos não foram descobertos, nós é que fomos importuná-los nas suas terras sem nenhum convite. Mais, asseveram-nos: é uma reafirmação do eurocentrismo, logo grande desconsideração pelos egos dos povos não-descobertos – enfim, eu diria que Portugal tem direito a contar a sua história do seu ponto de vista, mas afinal estou confusa e desorientada. Felizmente nos anos 90 ainda não tínhamos chegado a este estado de parvoíce geral, ou nunca teríamos tido uma Expo 98 para celebrar os endiabrados descobrimentos. Teria sido tão mais lindo e inclusivo fazermos uma exposição internacional, sei lá, sobre a perseguição (mas benigna, atenção) dos arianos em certas zonas da Africa subsaariana, ou, melhor ainda, sobre essa grande e gloriosa epopeia (essa sim!) das viagens marítimas de Zheng He na China Ming. Esses é que são motivos para Portugal celebrar.

Portugal, apesar dos fracos recursos, foi o primeiro país europeu a iniciar viagens pelos mares no Renascimento, o que, goste-se ou não, mudou a história. Numa versão incipiente do mundo atual, o que ocorria numa parte do mundo passou a ter impacto no hemisfério oposto. A querela dos ritos ocorrida com os jesuítas na China teve influência na decisão de dissolver a ordem religiosa na Europa no século XVIII. Porque os britânicos roubaram os arbustos de chá da China para os plantar na Índia, atualmente os indianos produzem mais de 20% do total mundial de chá. Poderia ficar dias dando exemplos semelhantes.

A polémica devia andar à volta de ter tardado tanto criar um museu sobre este período da história. Mais ajuizado seria as vestes rasgarem-se por ainda hoje não termos em Lisboa uma réplica de uma nau e de uma caravela visitáveis pela criançada (e pelos pais). Há uns anos os meus filhos adoraram passear umas horas na costa sul da Madeira na réplica da nau de Cristóvão Colombo. Eu lembro-me de com oito anos ter visitado outra réplica da mesma nau em Barcelona. Por cá? Académicos e comentadores amofinam-se por não termos um museu da escravatura (que até temos, em Lagos, onde também há réplica de caravela) e consideram ´descobertas’ sinónimo de ‘povos atrasados que pela graça de Deus colonizámos’.

Aplaudo que o futuro museu dê uma ideia mais real do que foi a expansão portuguesa que aquela fantasia rosada que nos é ensinada na escola. Índia e China foram, até à revolução industrial, os dois países mais ricos do mundo – não eram magotes de selvagens à espera da redenção civilizadora cristã e portuguesa. O comércio intra-asiático já era um negócio milionário quando chegámos ao Índico e foi por se inserirem nele que portugueses ganharam dinheiro, não com a exportação frequentemente ruinosa de produtos asiáticos para a Europa. O poderio militar português naquelas paragens foi quase sempre periclitante. A expansão territorial em África fez-se aos sobressaltos e não é bem representada pela indignação nacional com o ‘roubo’ do mapa cor de rosa. Estas complexidades devem estar presentes no tal museu de qualquer coisa, que não vale a pena ser de glorificação bacoca.

E, claro, há a escravatura. É um tema da expansão portuguesa, não lhe podemos fugir. Mas também não vale a pena transformá-lo no tema principal nem utilizá-lo para autoflagelações. Os contribuintes portugueses já têm uma vida espinhosa, não precisamos acrescentar-lhes pagar um museu que se dedique a explicar-nos como somos a escumalha da terra por culpa dos nossos (longínquos) antepassados esclavagistas. Uma reflexão é adequada; uma catarse penitencial dispensa-se.

Posto isto, que se faça o museu. Por favor não lhe deem um nome excessivamente ridículo. Interculturalidade, por obséquio, poupem-nos. Felizmente os académicos indignados também não gostam, porque isso, garantem, continua a dar uma ideia de qualquer coisa calamitosa.

Fernando Medina deve estar a cogitar na má hora em que resolveu fazer uma (das poucas) proposta eleitoral assisada. Se tivesse prometido um mamarracho horripilante para colocar ao lado do Padrão dos Descobrimentos celebrando a irmandade de Lisboa com Gaza, os seus amigos não teriam protestado.