Estamos em julho, mas já há uma série de palavras que podem ser escolhidas como as palavras do ano: Boris, demagogo, irresponsável, populista, volátil, golpe e o termo “falta de democracia”.

Sendo que estas palavras são, essencialmente, expressas por pessoas que não aguentam que se pense de uma maneira diferente da sua.

Vamos por pontos.

Primeiro: Boris Johnson não é igual a Donald Trump. Além do cabelo, que efetivamente os caracteriza e o facto de serem os responsáveis pelos seus países, não há mais nada que os una. Boris é um académico por excelência, tendo várias obras publicadas. Tem provas dadas no mundo político: foi deputado entre 2001 e 2008, Mayor de Londres entre 2008 e 2016 – onde realizou um grande trabalho, caso contrário não teria concluído dois mandatos, nem tão pouco, saído do cargo com uma taxa de aprovação positiva – e ainda, Ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2016 e 2018. Boris é um típico político conservador, parecido com David Cameron ou Theresa May, não fugindo das políticas dos seus antecessores no que toca à área da economia. Boris apresenta-se também como um liberal nos costumes. Já Trump não é nada disto.

Segundo: o facto de não terem existido eleições é perfeitamente normal no sistema político britânico. Boris Johnson não foi o último a ter alcançado Downing Street através deste sistema e provavelmente não será o último – Winston Churchill, no seu primeiro mandato como primeiro-ministro britânico, ascendeu sem ir a eleições.

O sistema político britânico intitula-se como um sistema maioritário. Este modelo organiza-se a partir de um sistema de apenas uma volta com base em círculos eleitorais, onde é eleito um deputado por círculo. Ora, é verdade que este sistema pode revelar-se um bocado injusto, uma vez que os partidos mais pequenos acabam por não ter a representação real no Parlamento, de acordo com os resultados eleitorais alcançados. Mas o sistema é mesmo assim, o propósito passa por eleger o partido que tenha tido a maior escolha popular de maneira a que este governe sozinho, levando a que haja uma maior estabilidade parlamentar. Não obstante esta “injustiça”, este é o método de governação que cria uma maior política de proximidade entre o eleitor e o político. Tendo Theresa May vencido as eleições há dois anos é perfeitamente normal que a transição seja feita desta forma natural e sem eleições.

Terceiro: criticar Boris Johnson por ser demagogo e populista é impreciso. Caso passe a ser prática apelidar políticos como populistas por estes não cumprirem as suas propostas ou por passarem mensagens falaciosas, entramos numa generalização total. Ora bem, é legitimo, mas então todos são. Vejamos uma coisa: grande parte dos políticos mentem. Por vezes uma mentira em que se sabe desde o início que a afirmação é falsa. Exemplo: António Costa afirmar que a austeridade acabou, isto representa uma mentira na sua totalidade; meias mentiras, onde há uma verdade, ainda que esteja seja completamente inócua, existindo uma omissão de factos importantes. Exemplo: Marta Temido, Ministra da Saúde, afirmar que o SNS está melhor hoje do que há quatro anos; e as mentiras sobre o futuro, que é quando um político sabe no exato momento em que as faz, que não as vai poder cumprir. Exemplo: Passos Coelho afirmou em 2011 que se fosse eleito primeiro ministro não aumentaria os impostos.

Portanto, tudo isto são estilos de demagogia e de populismo, alguns mais diferentes do que outros, mas que no fim se encontram todos no mesmo paradigma. Está errado, mas é prática geral.

Em quarto lugar, o acérrimo ataque à volatilidade de Boris. Não é comum que uma pessoa tenha a mesma opinião durante anos e anos. Quando se discutiu o casamento homossexual, grande parte das pessoas que na altura eram contra, mudaram de ideias com o tempo e são hoje defensoras do casamento entre homossexuais. Mas aqui não há volatilidade (negativa) há apenas uma evolução de pensamento. Portanto, não é justa esta designação, qualquer pessoa tem o direito a mudar a sua opinião, até mesmo um político.

Boris enfrentará um período muito difícil, à semelhança de todos aqueles que tentam negociar o Brexit. Tem claros defeitos que o perseguem e que muitos poderão apontar o dedo, mas antes de criticarmos tudo e todos, devemos olhar para nós primeiro.

Devia ser assim na política e na vida.