Li hoje no Observador, assinado pela jornalista Ana Suspiro, um relato de declarações do ministro Pedro Nuno Santos. Transcrevo a parte relevante do texto por ela publicado: “E aproveitou para contra-atacar um “comentador” que pediu a sua demissão. O advogado “mais rico do nosso país” “esqueceu-de de dizer que era do escritório que representava o acionista privado e a própria TAP. Há quem não tenha vergonha. Temos de denunciar quando as pessoas usam o espaço público para defender interesses seus”.

“Pedro Nuno Santos não identifica pelo nome, mas esclarece que a inicial está na sigla do escritório. É uma referência direta a José Miguel Júdice do escritório PLMJ”

A declaração do ministro Santos na Assembleia de República foi a solução que lhe restou depois do “Expresso” ter feito o trabalho de casa e não ter aceitado afirmar isso, apesar de lhe ter sido sussurrado.

A declaração do ministro é grave e patética.

  1. Não sou “do escritório de PLMJ”, não sou sócio de PLMJ desde 1 de janeiro de 2019 e não exerço a profissão de advogado desde 1 de janeiro de 2020, e ainda menos em PLMJ.
  2. Nunca fui e não sou advogado da TAP e ainda menos – se possível – de algum “acionista privado”. Nunca os representei para nenhum efeito.
  3. Não tenho nenhum interesse financeiro ou qualquer outro no futuro da TAP ou de nenhum “acionista privado” da empresa. Não tenho desde 1 de janeiro 2019 nenhum interesse nos resultados económicos ou financeiros de PLMJ.
  4. Não sou o advogado “mais rico do nosso país” – a afirmação é patética e falsa. E, como exemplo, não tenho nem nunca tive um Porsche 911 (o meu carro é um banal BMW série A).
  5. É verdade que dava jeito ao ministro Santos que eu tivesse um Porsche e não o tivesse vendido.
  6. O ministro Santos em tempos respondeu deste modo a um jornalista: P. Houve uma altura em que foi muito falado um Porsche que comprou. Já o vendeu?
    Santos: Já. Eu e o meu pai sempre gostámos de carros. Mas admito que foi um erro.        Porquê? Santos: Depois fui criticado por me desfazer dele, mas continuei certo de que o meu erro tinha sido a compra. Com o trabalho que faço, julgo que é um mau sinal que não é coerente com aquilo que quero fazer e com a forma como quero estar na política. Era uma despesa que, para mim, era supérflua e que não se justificava. Às vezes, fazemos coisas na nossa vida de que nos arrependemos. Obviamente que não fiz nada de errado, não tenho sequer um discurso moralista sobre gastos ou consumo, mas de facto não tinha sentido.
  7. Mas além de patético o que Santos afirmou é grave, e cito: “Há quem não tenha vergonha. Temos de denunciar quando as pessoas usam o espaço público para defender interesses seus”
  8. O meu erro não foi comprar um Porsche ou vendê-lo. O meu erro foi ousar criticar um poderoso ministro e afirmar que ele devia ser demitido. A brutalidade com que ele reagiu à adversidade da crítica, a forma carroceira com que tenta intimidar que se mete à sua frente, não hesitando em falsa e injustamente atacar a sua honra e bom nome, revela um caráter ou a falta dele.
  9. O ministro Santos não tem vergonha e não tem Porsche; mas tem Poder. Não se pode realmente ter tudo. Mas entregar Poder a pessoas que não hesitam em difamar para intimidar é um risco. Não chego a denunciá-lo, pois os factos notórios não necessitam de prova.

19 de maio de 2020