Prólogo

No dia 18 de Julho de 2022 Marcelo Rebelo Sousa quis juntar-se a um pequeno grupo de amigos que numa casa fora de portas festejava o aniversário de uma das suas amigas ali presentes. Muito próxima daquele “visitante-surpresa” ela foi de resto a primeira a espantar-se com a súbita aparição no jardim de um surpreendente pai natal estival ajoujado em prendas e espantando todos.

Mas aquilo que seria um jantar festivo entre alguns amigos “de sempre” transformou-se subitamente, no pós-café, num facto político:

“O almirante Gouveia e Melo vai candidatar-se à Presidência da República”.

O quê? Mas que ideia?! A que propósito? Com três anos de antecedência, que “certeza” tão despropositada… Olhares atónitos, adjectivos que valsavam entre a total incredibilidade e o maior dos absurdos, risos. Ninguém acreditou: onde fora Marcelo buscar “aquilo”?

Mas Marcelo não riu. Não fora buscar a lado nenhum: não precisara, observara. E durante uma longa dose de tempo, a conversa noctívaga transformou-se num monólogo onde constava uma quantidade considerável de detalhes, informação, observação, exemplos, apontamentos. Numa soma de sinais que ele vinha a coleccionar criteriosamente e queria agora deixar ali sob a forma de uma candidatura presidencial.

Lembro-me bem que mesmo soterrado pelo brilho do raciocínio e a eloquência da análise, o eco da plateia foi porém modesto e a fé nenhuma.

O que as coisas são.

1 Tinham passado três anos, finalizava agora Maio de 2025 – foi há dias – e eu estava diante de uma televisão, sozinha em casa. Concentrei-me. Demorei tempo, voltei a ver. Ouvi com atenção. Não me estava a ser fácil identificar-me a mim própria numa espécie de auto-constrangimento embaraçado. Como alguém que de repente não sabe onde está mas percebeu que se enganou na porta de uns estranhos.

Seria o azul glacial do olhar, a entoação sincopada das palavras de efeito, o fio de autoritarismo que percorria a voz de Henrique Gouveia e Melo? O sortido de frases que da esquerda à direita passando pelo tal “centro” (?) qualquer presidente de Junta poderia assinar?

O écran da televisão surpreendia-me com uma cerimónia que parecia a sépia, face a uma plateia de gente indistinta, sem um assomo daquela vibração que traz consigo o anúncio de qualquer coisa que se quer que aconteça. E os não “indistintos” eram ou são figuras ainda com forte assinatura na desgostante actualidade de que se queixam. Uma trapalhada entre sistema e anti-sistema mas não valia a pena estranhar mais coisas. Nada daquilo era comigo.

2 Não era: não por preferir estar noutro “lado”, mas por não querer estar naquele.

Sucede que não estou nem cansada, nem farta, nem zangada. Não tenho que me vingar “desta” democracia como se o seu único destino fosse arrumá-la hoje numa gaveta de trastes velhos, ou etiquetar os últimos 50 anos como “lixo”. Sucede que foi aqui que muito trabalhei, escrevi, conheci, reuni, juntei. Combati e acreditei. Não tem nada a ver com o tempo nem com a idade, é uma pertença: com tudo o que de simultâneo ela possa ter acolhido de bom e albergado de mau.

O sistema caducou, o regime está exausto, vai ser preciso tratar de um e salvar o outro. Dir-me-ão: já não “se” está aí, o país já está “noutra”. É verdade mas eu vou ficando onde estou. Não por segurança, reacionarismo, instalação. É ainda mais banal que isso: porque não gosto dos dessa “outra” e é duvidoso que precise de ser “salva”. Nem gosto dos salvadores, nem dos seus arautos, nem dos encenadores das grandes estreias políticas pré anunciadas.

Estou bem aqui.

3 Diante de um “candidato-buffet” qualquer um se pode servir com leveza e sem remorso. É o caso de Gouveia e Melo. Seguiu-se um cardápio de meras boas intenções com tom e som generalista. E depois foi-se ao nosso habitual providencialismo e escavou-se até ao fundo no sebastianismo nacional sempre pronto a ser ressuscitado por anónimos “apelos”. Também foi o caso.

A farda foi usada o tempo conveniente para deixar marca e memória num povo que as estima e o estimou a ele. É genuinamente para parte desse povo o “novo herói” mas é exactamente assim que se geram os equívocos fatais.

Um brioso perfil militar, em nada se confunde com uma vocação política civil, ou uma aptidão evidente para a Chefia do Estado, conforme amplamente se observou esta semana num exercício televisivo monocórdico e sem surpresa. Parecia uma coisa sem motivo aparente e talvez não se possa dizer pior.

Na sua inexperiência, Gouveia e Melo foi quase pueril na forma como nos mostrou desconhecer o que pressupõe passar a porta do Palácio de Belém “fardado” de Presidente da República.

Ah foi moderado e sensato? Foi. E quê?

4 Podia ter sido melhor o meio século? Poderia sempre, pela própria definição da pergunta. Bateu no fundo como apregoam os providenciais salvadores? Bateu algumas vezes, voltou à tona, conforme os seus melhores ou piores timoneiros, num imenso lago de águas de glórias, erros, conquistas, feitos, entendimentos, erros, virtudes, vícios, brilhos e tropeções. Dito de forma desarmantemente simples: com avanços e recuos e não é senão disso que é feita a vida, o andar dos povos, o fermento da História.

5 Já agora… Mesmo que sejam muitos os que preferem ser resgatados por Gouveia e Melo e Ventura (claro que falo de ambos como de uma dupla), como tencionam eles lidar com os quase 60 por cento de portugueses que não quererão ser resgatados? Convencê-los, amestrá-los, reeducá-los, castigá-los? Não me admirava: a fúria desabrida com que um, Ventura, ameaça – “Ah isso agora vai tudo acabar” – e a suposta autoridade do outro quando sinaliza lugares comuns que quer transformar em mandamentos, deixam qualquer ser normalmente constituído entre o pasmo e a perplexidade.

Quem são eles, afinal?

De mim, sei eu: não!