É inevitável questionar se Portugal estará verdadeiramente preparado para enfrentar situações de emergência, como a que se viveu recentemente ontem com o apagão que afectou todo o território nacional.

A ocorrência deixou evidentes as fragilidades da nossa infra-estrutura energética, e levantou questões sérias sobre a dependência do nosso país face a sistemas estrangeiros, nomeadamente à rede eléctrica espanhola.

Na manhã de ontem, pelas 11h36, encontrava-me em casa a trabalhar, quando subitamente tudo parou. Num primeiro momento, a ausência de energia eléctrica gerou apenas estranheza. Contudo, rapidamente compreendi que o problema era generalizado: ao sair à rua, constatei que todas as habitações em redor se encontravam igualmente às escuras. Pela primeira vez em vários anos, liguei o rádio em casa — um aparelho que, até então, apenas utilizava no automóvel — e foi assim que soube que a falha de energia afectava todo o país.

A situação agravou-se com a interrupção no fornecimento de água. Estive várias horas sem acesso a água potável e, perante essa necessidade básica, decidi dirigir-me a um supermercado. Aquilo que lá encontrei foi um cenário caótico: prateleiras vazias, clientes em pânico, correria, empurrões e um clima de tensão generalizada. A dada altura, o ambiente tornou-se verdadeiramente apocalíptico, fruto do desespero colectivo e da completa ausência de informação fidedigna.

Segundo informações transmitidas mais tarde, a origem da falha terá estado numa avaria numa central espanhola, responsável por grande parte da distribuição de energia eléctrica para Portugal. Esta revelação fez-me reflectir profundamente: por que razão continuamos tão dependentes de Espanha no que toca a um recurso tão essencial como a electricidade? É urgente repensar a nossa política energética e assegurar que, em situações extremas — como uma catástrofe natural ou até um conflito internacional — o país não fique vulnerável.

A verdade é que tive alguma sorte. Após várias horas de espera no supermercado, consegui finalmente adquirir duas embalagens de água engarrafada. Até às 14h00, não havia informações claras na rádio sobre o que se passaria nas horas seguintes. Falava-se num prazo de quatro a cinco horas para restabelecer o fornecimento de energia em Lisboa, mas tudo era incerto.

Durante as dez horas em que estive privado de luz, aproveitei para ler o livro Lições do Abismo, de Daniel Sampaio. A leitura revelou-se particularmente simbólica: envolto numa atmosfera de melancolia e tédio, senti a ausência da tecnologia — do computador, da televisão — e a angústia de não conseguir contactar os meus pais, a minha namorada ou os meus amigos. O livro, embora interessante, não me salvou do sentimento de tédio.

Foi apenas pelas 23h00 que consegui, finalmente, realizar uma chamada para alguém muito especial. Coincidiu com o momento em que as luzes se reacenderam nas ruas, dissipando o apagão e devolvendo alguma normalidade ao quotidiano.

Este episódio serviu de alerta: Portugal precisa de investir na sua autonomia energética, melhorar os seus sistemas de resposta a emergências e garantir que os cidadãos não ficam desamparados perante situações de crise. Só assim deixaremos de ser vistos como um país vulnerável e passaremos a ser uma nação verdadeiramente preparada para enfrentar o futuro.